O rapaz do semáforo

Nunca soube o nome dele.
Estava todas as manhãs sentado num semáforo deLisboa junto a umas bombas de gasolina. Ao lado tinha um saco de plástico com qualquer coisa comprada em última hora na loja de conveniência do lado.
O rosto exibia as marcas de uma destruição rápida, mas nos olhos transparecia um orgulho envergonhado de quem, assim que o vermelho acendia, estendia a mão direita a cada um dos condutores parados naquela demora também ela vermelha. Vestia roupas que, via-se, tinham sido caras, mas estavam tão gastas quanto ele. Era um observador. Pedia com os olhos nos olhos dos que esperava que lhe dessem uma moeda para o ‘vício’, para se manter.
Quando chegou à minha vez, estendeu-me a mão como aos outros mas ao olhar para o banco de trás do carro, viu que havia jornais. Perguntou-me se já os tinha lido. Eram do dia anterior. Dos dias anteriores e estavam ali esquecidos na sua actualidade efémera. Disse-lhe que sim e ele limitou-se a olhar. Dei-lhe os jornais e a partir de então, sempre que parava naquele vermelho diário, lá estava ele: “Dra tem o jornal de ontem?” E eu passara a tê-lo sempre no banco do lado, à mão da mão dele.
A leitura do dia anterior era a sua rotina além daquele sentar e levantar a estender a mão. Dia a dia assisti à sua decadência física.

E um dia ele não estava lá, e o jornal do dia anterior seguiu comigo e eu temi o pior.
Ele, aquele rapaz sem nome, fazia parte da minha vida, das minhas manhãs, e não consegui abrir o sorriso quando noutra manhã, passados muitos dias, ele voltou, mais gordo, mais limpo, cabelo cortado, mas com o mesmo saco ao lado, a estender-me a mão para o jornal do dia anterior. Nunca me pediu mais nada. Só a leitura.
Foi assim durante longos meses, num aparece e desaparece em que ele chegou às muletas, às chagas no rosto, a uma debilidade física que no entanto não lhe tirava a curiosidade de saber como ia o mundo. Nunca lhe perguntei nada sobre a sua vida. A dignidade que apresentava ao pedir impedia-me de o fazer. Ele pedia, mas só dava quem queria e ele não praguejava à maioria que não dava nada. Voltava a sentar-se e abria o jornal que tinha sido meu, à espera que o sinal voltasse ao vermelho. Ele, o rapaz a quem nunca perguntei o nome e que um dia tinha sido muito bonito, talvez de uma família bem de uma cidade que ele rejeitou ou por ela foi rejeitado, deixou de aparecer. E então foi para sempre.

Ainda continuei com o jornal do dia anterior, que passou a um monte de jornais de dias anteriores, no banco do lado. Até que desisti.
Mas aquele semáforo, onde continuo a parar muitas vezes, passou a ser o semáforo do rapaz que pedia jornais e pelo qual aprendi a ter um sentimento que não sei descrever.
Acho que não há palavras para tudo, que faltam inventar algumas. Como aquela que não encontro para descrever o que senti quando, anos depois, num café de Lisboa, alguém me tocou no ombro e disse: “Olá Dra, tenho o jornal de hoje”

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