O ensaio

Não estava ali.
O mar não se ouvia.
O dia era um daqueles em que a chuva e as nuvens abafam qualquer som, apenas o piar das gaivotas à cata de caraguejo na maré quase vazia.
Mais nada. Nem os cães nem as crianças, nem a música que sabia sair de um carro parado a pouca distância.
A paisagem parecia dentro de um capacete naquele Atlântico ao contrário, do outro lado daquele onde me habituei a ir buscar o cheiro e assistir ao fim dourado dos dias de verão e início de outono, o mar da minha praia virada a oeste.
Aqui, eu, como a gaivota a ensaiar o voo de aproximação.
Pensei em Joseph Conrad, o lobo do mar que não perde o Norte no mar.
Eu estava a Leste.
Virada para a praia que não via, inspirando o ar a querer resíduos de iodo longínquo. Achei. Vestígios de um cheiro familiar que me devolveu a tranquilidade só possível em casa. Parece que estava a começar a ganhar outra, um lugar também meu. Por amor, por adopção, porque sim, porque me adapto e sou ali aquele bocadinho feliz que os inconformados às vezes conseguem ser. “Lucky me”, pensei e olhei para os céus, cinza escuros, a fazer figas não vá algum mau olhado tirar aquele pedacinho de alegria, passar-lhe uma rasteira e atirá-lo à areia.
“Não sabes ser feliz”, dizem alguns que me conhecem ou pensam conhecer. E não é que às vezes dou por mim: “Será?”
E lá está a gaivota a ensaiar o voo como eu a ensaiar a vida. Nova. Por aqui. Por amor, por um sonho, pela realidade.
O mar tem disto, mesmo que ao contrário: os pensamentos andam vagos, parecem contagiados pelo ritmo das ondas, as tais vagas que ali não têm tamanho. Curtas, rasteiras.
Não o mar imenso e a espuma. Boris Vian andou por outro mar. A espuma dos dias não vem daquelas vagas.
E lá estou eu na espuma de outros dias. Outros meus dias por outros mares, enquanto ali não há espuma. Pouca espuma para poucos dias.
Nem som. Só um leve rufar que embala. Embala mesmo. Era só deixar ir… Mas falta essa disponibilidade. Mental. Física. Algo sempre a resistir.
Pena não ser como a gaivota que não se assusta com o meu aproximar tão seduzida que anda com aquela água que lhe dá tudo. Ela embala-se. Não resiste. Vai.
E eu presa a ela, a querer não resistir. Como é? E ela olha e eu disparo o flash e ela não desvia o olhar.
Penso não existir. Eu. Não há som, não há sinais da minha presença, nem sombra de mim na areia tão apagado está o sol, filtrado.
Quase não há som, quase não há cheiro, nem sombra.
Duvido de mim e olho e vejo um vulto ao longe que me devolve a identidade.
Ufa! E de novo o mar.
A gaivota avança para ele. Abre as asas. ganha altitude e mergulha, certeira.
Eu disparo.
Apanhei-a numa objectiva que tenho a ilusão de a tornar eterna.

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