Voo

Todos olhavam, mesmo os que fingiam não olhar. Ou sobretudo esses.

No meio de um grupo de excursionistas a Fátima que saudaram a entrada no avião com um “Avé Maria” em bom português da América, destacava-se um rapaz loiro, olhos azuis, porte atlético, barba meio escanhoada e um colarinho que o identificava de imediato como padre católico. Como os outros, os que fingiam, também fingi ver e não me interessar numa normalidade ensaiada. Como todos, ele arrumou a mala no cacifo e retirou um livro. Ele e o livro vieram na minha direcção. Estava ali o meu companheiro de viagem.

Interpretei o facto, meio a brincar meio a sério, como uma bênção à minha partida. Sete horas a cruzar o oceano com alguém que me confessou não se cansar de olhar a terra a partir do céu. Era dele a janela. E dele o entusiasmo.

Vinha de Fátima sem tempo de conhecer Lisboa. Lamentava não ter exploraado a cidade que lhe pareceu bonita. “Gorgeous”, disse, após elogios à refeição servida a bordo e que agradeceu em oração, sem embaraço de ser observado, numa intimidade que senti perturbar. Não notou ou fingiu não notar e nada melhor do que falar de comida para quebrar o gelo e perguntar coisas de um país de que viu pouco

Filho de um electricista que assustou o pai quando lhe anunciou a intenção de ser padre, o mais novo dos filhos, único homem, único capaz de lhe levar o negócio por diante. Fez a universidade, teve tempo de namorar e perguntou a Deus porque o estava a castigar daquela forma quando quando via casais de namorados, crianças com os pais. Mesmo assim diz que compensa. Só ainda não se habituou muito bem ao colarinho. Ainda sente os olhares, o constrangimento da identificação imediata pela diferença. Mas vai contando que não é padre vinte e quatro horas por dia ou sete dias por semana, embora ser padre implique uma condição. É quando tira o colarinho branco e vai fazer jogging, ou conversar com os amigos, ou visitar os pais à quinta onde cresceu, no estado de Nova Iorque, embora sem quase ter pisado Nova Iorque. “Só fui duas vezes à cidade e de passagem”. Curiosidade? Claro. Está em Albany, a cinco horas de carro. Diz que dos outros só o distingue o celibato prometido e os olhares desconfiados quando tenta ajudar sem que alguém lhe peça. Só? Ele sorri, vai arranjar explicações e prefere dizer que põe questões em vez de duvidar, mesmo quando sente a solidão, os momentos de desespero. “São breves”, não se pense que ande a demorar neles. “Deixar de pôr questões é triste”, continua. E ele põe. Perguntam entre olhares à terra por cima das nuvens. Põe os auscultadores, liga iPod e ao aterrar o aperto de mão apertado: “Sou o David”.

(crónica publicada no Diário Económico de 8/4/11)

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