Os Bravos

12 de Agosto de 2006.

Dia que não se apaga e que a memória apurou.

Um cais, um barco com dois remos.

Três homens que correm em sintonia empurrando-o para o mar “Tá hão” como diz Lucas, o velho pescador. “Está para meninas”. Lucas. O meu nome. O nome que o meu avó me deixou. Zé como ele.  É cedo. Manhã ainda com o sol por detrás das rochas e eles fazem-se à agua.

É dia de ir longe. Até à rocha onde poucos se atrevem.

São três homens. Chamam-lhes os mais corajosos marisqueiros daquela costa. Ágeis. Secos. É assim que tem de ser. Olham o mar como quem lhe tira as medidas.  Há um barco maior à espera.

A lonjura tem de ser percorrida a motor. Fala-se pouco por ali. É na água que todos procuram indicações porque com mar não se fala com palavras.  São os olhos que guiam o barco até onde deve ir. À mais cobiçada e menos conseguida de todas as rochas daquelas águas que vão da Carrapateira até lá acima, a praias cujos nomes não vêm no mapa do turismo, uma costa que vai ficando com as linhas cada vez menos definidas quanto mais o barco se aproxima da pedra. A pedra da Atalaia. Quem conhece sabe o respeito que o nome impõe. Não é para todos. Sorte a destes audazes que conhecem cada armadilha daquele mar que bate no escuro da pedra cravejada de percebes. É essa a riqueza. É por ela que eles se batem porque o verão não dura sempre e é preciso alimentar o inverno.  Ainda não é real. Só vendo. Vendo como vestem os fatos de mergulho e se transformam lentamente em profissionais de uma profissão que não vem em nenhum guia da segurança social. A burocracia não chega a todos cantos. Garimpeiros do mar seria um nome que não lhes ficaria mal, mas este garimpo é tão arriscado… Saltar do barco para a rocha é um movimento que não permite falhas. Estudado. Um só salto. A hesitação pode custar uma perna ou a vida, que por ali tudo é escorregadio e a única segurança está num sapato roto de mergulho. Roto de tanto se fazer ao risco. Roto de tanto a vida nele se apoior.

Estes três homens são apanhadores de percebes. Os melhores percebes do mundo, garantem. E como não acreditar? Na rocha, vistos do barco, parecem homens rã. Homens com tentáculos, curvados sobre a pedra à cata de cada recanto, de cada cacho de bicho gordo. Uma aventura contra o tempo. Mínimo de tempo para o máximo de marisco que vai directo para dentro de sacos que é proibido perder. É lá que está o ouro pelo qual arriscam a vida nos dias em que o mar deixa. Uma corda, amarrada à cintura e presa num ponto seguro, agarra-os. Há a tareia das ondas, o mergulhar para chegar onde ainda ninguém chegou, num equilibrismo periclitante e sempre o olhar a maré para que não suba demais e atentar no barco que vai anunciando o rumo da corrente. Estão expostos. Totalmente expostos a um mar que sabem de cor, mas que traz sempre surpresas. Não têm medo de dizer medo. Se ali não há medo onde pode então estar esse sentimento que não permite a mínima distracção ou é a morte do artista. Têm duas horas para mostrar o que valem. Duas horas para roubar à rocha sem se deixarem roubar por ela. E tomam conta uns dos outros. Cuidam-se sem mostrarem fragilidades; conversam por gestos sem gestos a mais. São bravos e os bravos não precisam de exibir a bravura. Sozinho, o barco onde chegaram já deu a volta àquele que se poderia chamar um ilhéu. Ilhéu sem pontos planos, sem dó. Ilhéu que gosta de estar sozinho e detesta ser confiscado. Ilhéu de muitas correntes e tantas ondas que ferem quem nelas não souber cair. Fazer-se às ondas num ilhéu que corta. Mãos, pés, fatos. Eles fazem-se, mas sabem esperar.  Aprenderam com o corpo que não vale a pena desafiar uma pedra como a da Atalaia. Estes são homens com nome. Têm história, têm uma vida. Pouco importa. Só importa sobreviver durante duas horas, o tempo da maré baixa. Ali são só três homens e uma rocha num mar imenso, presos ao mundo por uma corda e sapatos rotos. O que é isto? Ver para crer, a máxima que condenou S. Tomé, e saem três sacos cheios de marisco pago a peso de ouro num restaurante de praia. Caro? É uma vida por uma pedaço de sabor a mar.

E há um telemóvel que toca. Anuncia outra vida, vida nova a quem ficou no mar. Olho vivo. Não vá vir o enjoo.  O horizonte é o ponto seguro.  Esquece-se. Que se lixe. Há uma vida e é preciso gritá-la. E do barco, já com os pescadores em posição de descanso, grita-se então: “nasceu o Gabriel”.

Foi longe. Em Lisboa. Mas na Carrapateira os sorrisos abrem-se. Falta mais um salto. O último, que a maré não dá para mais, e já com os três bravos o barco faz-se ao cais ainda a manhã corre fresca.


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