Monthly Archives: May 2011

dor no pé

Fiquei à espera com um livro do Afonso Cruz.
Era noite em Lisboa e ele trazia-me coisas de outras terras onde a sabedoria não precisa de cadernos nem canetas e nos é atirada à cara sem cerimónias de bem-parecer. Cresci com essa sem-cerimónia e sei o que ela é, o que ela custa, o que ela desarma.

O livro conta a vida de um pintor descoberto na província com tem direiro a quadro na parede da casa da Figueira da Foz, mesmo por cima da arca. Há sempre uma arca numa casa velha de pronvícia. Toda a gente sabe.
E o quadro ficou por lá com a sua história para ser contada, e como Afonso, o pintor, o ilustrador, o designer, o músico dos Soaked Lamb, não gosta de deixar histórias por contar – “temos de as soltar para que possam correr todas nuas” -, resgatou-a e aqui está ela contado no impulso como deve ser com as histórias para que guardem alma.  Ainda o prato de favinhas com chouriço não tinha chegado à mesa e já eu ia dentro dela, com a mãe dele, a de Sors, o pintor, no dia em que o médico anunciou aos pais, na hora do parto, que aquele bebé tinha um olho em meia-lua, sinal de que iria ser artista. Não de circo, como a mãe ainda sugeriu, mas dos outros, e ela não viu nisso qualquer beleza, qualquer vantagem na liberdade que lhe apregoavam como boa como a de olhar sempre o mundo como da primeira vez.

“É a maior infelicidade. Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições.
Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios.
Quero que os lençóis de ontem, mesmo que os bordados sejam completamente diferentes.
Não quero que os beijos que recebo sejam novos, quero que sejam velhos, quero que sejam os de sempre.
Não me quero sobressaltar como quando era jovem. Uma pessoa só pode ter paz quando está ao pé das mesmas coisas, quando nem repara nelas, porque elas já fazem parte de si, como se as tivesse comido e mastigado e engolido e agora fossem carne da sua carne e sangue do seu sangue.
Só somos felizes quando já não sentimos os sapatos nos pés.”

E é esta frase que resume tudo, todo o incómodo do novo, e apetece citá-la, guardá-la na memória para a ter a jeito, só no caso… O Afonso tem esse olhar capaz de filtar o essencial de uma realidade que muitos não conhecem e tendem a julgar como má. É preciso saber a razão pela qual a mãe de Sors, o pintor, não gostou nada da profecia de que o seu filho iria ser um daqueles sempre a ver o mundo como novo. Na sua sabedoria, sem cadernos nem canetas, ela sabia que isso tinha o incómodo do sapato que magoa o pé, o tal que nos recorda que temos um pé quando era suposto esquecer porque ele está lá é para andar e não para fazer doer.

As favas estavam na mesa. A companhia para o jantar chegou, e o Afonso, com aquela invulgar sensibilidade de quem conta mas não julga e mesmo assim comove – ou só por ser assim comove tanto – tinha-me serenado e posto de bem com o mundo num dia em que parceia que o mundo não queria nada comigo. Foi um dia em que o sapato andou sempre a lembrar-me que eu tinha um pé, a mim que não tenho nada de artista.
Fechei o livro, mas aquele mundo, que era o mesmo em que eu nasci, não me largou na grande cidade onde eu comia agora favas com chouriço sem medo de querer olhar sempre o tal mundo como da primeira vez.

E não é que nunca comi favas assim… Obrigada Afonso por este “O Pintor Debaixo do Lava-Loiças”

Advertisements

“Eu sou o escritor que não sofre”


A feira fechou, mas Ignacio del Valle ficou a dar autógrafos depois das luzes se apagarem e a conversar com quem descobriu na escrita dele a mesma compulsão detectada e elogiada por Urbano Tavares Rodrigues.
Depois de ler “Os Demónios de Berlim”, o mais recente romance de del Valle, o escritor português não descansou enquanto não conheceu o responsável por tê-lo feito passar uma noite em claro. Não foram insónias. Foi o prazer da leitura, esse tal jogo ou brincadeira que o espanhol Ignacio del Valle gosta de jogar, seja em campo, enquanto criativo, seja numa poltrona a recrear-se com o talento de gente como Cormac McCarthy, o americano desapiedado que conta histórias como quem dá murros certeiros, ou Eça de Queirós, o autor português que melhor conhece e que gosta de citar para provar que a boa literatura não tem idade.

Se a literatura tem uma função, e tem, é a de entreter e que não haja medo da palavra. “Não se retira prazer apenas do facilitismo. Uma peça de teatro é um prazer, um bom prato é um prazer, como é um prazer uma ópera ou um grande romance.” E que prazer aprender com as boas coisas da vida! É a melhor forma de adquirir conhecimento”, vai dizendo Ignacio del Valle.

Aos 40 anos, e depois do sucesso literário da trilogia que dedicou à II Guerra Mundial, del Valle prepara-se para mudar de território. E não é sem dor que se separa de Arturo Andrade, personagem com quem conviveu dez anos e da qual se despede agora como de uma relação amorosa. Arturo foi o protagonista de “Os Demónios de Berlim”, o thriller que começa com a invasão soviética naquela cidade dominada pelo caos, em 1945. Foi o derradeiro título de uma trilogia que começou com “A Arte de Matar Dragões”, ao qual se seguiu “O Tempo dos Imperadores”, a ser adaptado ao cinema por Gerardo Herrero. Um adeus sem data de regresso. Isto se houver regresso. Não por o tema se ter esgotado, mas porque “neste momento não tenho mais nenhuma questão a colocar”, justifica-se Ignacio del Valle, mais interessado por outro tempo, outra geografia. Para trás ficou a Europa, e o próximo romance, já concluído mas ainda sem data de edição, centra-se em Nova Iorque, a grande obsessão literária deste espanhol natural de Oviedo, onde nasceu em 1971, e actualmente a residir em Madrid.

É de Nova Iorque que parte uma história de amor passada na actualidade; é ali, naquela cidade onde Ignacio quer viver mas não morrer, que decorre também a maior parte deste a que concede chamar um romance político, embora “todos os romances sejam políticos”, defende. E todos são também histórias de amor. É disso que é feita a vida. De uma emoção que se cria e que nos move. E é disso também que se faz a literatura tal como a entende este escritor que gosta de ser contaminado pelo “american way” de contar uma história. Não ao jeito de Don DeLillo, autor de “Cosmopollis” ou o “Homem em Queda”: “Ele não escreve romances, mas ensaios. A diferença é que arranja personagens para dizerem aquilo que ele pensa.” Daí a preferência por Cormac McCarthy, “o fantástico narrador, seco, sem uma palavra a mais, que escreve sobre a condição humana através de histórias intemporais. ”Quem lhe dera ser contaminado, confessa sem esconder a admiração e a tal capacidade de escrever por imagens. Se a sua escrita é visual – e até tem um livro adaptado ao cinema –, então a culpa é de McCarthy, quem mais?

Com seis romances publicados até agora, traduzido em várias línguas, Ignacio espera a publicação do próximo romance com a expectativa de quem já conheceu o sucesso e sabe que ele lhe pode fugir. Sentiu, aliás, o amargo do fracasso. Um ano e meio passado a escrever um romance que ficou na gaveta por ser “mau de mais”. Lamenta, mas sabe exactamente onde estão os erros. Passou muito tempo a olhar para eles, a perceber as razões, a fragilidade e só depois avançou para o outro. O que já está escrito e há-de vir para as livrarias. “Foi difícil lidar com isso, mas não foi tempo perdido. Aprendi e só por isso estou aqui, continuo a escrever”. E não há amargura. Há um sorriso para dizer que a escrita não é uma angústia. Um prazer que dá muito trabalho. 95 por cento de suor e o resto é o tal incontrolável, que não sei de onde vem.” Se há o retrato do escritor sofredor não é o de Ignacio. Como, se me pagam para viajar, para estar nestes hotéis, para ir a bons restaurantes. Quantas pessoas não sonham com esta vida?” Ele sonhou um dia e por isso dedica 14 horas diárias à escrutina nos tempos em que está para nascer um livro. E não há tiques de vedeta. “Posso escrever em qualquer lado.” Poderia agora estar a escrever o romance de que não quer falar. Embrionário, top secret, com um cadáver para resolver, mas isso é o menos. O mais é emoção. É para a criar que existe a sua luta de escritor.

De pantufas, na rua Basílio Teles

Vinha de casaco de tricô beige. Um casaco sem tempo, de lã grossa com borbotos. Não lhe chegava aos joelhos. Abotoava à frente, com botões de madeira, e tinha dois bolsos, um de cada lado, naquela malha que imita ondas como as do mar que gostava que o levassem a ver. Era nesses bolsos que às vezes punha as mãos enquanto andava com passos miúdos. Sem pressa e silencioso. “Tenho um pé que já deu a volta ao mundo”, escreveu ele em “Autografia”, poema que haveria de ser nome de filme biográfico. E deu a volta ao mundo porque o mundo era ele, diria também. E ninguém diria ao vê-lo assim, num tempo em que já não escrevia, com as pantufas que não chegava a descalçar para ir almoçar ali, naquele restaurante onde agora entrava, como entrou em tantos outros dias antes. Gestos repetidos de um quotidiano em que sair de casa de roupão era o pouco que lhe restava para provocar, ele, a quem Luís Pacheco – outro surrealista — chamou um dos “surreal lisboeto”, “malta de cafés e outros estabelecimentos, com vidas mais ou menos precárias, histórias psiquiátricas e uma predilecção por álcoois”, como recordava Pedro Mexia, num suplemento “DNA”, de Abril de 2004. Para ele, agora, era só descer as escadas, virar à esquerda no passeio estreito de uma rua sem história de Lisboa e entrar na porta ao lado.

Já não escrevia versos em 2002, mas pintava e “a pintura foi outra maneira de andar”, disse ele um dia, nesse mesmo ano, quando lhe atribuíram o Grande Prémio EDP, distinção para a sua obra plástica. 
Andava e às vezes não ia com o casaco beige. Levava antes um roupão cinzento, de quadrados. Era quando estava mais frio. Mas mantinha as mãos nos bolsos que só tirava para ajeitar a boquilha onde o cigarro queimava. Entrava e havia cabeças que se viravam para o ver entrar, sem a companhia “de gente altamente suspeita”, como acontecia quando o viam na noite, quando frequentava a noite. Isso anotou ele noutro poema. Agora entrava, esperava que lhe indicassem uma mesa e sentava-se. Levava a irmã, Henriette, com quem vivia, a mesma que em “Autografia” — o documentário de Miguel Gonçalves Mendes estreado em 2004 — se definiu como uma “antiartista” e irmã “de um santo irmão”.

Era Henriette, a mais velha das três irmãs, ou então um amigo, quase sempre o mesmo, alguém com um rosto em que ninguém se fixava porque os olhares só perseguiam aquela cabeça branca com queixo adunco, riso escarninho desenhado na boca e contagiando os olhos; riso sarcástico de um sarcasmo que se recusava a envelhecer, apesar do corpo cada vez mais curvado, frágil. A maior parte das vezes calado outras soltando um cumprimento efusivo, dizendo palavras que sublinhava com gestos exagerados. Cesariny no seu teatro, “performer nato” segundo quem o conheceu de perto a dizer palavras. “Palavras que nos sobem ilegíveis à boca / palavras diamantes palavras nunca escritas / palavras impossíveis de escrever / por não termos connosco cordas de violinos / nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar…” (in “You are Welcome to Elsinore”).

E as palavras, o “dever de falar”, dependiam da assistência. Porque vê-lo entrar era uma espécie de happening, um acontecimento, uma liturgia. Mário Cesariny de Vasconcelos, o poeta, o pintor, numa rua sem história, num restaurante fora de roteiros, a comer, de pantufas e roupão, mesmo por baixo da casa que lhe deram para viver, em Lisboa, mas longe da Lisboa que sempre transportou para a sua poesia. A dos bares do Cais do Sodré, das tertúlias, dos cafés Gelo e do Royal num tempo salazarista que o perseguiu pela sua homossexualidade. Ele estava ali, na Rua Basílio Teles, rua sem história, mas onde ele encontrou estórias para um poema. A rua da casa, a rua do restaurante para onde ia de pantufas e roupão. E para que menu? A ver pelo cardápio, dos que se guardam em vidro com fechadura, do lado de fora da porta, decerto diferente daquele que Cesariny descreveu em “Homenagem a Cesário Verde” e publicou no livro Pena Capital (Assírio & Alvim): “Depois do bolo-rei comeram-se sardinhas / com as sardinhas um pouco de goiabada / e depois do pudim, para um último cigarro / um feijão branco em sangue e rolas cozidas.” Ali, nada disso. No máximo uma lampreia vinda do rio Minho e feita por encomenda, uns joaquinzinhos com arroz de tomate e sardinhas, mas sem goiabada…

Não deixem morrer os burros

Em Zamora e no planalto mirandês há gente apostada em preservar uma espécie que os livros condenam à extinção. De um lado e de outro da fronteira, homens e mulheres procuram nova função social para uma população de menos de três mil burros. Do turismo à ajuda na recuperação de deficientes, da produção de carne ao leite e à cosmética. São testes sem muito tempo para falhar.

Adolfo tem 70 anos e um rosto onde as rugas só aparecem quando não ri. Por isso, o melhor é dizer que aos 70 anos não se acham rugas em Adolfo Garzón de San Miguel porque o sorriso é a expressão natural deste homem de olhos azuis que grita num castelhano nasalado “los burros me encantan”. Vive e sempre viveu numa povoação de pedra a uns 15 quilómetros da fronteira com Portugal, seguindo pelo Douro. “Esta é a aldeia de Castilla com mais asnos.” Diz isto e ri com um riso completo, barriga a tremer e olhos a fecharem-se enquanto afaga Malina, burra com mais de 20 anos que ainda leva para o campo, lhe carrega lenha e vive na porta ao lado da sua.

Em Villalcampo, terra de Adolfo, vivem 300 pessoas e 200 asnos. Quase não se vêm crianças e os carros contam-se pelos dedos. Por ali, os burros passeiam-se em liberdade pelas ruas, pachorrentos como cães sem trela, e ao vê-los ninguém diria que pertencem a uma raça cujo destino natural é a extinção (ver entrevista).
Adolfo e Villalcampo existem e tipificam um cenário que, tal como os burros, ameaça eternizar-se em postal ilustrado. Pertencem à categoria das raridades como tantos outros homens e algumas aldeias do outro lado da raia, em Trás-os-Montes.
Malina, Bonita, Esplêndida e Morena, as quatro burras de Adolfo, são de raça zamorana, considerada “espécie em perigo de extinção” pela União Europeia. Esse estatuto vale-lhes direito a protecção e equivale subsídio aos proprietários. São iguais à Andorinha e à Bomboca, fêmeas de lã comprida e desgrenhada que pastam do lado português da fronteira, na aldeia de Atenor, tão deserta de carros quanto Villalcampo, com as mesmas casas de pedra, mas a cair, pontuadas de palacetes de emigrantes e velhos ao sol em dia feriado. A estas burras, chamam-lhes mirandesas, por serem de Miranda. Correm tanto risco quanto as vizinhas espanholas, mas a burocracia de Lisboa ainda não as inscreveu em Bruxelas. Na realidade, estão em extinção. Oficialmente nem por isso.
Olivier Campardou, francês dos Pirinéus, anda entre Zamora e o planalto mirandês só para ver burros. Como Adolfo, deixou-se um dia encantar por eles, mas ao contrário de Adolfo e de outros criadores da península, transformou encantamento em negócio e isso faz dele um exemplo. Apresenta-se como pioneiro no retomar de uma tradição que se perdeu com a II Guerra Mundial. Produz cosméticos a partir de leite de burra.

Parece saído da cidade, até na boina que podia ser de artista mas é de agricultor. Não se incomoda com o cheiro a bosta, o odor natural em Villalcampo. “Isto é o paraíso na terra. Tudo em pedra e os burros em liberdade junto com as pessoas”, vai dizendo num castelhano de erres pouco carregados, quase perfeito, enquanto segue Adolfo. O leite que Olivier retira das 40 burras que tem na sua quinta em Saint-Girons, Angières, não chega para as necessidades de um mercado que em França se está a expandir. Quando começou, há 12 anos, era o único. Agora é um entre 23, mas a procura continua a ser maior que a oferta e isso obriga-o a procurar leite fora da sua exploração.

Jesus de Gabriel Pèrez, veterinário, criador de burros e presidente da Associação para a Protecção de Gado Zamorano (Aszal), conheceu-o numa feira agrícola em Paris e os dois decidiram fazer negócio. Há dois meses, o espanhol começou a ordenhar as suas burras e Olivier compra-lhe o leite. Chegou na véspera numa carrinha verde da cor do pasto equipada com arca frigorífica e o desenho de uma burra pestanuda de flor cor-de-rosa na boca. Foram dez horas de caminho, percorrido sem pressas até Toro, cidade de dez mil habitantes, a leste de Zamora. De lá, são mais sete quilómetros e uma placa assinala Villardondiego. É ali, numa planície a perder de vista pontuada de silhuetas no sol de fim de tarde, que está a Burrada de Jesus de Gabriel.

Está na hora de mais uma ordenha. Jesus chama as burras a um prado novo. É um dia especial. Veio Olivier e vieram também elementos da AEPGA (Associação para o Estudo e Protecção do gado Asinino), de Miranda do Douro. O Nuno e o Rui vão filmar o que ali se faz para mostrar o vídeo aos criadores portugueses “que não acreditam que tal seja possível fazer”. Todos falam em portuñol, língua de fronteira e Jesus fala mais que os outros. De cada burra, conta uma história. De Maité, Solita, Galana, Desejada, Yera… Todas têm nome para serem registadas no livro da espécie. Jesus fala, mas é Fernando quem recupera memórias. “Havia cá um homem que dizia que um burro é capaz de memorizar 40 palavras.” Não lhe custa acreditar. “Ser cabeça de burro há-de deixar de soar a ofensa”, sentencia. E sublinha o popular com o recurso ao clássico. Vai buscar O Burro de Ouro, a sátira que Lúcio Apuleio escreveu no século II e na qual homem e burro se metamorfoseiam. “Precioso”, comenta, e não há tradução que valha ao tom.
Fernando é o quarto irmão de Jesus. Cenógrafo, iluminador em palcos de bailado, pintor de murais a branco e negro, ordenha burras das seis da manhã às dez da noite, todos os dias há um mês e meio. “A rotina do campo é disciplinadora para quem vem da cidade”, brinca. Há-de repeti-la até ao dia em que terá de sair numa tournée de três semanas por sete países da América do Sul e só a alegria de voltara a ver cidade de Guadalupe o com a da tristeza de deixar os burros. Mas não irá sem deixar sucessor em Villardondiego.

Miguel, o sobrinho de 25 anos, veio das montanhas, junto a Leon, no Norte de Espanha, até à planície para aprender a tirar leite das burras. Não podia encontrar melhor mestre. Olivier ensina-lhe a precisão do gesto. Miguel olha com uma atenção inversa ao que poderia sugerir o seu jeito urbano. Conhece cada planta, cada animal. Só não consegue repetir os gestos de Olivier. Dizem-lhe que são mais ou menos dez litros por cada ordenha e uma ordenha de quatro em quatro horas. E ele olha o pouco que conseguiu em demasiado tempo. “O tom de voz ajuda”, segreda-lhe Fernando. E Miguel ensaia o diálogo com Abutarda, “a burra que produz mais”. E o leite vai saindo e a espuma branca caindo na lama. “Deve ser da conversa”, riem os homens.

Nuno e Rui filmam e os portugueses hão-de ver o que Adolfo também ainda não viu. Em Villalcampo, só sabe porque Jesus lhe contou e, para Adolfo, ninguém sabe mais do que Jesus. Por isso, um dia, ele também há-de experimentar a tirar leite das suas burras. “Mas temos de ser todos”, acrescenta, “todos os de Villalcampo”.

Casa

A chuva cai miúda, mas implacável. Molha os tolos e os outros, e tola, persigo o objectivo: olhar as ruas, as casas, parar nos cafés mesmo sem esplanadas, ir em busca do bar preferido de Rufus Wainright enquanto mentalmente vou cantando “Cigarrettes and Chocolate Milk”. Quem se cruza comigo agradece, sem o saber, que esse canto seja apenas mental. Assim sou brilhante no meu cantar.

Nos Hamptons dos Kennedy e de todo o sangue antigo da América, entre o desfile de casarões, vou atrás de um canadiano dito alternativo e da sua música, sel ligar aos vestidos certinhos e assertoados das montras, intercaladas com galerias onde se expõem obras mais ou menos convenientes e que não resisto a comparar com outras montras de outros sítios que perseguem ao longe o sonho americano, de muito longe e vendem unhas coloridas e peças novas para carros usados. Como Newark está longe de Long Island! A exclamação é a única pontuação possível.  

E lá vou eu vou na minha perseguição pessoal a referências políticas e literárias e musicais tão longínquas quanto as unhas de gel, quando me deparo com a inusitada familiaridade. Alia estava o sabor a casa, o saber-a-casa da arte de Julião Sarmento.

Lá está ele, o português patrocinado por mecenas americanos ricos e subsidiado nesta sua deslocação artística pela Fundação Gulbenkian e pelo Ministério da Cultura.
Era ele, no Parrish Museum de Southampton.
Julião Sarmento em mais de 40 obras que mostram a relação próxima entre o artista plástico luso e a literatura universal. Obras em papel para falar de uma relação com a escrita. A linguagem que outra linguagem inspirou porque as referências alimentam-se delas mesmas. Para quem não sabia, um famoso escritor local, James Salter, apresentou numa conversa com Julião Sarmento, ali, em Southampton, no dia 16 de Abril, o dia inaugural da exposição a que foi dado o nome “Artists and Writers/Houses and Home”.

E é em casa que me sinto apesar do lamento de não ter sabido e não ter estado a horas de ver e ouvir. Afinal, era a primeira vez que Sarmento tinha direito a uma exposição individual em território americano, desde que esteve em Washington, em 1999,. e eu ali e nºão vi…
Olho o relógio e interrogo acerca da porta fechada. Passa das cinco. Tola, chamo-me, dando razão à chuva, adiando a visita, sentindo-me inusitadamente acompanhada num aconchego à beira-mar, mesmo que ali o Atlântico seja ao contrário do meu. Como se dali visse Lisboa. Lisboa do lado de lá da água, como Alice no espelho. E é a água a devolver-me o rosto, a casa, como na exposição de Sarmento, o autor que Salter sublinhou saber dar essa sensação quando se aproxima da escrita. Agora persigo isso, essa sensação, e cheirou a café.
Entro. Um livro na mão denuncia-me e ouço em bom português: “O que vai ser?” Longe de saber de Julião Sarmento, aquela rapariga loira veio de Lisboa grávida, como me havia de contar, à procura de um sítio onde pudesse criar a filha. Contou-me ainda que trabalha ali e noutro restaurante, longe da Lisboa de onde veio e para onde está virada. Não tem um dia de folga, mas está entre os ricos da América a perseguir mais do que um cantor canadiano.

Romance à antiga

O que há de comum entre Jonathan Franzen, o escritor norte-americano de 51 anos, natural do Illinois, famoso depois de publicar “Correcções”, romance vencedor do National Book Award em 2001, e o russo do século XIX, Leo Tolstoi, autor de clássicos como “Guerra e Paz”, não é apenas o modo de estruturar os romances, mas sobretudo contar uma época tendo como principal guia as particularidades de cada uma das personagens. A comparação não é original e está longe de ser forçada ainda que pareça presunçosa, como sublinhou, aliás, o jornal inglês “The Independent” na altura da publicação de “Liberdade”, o romance que acaba de ser traduzido em Portugal e publicado com a chancela da D. Quixote. Presunçoso, porque são poucos os que se atreverão a pensar, quanto mais a publicar, que Tolstoi tem um escritor à altura na actualidade. Tim Walter, o autor do artigo publicado a 16 de Setembro do ano passado não fez por menos, provavelmente influenciado pela referência ao “Guerra e Paz” no romance de Franzen. Afinal, o livro de Tolstoi é um daqueles livros com a capacidade de transformar a vida de quem o lê. Foi o que aconteceu com a personagem principal de Liberdade, a ex-estrela do basquetebol universitário Patty Berglund, uma mulher que trocou uma quase inevitável carreira enquanto atleta por uma missão que chamou a si: ser mãe e esposa exemplares.

Presunção, pois, esta de comparar Jonathan Franzen a Tolstoi enquanto mestres da narrativa, autores capazes de captar a essência da época em que vivem e transmiti-la da forma mais sedutora para quem lê: sem que pareça um ensaio, saída do que há de mais íntimo em cada uma das personagens que um e outro criaram indo ao fundo do que é a natureza humana. Por isso, mais do que vozes de um tempo, eles são psicólogos com uma capacidade invulgar de expôr as tragédias e as alegrias pessoais graças à densidade humana que colocam em cada uma das personagens que inventaram sem que pareça que há nisso qualquer invenção.

Mas presunção ou não, vamos ao plot, que é como quem diz, à acção de “Liberdade”, o romance que já fez correr muita tinta pelos sítios por onde anda a ser publicado. Ele conta a história de um casal, os Berglund. Patty e Walter, dois universitários vindos de universos sociais bastante distintos. Ela, a filha de um advogado rico de Manhanttan e de uma mulher cheia de ambições políticas; ele, o segundo filho de um casal pobre e problemático, alguém que assumiu desde cedo a responsabilidade de tomar conta da família enquanto persegue o sonho do teatro e de uma formação superior. Ele ama-a e ela quer amá-lo, mas pelo meio há Richard Katz, um músico de segunda linha, melhor amigo de Walter, alguém que despreza as mulheres não conseguindo ter com nenhuma uma relação duradoura. É para ele que Patty olha sempre que questiona a sua existência com Walter, o homem a quem aprende a amar, mais como projecto de uma vida que quer familiarmente diferente daquela de onde veio do que por paixão, um sentimento que há-de reservar para Richard, precisamente numa altura em que está a ler, a conselho de Walter, “Guerra e Paz”, a obra maior de Tostoi. É então que se vê a si mesma como a heroína pouco heróica, Natalia Rostov, na sua ambiguidade de sentimentos.

Simples? Só aparentemente. Qualquer tentativa de resumo peca por ser demasiado simples e esconder a densidade que Franzen consegue dar a este livro que lhe levou nove anos a escrever e resulta de uma pesquisa imensa, não apenas da História, mas sobretudo daquilo que parece mais fácil: a capacidade de fazer com que cada uma das personagens que cria seja inesquecível e fique para sempre no imaginário de quem lê o romance. É aqui que Franzen talvez mais se assemelhe e Tolstoi e talvez “Liberdade” tenha essa mesma capacidade de mudar vidas como tem “Guerra e Paz”.

Jonathan Franzen, que foi buscar muita da sua mestria narrativa ao romance europeu, o romance realista europeu, situa este livro nas últimas três décadas da História americana e coloca cada uma das suas personagens com uma função: a de servir de metáfora de um tipo. Psicológico, político, social. Não sendo totalmente original (outros escritores americanos já o fizeram e fazer, como por exemplo, John Updike) Franzen conseguiu como poucos passar a sua obra ao reunir, primeiro com “Correcções” e agora com “Liberdade” apoios como o da mediática Oprah ou de Barack Obama. O presidente depois de ler o livro numas férias veio de imediato dizer que se tratava de uma das grandes obras da literatura americana. Franzen colhe os louros disso e de saber estar no cento das atenções graças aos artigos que vai assinado na “The New Yourker”.

“Liberdade”, como antes “Correcções”, veio para ser o livro de uma década. Citado, lido, posto numa estante como marco. Clássicos como “Guerra e Paz”? Isso fica para o tempo. Para já, é um prazer ler.

O incomodo Ryan

Ryan estava só no meio da feira mediática.

Eram mais as antenas satélite do que os manifestantes, os turistas, os curiosos, os passantes. Tarde do dia 2 de Maio de 2011 em Nova Iorque. Horas depois de Obama ter anunciado a morte de Osama, era preciso tornar universal aquela catarse de dez anos, o trauma após o acontecimento que mudou o mundo quando o mundo ainda não sabe o quanto mudou.

Ryan, o solitário, empunhava um cartaz onde a mensagem valia mais do que o meio, contradizendo a teoria comunicacional de McLuhan. Ryan, estava do outro lado dos manifestantes, rapazes e raparigas, universitários como ele que ao contrário dele festejaram o cadáver, metáfora do terror.  Ele viu e não gostou do que viu, daquelas festas da morte que lhe soaram como tribais. Era suposto que a civilização fosse outra coisas e foi isso que quis dizer naquele lugar de romaria de emoções em que se transformara o ground zero.

Apenas uma caneta azul e uma vermelha em fundo de cartão branco para dizer também ao mundo, através das câmaras, dos flashes, que não era bonita aquela celebração, nem aquela em a de nenhuma morte de qualquer ser humano. Duas frases que muitos leram como uma provocação. Duas frases que, quem quisesse mais explicações. Ryan estava lá para isso e sabia dos riscos. Franzino, imberbe, rosto ossudo, olhos que se recusavam a baixar, ele, o estudante de jazz de 20 anos, estava ali para que a sua voz temperasse os ânimos.

E eles iam altos. “Sai daqui. Hoje não é o momento para isso”, dizia-lhe em surdina um homem que o via de cima e tinha medo que o mundo visse o que não devia e segundo ele não devia ver Ryan. E Ryan não se moveu a não ser no olhar. Atrás dele, primeiras páginas de jornais. “Got him!”, lia-se. E havia quem fingisse que não via o que achava que o mundo não devia ver, mas que Ryan queria que visse. E se no princípio era apenas Ryan e o seu cartaz, agora era uma bolha que ia engrossando. Quem passava parava. Os indignados e os intrigados. Curiosos à volta de Ryan, o miúdo magro, de olheiras e dor de cabeça confessa, articulava agora com um homem de pasta, executivo da city, que lhe perguntava se ele não tinha vergonha.

– Claro que não.
– Então devias.
– Então porquê?
– Porque não sabes do que falas, seu fedelho. Quem eras tu no dia 11 de Setembro de 2001? Quantas pessoas perdeste aqui? Que memória tens dessa data? Não viveste isso; devias ir para casa.

E o “go home” ecoava e Ryan defendia-se como podia da retórica, até perder a cabeça e levantar o tom. Foi quando homem da pasta da city lhe disse que ele não tinha o direito de estar ali porque não tinha estado ali no dia 11 de Setembro de 2011, o tal dia que mudou a América e o mundo.

Sir, onde estava no holocausto?

E o homem da pasta que vinha da city passou-se e veio um polícia e o polícia disse a Ryan que ele não podia estar ali. Que impedia a passagem. E entre todos os que se manifestavam, mesmo no silêncio, Ryan foi o único que teve de mudar de sítio.

Ele, o rapaz que acreditava na liberdade e que a desafiava quando os outros lhe diziam que não era o lugar nem o dia. E ele perguntava-se se a liberdade tinha dia e hora no país que lhe ensinaram ser o da liberdade. O seu. E agora as câmaras já o seguiam. Ele era o provocador de ânimos num dia de comunhão de ânimos. E irritava-se contra Obama, o homem que quis ver na Casa Branca, por ser um caçador de homens que exibe o troféu que Bush sempre quis oferecer.  “Não se trata de festa. Trata-se de morte, seja de quem for. “Devemos, nós, os civilizados celebrar a morte e mostrá-la ao mundo?”

Ryan queria respostas. Saiu dali com muitas mais perguntas.

Reacções possíveis à morte de Bin Laden

“A presente operação é resultado dos esforços persistentes dos Estados Unidos da América, do povo norte-americano e, em particular, da Administração de Vossa Excelência, na perseguição aos responsáveis por aqueles atentados e constituem um sinal da determinação de todos quantos acreditam na construção de um mundo assente nos valores do diálogo e da tolerância entre povos e culturas.”

Depois de ler, com algum atraso, a reacção do Presidente da República à morte de Bin Laden, aqui ficam outras sugestões de possíveis reacções não menos originais.

– Não somos nada.

– O Bin Laden morreu?!

– Todos temos um fim.

– Next!

– Parece que foi ontem que apareceu…

– E como ficou o Benfica ?

– Estava a pedi-las.

– Quem vai à guerra…

– Deus o tenha.

– Pelo menos não sofreu.

– É o que nos espera.

– Nãaaaa

– Rapaz tão novo! O pior é a mulher e os filhos…

– De quê?

– Morreu nada!

– Não faz cá falta nenhuma.

– O pior é para quem cá fica.

– E agora ?

– Vou para casa.

A vida e a morte de um livro

O fim de um livro não é o momento que sucede a última palavra. Quando será, então?
Na Biblioteca Nacional, quando um livro deixa de ir à leitura é acondicionado numa caixa de cartão, espécie de urna sagrada,
e colocado no lugar que sempre ocupou na estante. Continua a partilhar a existência ao lado dos livros vivos e a ser o guardião de todas as vozes que o habitaram.

“Sei de uma bárbara região cujos bibliotecários repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-los nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é casual e que os livros em si nada significam. Essa opinião, como veremos, não é totalmente falaciosa.”

Jorge Luís Borges, in «Biblioteca de Babel»

Joaquina olha a sua mão aberta através da transparência da água.
Faz pressão sobre a folha de papel e, vistos entre os dedos, os caracteres perdem o sentido que lhes conferiu a combinação atribuída pelo escritor. São sinais a ser pressionados para que o papel que os suporta fique limpo das marcas nocivas deixadas pelo tempo e pelo manuseio. Um tempo que sai numa nuvem amarela que tinge a água do recipiente branco à medida que a mão passa pelo papel num movimento preciso, firme. É um livro a ser lavado.

Não há lombada, capa, cor que o identifique, como quando ocupava o seu lugar entre os 30 quilómetros de prateleiras já preenchidas do Depósito da Biblioteca Nacional.
Cinco quilómetros mais do que há 20 anos, quando Luísa Cabral, directora do Depósito Legal e dos serviços de preservação, começou ali a trabalhar. Nessas prateleiras sim, os livros revelam-se pelos títulos, autores, tamanhos.
É a primeira revelação, a forma a lançar pistas sobre um conteúdo que Teresa tenta descobrir, abrindo uma página, ao calhas, no caminho que vai entre o pedido de um leitor até à sua satisfação.
São 24 anos a percorrer cerca de cinco quilómetros por dia à cata de livros. O ritmo, mais ou menos acelerado, é imposto pela maior ou menor afluência de pessoas à sala de leitura. Nunca conheceu o que é estar do outro lado, deixar os olhos demorarem-se nas frases, passar as páginas uma a uma sem a pressa de quem está a cometer uma espécie de pecado, intrometendo-se numa leitura que outro escolheu. Dizia alguém que não é crime roubar um livro. Muito menor será, então, a culpa voyeurista de Teresa. «Quando tenho tempo folheio. Deixa cá ver o que é que este leitor vai ler… Gosto de perceber porque é que escolhe um livro e não outro.» Sim, porque a escolha é feita de exclusões, por mais que doa a Teresa que, entre todas aquelas prateleiras que compõem o 3º piso da torre, dedicado à Literatura, também tem as suas estimações.
Joaquina, Luísa e Teresa são apenas três personagens nos bastidores de milhões de livros. Rostos que não chegaram aos cerca de 334 mil leitores que, em 2004, requisitaram 177 mil volumes nas salas de leitura da Biblioteca Nacional (BN).

A grande invasão

O conceito de obra inútil não faz parte da gramática de quem trabalha neste edifício do Campo Grande, projecto arquitectónico de Pardal Monteiro, inaugurado em 1969. Ali chegam todos os documentos impressos no país, cumprindo as normas impostas pela Lei do Depósito Legal que muitos acusam de excesso de zelo por obrigar a essa recolha total e em duplicado. Excepções? «Cartões de visita, cartas e sobrescritos timbrados; facturas comerciais, títulos de valores financeiros, etiquetas, rótulos e calendários; álbuns para colorir, cupões e outros equivalentes, modelos de impressos comerciais e outros similares.» Esses ficam de fora. «Recebemos 11 exemplares de cada documento. Dois ficam na BN – um para leitura e outro para preservação. Os restantes nove seguem para as bibliotecas beneficiárias: a Municipal e a Universitária de Coimbra; a Municipal do Porto; a Pública de Braga; a Municipal de Lisboa; Évora, Açores, Madeira e Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro», diz Gina Guedes Rafael, responsável daquele serviço, e em jeito de justificação das pilhas de caixotes que já invadiram todos os cantos do espaço reservado ao Depósito Legal e ameaçam transformar em armazém os corredores contíguos, sítios de passagem onde os passos se iluminam em estranhos jogos de luz e sombra, sublinhados por janelas de vidros baços que não deixam ver, mas permitem adivinhar o que está por detrás, naqueles gabinetes, vultos, de pessoas, de plantas, de estantes apinhadas.

O trabalho, ali, é físico. Carregar caixotes num empilhador, transportá-los até à sala onde é feita a separação, e aí proceder à triagem… Há um rosto por detrás de uma montanha de livros, entre uma janela e outra. Três funcionários fazem pilhas de onze títulos iguais que vão distribuindo por nove caixas de cartão e pelas prateleiras de uma estante, destino dos que ficam na BN, como atesta o carimbo de posse na página de abertura, nº do Depósito Legal e data de entrada. Um de cada para cada uma das bibliotecas e de olhos postos numa lista que ajuda a conferir que nenhuma irá ficar em falta ou receberá um exemplar a mais.
Os livros repetem-se, os gestos também. Todo o dia, todos os meses, mecânicos, em série, sem tempo para espreitar as páginas e lendo o título como um separador de espécie. É essa, afinal, a função. E não se ouve uma voz. O homem por detrás dos livros não ouve e por isso não fala. Não é preciso. Basta entender a linguagem das letras e dos números. Sabe ler lombadas e lábios e isso basta-lhe para ajudar a nascer os livros para esta biblioteca. Regista esse momento no papel com o dia, o mês e o ano, mas sem ligar aos ponteiros do relógio de parede parados numa eterna verticalidade e já sem exercer pressão sobre quem trabalha contra o tempo. Há muitos anos que marcam seis horas, ninguém sabe se de uma tarde ou de uma qualquer madrugada deserta destes movimentos que têm continuidade na catalogação e que há-de registar a existência de livros neste lugar bem como a sua disponibilidade para quem os quiser ler. Isso apesar dos meses que ainda vão passar até encontrarem lugar definitivo na estante e piso que lhes foi destinado no depósito.

Da entrada à arrumação no respectivo piso há um hiato de cerca de um ano, como atestam os caixotes com registo mais recente no Depósito Legal, assinalados com um certo dia de Março. A separação está abrir os pacotes com entrada relativa a Outubro de 2004 e a catalogação trata o mês de Maio, também de 2004. A escassez de funcionários explica o atraso, que já chegou a ser maior mas que, com a ajuda da informática e alguma reorganização de serviços, se tenta minimizar. Livros infantis, manuais escolares, teses de doutoramento e mestrado, romances de escritores mediáticos amontoam-se em cima das estantes à espera da atenção de alguém que lhes irá atribuir uma cota e duas cores – uma relativa ao género e que corresponde a um piso, e outra referente ao tamanho e que remeterá para uma prateleira. É uma espécie de bilhete de identidade entre uma população variada e arrumada também por classes, com a raridade a dar direito a estatuto especial e lugar no depósito de reservados, cofre-forte de acesso muito restrito.
Essa fidalguia entra, normalmente, por outra porta. A das doações ou compras. «A BN gere um orçamento anual que ronda os 60 mil euros para a aquisição de obras», informa Luísa Cabral. Pouco. Mas foi isso que lhe permitiu, por exemplo, adquirir aquele que é considerado um dos maiores tesouros do acervo: a «Bíblia de Cervera», um iluminado hebraico do séc. XIII, a «jóia dos alvores da invenção de Gutenberg», a Bíblia de 42 linhas (1454-55). Ou ainda, gastar 40 mil euros, em 2004, na compra dos manuscritos de Eça de Queiroz, um investimento que emagreceu a hipótese de muitas mais aquisições, mas considerado prioritário por quem tem a seu cargo a decisão de comprar. Seja a partir de sugestões dos leitores, como em resultado de uma pesquisa de autores portugueses editados no estrangeiro ou de autores estrangeiros que falem sobre Portugal, privilegiando as humanísticas e a literatura portuguesa, além dos chamados utilitários – dicionários, enciclopédias. Peritos da BN vão a leilões, percorrem sites, esmiuçam catálogos das editoras, assinalam o que interessa e decidem o que comprar em função do orçamento. O critério é sempre o do enriquecimento de uma colecção tornada pública em 1796, na então Real Biblioteca Pública da Corte, e que tinha como função «facilitar o acesso aos seus acervos, em grande parte já existentes, a todos os interessados».

A cápsula ou a essência dos livros

No piso 3, Teresa nunca teve de dar resposta a um pedido «absurdo» de um leitor, como aquele que o general Stumm von Borwehr fez a um bibliotecário no livro de Robert Musil, «O Homem sem Qualidades». Mais ou menos assim, numa tradução um pouco imprecisa: «Pois é, já agora importava-se de me dar uma perspectiva geral do mundo dos livros? Gostaria que me explicasse o que eu quero e o que me interessa. E depois podia dar-me o livro que contivesse o pensamento que para mim fosse o mais precioso.” Estranho ou não, e para surpresa do próprio general, o certo é que o bibliotecário em causa, funcionário da biblioteca nacional, pega no escadote e retira da prateleira de uma estante o livro que, no seu entender, continha a essência da biblioteca: uma bibliografia de bibliografias, ou seja, um índice de índices de livros. Mas Teresa não tem a mesma função desse bibliotecário ficcionado por Musil. As requisições chegam-lha na forma impessoal de uma cápsula de plástico transparente enviada da sala de leitura geral através de um sistema de vácuo. Cada cápsula contém a solicitação de um leitor. Na gíria interna recebe a designação de ‘bala’. Sempre que uma bala chega, faz-se anunciar através de um sinal luminoso. Teresa abre, lê a cota, e já pouco se demora no nome do autor ou no título. Conhece de cor os cem metros de comprido de corredor cheio de estantes de um lado e de outro, os comboios. Em cada um, a sinalética indica o número de cota e a cor, preto ou vermelho, conforme o formato do livro. Preto para pequeno, vermelho para grande, uma distinção que, além de facilitar a arrumação, acelera a resposta ao pedido. Há ainda o azul, para obras de grande formato.

Quando se lhe pergunta se conhece o lugar de cada livro, não diz que não. Ri e põe mãos à obra. «Cota 956, preto. Este, por exemplo, é aqui pertinho». Continua: «Cota 599. É o Alexandre Dumas.» A numeração é sequencial. Quanto mais baixa é a cota, mais antigo é o livro. E percorre, ligeira, os corredores à procura dos livros correspondentes às cotas que tem na mão. Passa indiferente por «A Vida e as Aventuras», de Robinson Crosoe, os «Problemas da Linguagem», de Cândido de Figueiredo, «Fables Choisis», de Esopo, «O Medo», de Stefan Sweig, «Eurico, o Presbítero», de Alexandre Herculano. Segue a sua própria lista e quando tem todos, mando-os para baixo, num elevador, ou monta-cargas, que chega à sala de leitura e aí é distribuído pelas respectivas mesas. Entre o pedido e a entrega do livro passam, mais ou menos 20 minutos, tempo que pode ser encurtado quando, em vez de preencher um papelinho, for possível fazer a requisição por via informática. Teresa tem dúvidas. Desconfia da fiabilidade dos computadores, mas não contesta. Muda de assunto. Prossegue nas suas considerações e satisfazendo curiosidades muito pessoais. «Gosta do Lobo Antunes? Eu não conhecia até que um dia disse para mim: Deixa cá ver porque é que este escritor ganha tanto dinheiro. E li o “Auto dos Danados”. Percebi que só vindo de um psiquiatra.» Conversa sobre «A Balada da Praia dos Cães», de José Cardoso Pires, mas tudo leva a Miguel Torga. «Ah, o meu Torga! Deve ser por ser lá de cima. Sou transmontana, como ele.» Nisto, dirige-se a uma das estantes da entrada. Retira um livro. Diz que o mostra sempre que tem visitas e sabe exactamente onde está, graças a uma memória visual que facilita o seu trabalho. «É uma preciosidade», assegura. Está todo picado dos bichos, amarelo escuro, com as folhas a partirem-se, a lombada quase desfeita, páginas soltas, envolto numa fita branca atada por um laço. «Já não pode ir à leitura, mas também tem direito à vida», sentencia, continuando a operação de manuseamento, numa ladainha que reproduz os longos diálogos que mantém com os livros, companhia de tantos anos naquele espaço onde só entra uma nesga de luz do dia em nome da preservação dos livros. «E o restauro, sôtora? Também não acredito.» Uma pergunta que já inclui resposta e não espera pelas palavras da directora do sector, Aurora Machado. Atira: «Este é vedeta de televisão.» Mesmo assim, Aurora Machado explica o estado vegetativo do volume: «Aqui está o exemplo de um livro em que já não há muito a fazer. Não é possível restaurar porque já está com a mancha de texto roída. É de mil setecentos e tal, nem sequer é muito velho, mas as condições em que esteve antes de vir para aqui não foram as melhores. Podia ser microfilmado, mas os buracos feitos pelos bichinhos não iriam permitir a leitura…»

Evitar fantasmas

Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, houve a apreensão das obras das bibliotecas dos conventos e dos mosteiros. Muitos dos livros em pior estado vieram daí. É o caso do livro de que se fala. Está limitado à prateleira e aos mimos esporádicos da guardiã do piso. Moribundo e sem estatuto especial, não integra a lista dos livros a recuperar na campanha «Salvem o Livro II», uma iniciativa da BN que pretende atrair mecenas para ajudar a recuperar obras. As «Rimas», de Lope de Vega, numa edição de 1605, aguardam vez e a vontade de um investidor para seguirem até à sala de restauro. O diagnóstico está feito: «Encadernação em pergaminho em mau estado de conservação. Apresenta sujidade superficial, deformação do suporte, ataque de insectos e intervenções anteriores de má qualidade.» Quanto ao corpo do livro, está com sujidade superficial, acidez do suporte, manchas de diversas origens e ataques de insectos. A proposta de intervenção aponta para uma nova encadernação, tratamento integral do corpo do livro, acondicionamento em caixa de cartão isento de acidez e microfilme. Preço: 480 euros.

Mais do que a passagem do tempo, o mau manuseamento é uma das principais causas da degradação de uma obra e deixam marcas visíveis, sobretudo no canto superior direito do livro. Mais tarde ou mais cedo, essa parte acabará por partir e perde-se parte do texto. «É muito este nosso gesto de molhar a ponta do dedo para folhear», exemplifica” Aurora Machado. O restauro, a digitalização ou a microfilmagem são soluções que, em conjugação ou isoladamente, permitem prolongar a vida de um livro que, de outra forma, não teria outra solução senão a de ficar na prateleira, sem poder ser consultado ou, pior ainda, sem que o seu conteúdo estivesse acessível à leitura, como num cemitério de livros.

Esta ideia foi explorada há pouco tempo pelo escritor catalão Carlos Ruiz Zafón no romance «A Sombra do Vento» (D. Quixote), editado em Portugal no ano passado e que se desenrola à volta do «feitiço dos livros». A trama arranca com uma visita inesperada, proposta por um pai ao seu filho. O de o levar, no dia do aniversário, nada mais que ao Cemitério dos Livros Esquecidos. «Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. (…) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.» Não é esta a função da BN. Apesar de todas as vozes que encerra, a última coisa que se pretende é que um livro adquira o estatuto de fantasma. Nessa polifonia – cada vez maior à medida que o uso aumenta – o livro deve ser aberto, manuseado e, quando, por imperativos de preservação, tal não for mais possível, que seja então lido noutros suportes: digital ou microfilme. Mas lido, interpolando os leitores e outros livros. A morte de um livro está na impossibilidade da sua leitura.

A decisão sobre o que mandar para digitalizar, microfilmar e restaurar é estudada caso a caso. Se a microfilmagem de uma obra pode partir do pedido de um leitor, já a digitalização e, sobretudo, o restauro estão dependentes de um parecer técnico.

Desde o verão de 2004 foram feitas cerca de um milhão de imagens graças a uma campanha de digitalização. Cada uma das secções elaborou listas das obras mais consultadas, das que se revestiam de maior importância para a colecção e das que, por motivos de preservação, tivesse leituras restritas. Neste momento, a campanha vai a meio e prevê-se que até ao fim, se consiga ultrapassar os dois milhões de imagens. De iconografias ou de palavras. No caso do texto, cada imagem corresponde, grosso modo, a uma página. «Fazemos, em média, 1500 imagens por dia. O objectivo é, sobretudo, o de preservar obras. Ao contrário da fotocópia – tida como o pior inimigo de um livro –, a digitalização é considerada o método de reprodução menos invasivo para a segurança da obra. Existem máquinas especiais para obras encadernadas e o tempo de iluminação da imagem a digitalizar não chega a um segundo.

O trabalho começou pelos reservados, daí todos os cuidados para minimizar os efeitos da intervenção. Um técnico munido de luva brancas vai manuseando as estampas que estão a ser digitalizadas. «Por vezes há obras em muito mau estado… Já temos digitalizado algumas que parece que se vão desfazer nas nossas mãos», diz, sem tirar os olhos do que está a fazer. A máquina em causa é híbrida, tanto funciona para a digitalização como permite filmar. Dá para grandes formatos, como para livros considerados normais. Actualmente, está apenas a digitalizar para dar um pouco de vazão às solicitações para aumentar a colecção da Biblioteca Nacional Digital (BND). «Muitos leitores, ao consultar a BND (www.bnd.pt) ficam impressionados com o acto de mostrarmos obras em tão mau estado. Houve uma altura em que se tentou esconder isso do público. Mas é a realidade e acho que ganhamos mais em mostrar e sensibilizar as pessoas para a necessidade de haver cuidados acrescidos no manuseio das obras», refere Isabel Roque, do Gabinete de Edições Electrónicas da BN.

Por aqui já passou, por exemplo, toda a camoniana, as obras de Eça de Queiroz, Almeida Garrett, a correspondência entre António Feliciano de Castilho e Camilo Castelo Branco, a «História Trágico-Marítima», de Bernardo Gomes de Brito, ou «Confissão de Lúcio», de Mário de Sá-Carneiro. «Estas obras estão disponíveis na BND e podem ficar agora preservadas. Devido à qualidade da digitalização é possível usá-las mesmo para um estudo sobre a textura do papel usado nos originais», esclarece Isabel Roque.

O tempo e o espaço

Uma solução perto do óptimo, não fosse a incógnita que persiste quanto à validade de um suporte digital. É uma interrogação para a qual continua a não existir resposta. Talvez por isso a microfilmagem seja encarada como um dos formatos mais fiáveis para preservar uma obra que esteja em risco, ainda que a leitura de um microfilme seja a mais desconfortável. «O microfilme dura centenas de anos, sofrendo apenas algum desgaste com a visualização. O digital além de nos pôr o problema do arquivamento – que implica servidores muito potentes – tem uma durabilidade que ainda não se conhece. Nós mantemos as duas linhas de consulta», sintetiza Aurora Machado
.
Na microfilmagem, cada bobina corresponde a um livro. São resultado de duas solicitações distintas: obras que a BN considerou de interesse em transferir para outro suporte, por estarem em mau estado, em risco de se perderem, ou então ainda documentos que os leitores pediram para microfilmar.

Numa sala escura, um homem executa em silêncio o trabalho solitário da passagem de uma obra a microfilme. É surdo-mudo e um dos muitos deficientes que a BN emprega ao abrigo de um protocolo com a Segurança Social. Pacientemente, abre o livro, acerta as margens, verifica se a intensidade da luz é adequada à cor do papel e só depois a deixa actuar para que a cópia se faça. São escassos segundos. De duas em duas páginas a obra vai-se replicando em filmes de polyester de 35 mm que, quando saírem dali, seguem para a revelação. Sempre três de cada documento.

Todas as obras anteriores a 1900 são microfilmadas antes de serem sujeitas a qualquer outro tipo de reprodução. Depois, a obra é arrumada e, em princípio, não será mais mexida, excepto se for decidido sujeitá-la a digitalização. Mas não são raros os casos de documentos em tal estado que nem a microfilmagem é possível.

Se no microfilme o livro é lido em planos de duas páginas, na digitalização o livro recupera a fórmula original do rolo de papiro. O texto vai-se desenrolando à frente do leitor à medida que a leitura avança. O computador adopta, assim, a técnica ancestral de um suporte feito de hastes secas fendidas de uma espécie de junco arranjado em rolos e que, na altura, veio substituir as placas de argila originárias da Mesopotâmia. Conta Plínio, o Velho, que o rei Ptolomeu do Egipto, receoso de que lhe fugisse o controlo sobre o segredo da produção nacional de papiro, e para proteger a Biblioteca de Alexandria, proibiu a sua exportação. Isso levou a que Eumenes, o soberano rival de Pérgamo, descobrisse um novo material para os livros da sua biblioteca: o pergaminho. Foi no século II a.C., embora se conhecessem brochuras de pergaminho do século anterior. Havia rolos de pergaminho e códices de papiro. No século IV, e até ao aparecimento do papel em Itália, oito séculos depois, o pergaminho era o material preferido na Europa para o fabrico de livros. Não só por ser mais resistente e macio do que o papiro, como barato. Este facto é recuperado por Alberto Manguel, em «Uma História da Literatura», (Presença, 1998). «Mais transportável, os dois lados da folha podiam conter texto, as quatro margens de um códice possibilitavam a introdução de glosas e comentários permite a participação do leitor na história.» Hábito eterno que persiste, vício maldito para os que têm a seu cargo a manutenção de um espólio nacional e a que nem obras guardados nos reservados escapam. Como uma edição d’«Os Lusíadas» da casa de António Gonçalves datada de 1572, cuja digitalização, além de notas referenciadas, revela ou ou outro sinal de um leitor que deixou ali a sua marca.

Limpar o tempo

Da história e das qualidades do papel, como dos arranjos ou desarranjos que vai sofrendo, sabem, mais do que ninguém, os técnicos que trabalham na área de restauro e preservação. Aplicam-nas diariamente nas decisões sobre o modo de actuar nos vários tipos de papel sobre os quais têm de intervir. É uma espécie de unidade que se divide entre os socorros primários e os cuidados intensivos, consoante o estado de saúde da obra. «A área de manutenção de colecções e de acondicionamento, tal como o nome indica, acondiciona e faz pequenas intervenções de conservação e restauro a que chamamos a “remendagem”, como a colagem de um rasgão, no caso de uma folha que se solta… É uma bancada SOS e tem a seu cargo todos os programas de conservação preventiva: controlo de pestes, higienização de pisos, controlo ambiental, o plano de emergência», esclarece Teresa Lança, responsável por aquele serviço onde se inclui ainda a área de conservação e restauro que intervém sobre os fundos mais antigos da biblioteca, aqueles que requerem um maior “cuidado”, obras de valor documental único, normalmente anteriores ao século XVIII.

É ali que Joaquina continua a lavar o seu livro. Chama-o seu porque é com ele que vai passar os próximos dias, semanas, talvez, e nesse percurso o sentimento de posse instala-se. «É o meu incunábulo, o meu reservado, o meu manuscrito… Reflecte uma atitude carinhosa e afectiva para com as obras. Nunca é só mais um livro, ou mais um documento», assegura Teresa Lança.

Sem nunca tocar directamente no papel, que se encontra protegido por uma espécie de mata-borrão muito fino, Joaquina adiciona à água um bocadinho de hidróxido de cálcio que permite remover parte dos produtos de deterioração. Este trabalho de limpeza húmida só é possível porque a obra em causa – um livro de medicina legal – não tem tintas solúveis. Mas antes deste ‘mergulho’, o livro é sujeito a um teste de PH para medir o grau de acidez do papel – com o tempo o papel vai-se tornando ácido – e alvo de uma limpeza mecânica que tem a função de remover a sujidade superficial. A água destes banhos sucessivos a que cada fólio (conjunto de folhas de papel dobradas) é sujeito começa por ser fria, mas vai aquecendo gradualmente até um máximo de 37 graus. Ao mesmo tempo Joaquina fará a alcalinização. Consiste é dotar a obra de uma reserva alcalina, ou seja, dar-lhe armas para se defender da possível deterioração que se segue ao longo dos anos. E, por fim, repõe parte da substância colante perdida durante o processo de lavagem e que serve para manter juntas as fibras e as cargas que compõem o papel. Feita a limpeza, a técnica coloca o fólio a secar numa espécie de grelha que mantém as folhas direitas e permite a passagem do ar. Normalmente basta um dia para que o papel perca a humidade deixada por um banho que tem a função de lhe restituir saúde e que só pode ser feito por mãos experientes. Mesmo assim, os sustos acontecem: «Era uma gravura que parecia óptima. Quando foi para dentro de água e desfez-se de repente. Foi um horror. Passei 15 dias quase sem dormir e quando fechava os olhos e via o papel, o puzzle, sabia perfeitamente onde é que cada parte encaixava na outra. Um pesadelo», lembra Teresa Lança, e acrescenta uma moral a esta história: «Por muito que pensemos que estamos seguros, existe sempre um factor de risco muito grande, mesmo sem estarmos à espera.»

Joaquina acompanha todo o processo de restauro da obra. Quer mecanicamente, quer manualmente. Pega num documento e segue-o até à encadernação. Já fez com esta obra o mesmo que Cátia está a fazer agora com uma outra na área de acondicionamento e manutenção de colecções. Alguns livros com margens partidas e capas a desfazerem-se, aguardam intervenção. Vêm da sala de leitura com lombadas partida, folhas descoladas… «para cada um, fazemos uma proposta de intervenção. Quando estão mesmo muito mal e muito ácidos recorremos à passagem para suporte alternativo, no caso a microfilmagem. A partir daí, fisicamente a obra morre. É acondicionada e vive o tempo que puder viver, mas não será mais acessível ao leitor», sentencia Teresa Lança, apontando para uma caixa com tampa de plástico cheia de livros em «tão mau estado em termos químicos que já não há nada a fazer. É a caixa dos que vão ser microfilmados. São os que vivem no limbo.»

Sem levantar a cabeça, Cátia prossegue o seu trabalho de desmontagem do livro, marcando numa folha o esquema de ordenamento dos cadernos – grupo de fólios – para que, mais tarde, o seu colega da encadernação siga o esquema original. A obra em causa está a ser recuperada ao abrigo da campanha «Salvem um Livro». Parte dos preços são suportados pela BN e outra parte pelos mecenas. O custo é calculado em função das horas necessárias para tratar o livro e do preço das matérias-primas… Este livro levará mais ou menos três semanas a um mês de trabalho. Vai ser limpo mecanicamente com a trincha, bisturi e borracha e, como as tintas são insolúveis, será sujeito a uma limpeza húmida, passando depois para o restauro manual. Como não está muito danificado, precisará da colagem de um rasgão e, sobretudo, de um intervenção ao nível do festo (zona imediatamente a seguir à costura ou à colagem do bifólio, onde se exerce mais pressão na altura da costura). Tem de estar reforçado para aguentar o processo de costura. O resto será mantido. Originalmente a obra não foi aparada e vai continuar como tal, com folhas amarelas e as margens incertas.

Não exibe, no entanto, buracos feitos por bichos como a que Cecília – uma outra técnica de restauro – está a tratar. Sempre que tal acontece é preciso escolher uma metodologia. Ir pelo restauro tradicional — desenho da lacuna sobre um papel de características semelhantes ao do original em termos de cor, textura, espessura; ou pelo restauro manual em que há um depósito de fibras de polpa de papel em meio aquoso, feito com um gota a gota e sonda de dentista para chegar aos orifícios. Foi esta a escolha. Em cima da mesa, há um frasco cheio de polpa de papel. Um conta-gotas suga a pasta que é depositada no buraco e depois trabalhado com a sonda de dentista em suporte de nylon até que o papel fique refeito. Teresa Lança mostra uma outra folha alvo de procedimento semelhante e que exibe agora uma série de efeitos que se assemelham a minhocas brancas. São as partes de papel reconstituídas.

O culto

Sentado num estirador, Vasco devolve a forma original aos livros que os colegas trataram. É a etapa final deste processo. Especializou-se em encadernação de restauro e restauro de encadernação. Tem agora em mãos uma capa nova para a qual aproveitou a original. Está praticamente concluída após duas semanas de um trabalho que envolveu ainda a costura dos cadernos num pequeno tear. «O restauro tem de bater certo com a costura de modo a que esta lombada volte a ficar com as mesmas dimensões. Como a encadernação original é de pele, escolheu-se uma pele mais ou menos semelhante. Aqui, colocou-se só a lombada e a charneira em papel para tapar uma zona que já estava partida», explica sem pressa nas palavras e desembrulhando um outro livro envolto em ligaduras e exibindo uma capa irrepreensível. E há ainda outra, a réplica de uma encadernação islâmica para um manuscrito que está a ser restaurado. Faz silêncio como quem espera uma reacção. E percebe-se mais do que nunca o culto a estes objectos.
Estão quase prontos a voltar a ocupar o seu lugar nas estantes. A voltar à vida. E nesse momento recuperamos as palavras que um dia Franz Kafka terá dito ao filho de um amigo que ficou extasiado diante da montra de uma livraria de Praga: «Um livro não pode tomar o lugar do mundo. Tal é impossível. Na vida, tudo tem o seu próprio sentido e a sua própria finalidade, para os quais não pode haver nenhum substituto permanente. Um homem não pode, por exemplo, dominar a sua própria experiência por meio de outra personalidade. Assim é o mundo em relação aos livros. Tenta-se aprisionar a vida num livro, como um pássaro canoro numa gaiola, mas não vale a pena.» Ou ainda, como escreveu um dia Borges, o mesmo bibliófilo com quem começámos: “… a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.»

Publicado no suplemento dna em 2005