O incomodo Ryan

Ryan estava só no meio da feira mediática.

Eram mais as antenas satélite do que os manifestantes, os turistas, os curiosos, os passantes. Tarde do dia 2 de Maio de 2011 em Nova Iorque. Horas depois de Obama ter anunciado a morte de Osama, era preciso tornar universal aquela catarse de dez anos, o trauma após o acontecimento que mudou o mundo quando o mundo ainda não sabe o quanto mudou.

Ryan, o solitário, empunhava um cartaz onde a mensagem valia mais do que o meio, contradizendo a teoria comunicacional de McLuhan. Ryan, estava do outro lado dos manifestantes, rapazes e raparigas, universitários como ele que ao contrário dele festejaram o cadáver, metáfora do terror.  Ele viu e não gostou do que viu, daquelas festas da morte que lhe soaram como tribais. Era suposto que a civilização fosse outra coisas e foi isso que quis dizer naquele lugar de romaria de emoções em que se transformara o ground zero.

Apenas uma caneta azul e uma vermelha em fundo de cartão branco para dizer também ao mundo, através das câmaras, dos flashes, que não era bonita aquela celebração, nem aquela em a de nenhuma morte de qualquer ser humano. Duas frases que muitos leram como uma provocação. Duas frases que, quem quisesse mais explicações. Ryan estava lá para isso e sabia dos riscos. Franzino, imberbe, rosto ossudo, olhos que se recusavam a baixar, ele, o estudante de jazz de 20 anos, estava ali para que a sua voz temperasse os ânimos.

E eles iam altos. “Sai daqui. Hoje não é o momento para isso”, dizia-lhe em surdina um homem que o via de cima e tinha medo que o mundo visse o que não devia e segundo ele não devia ver Ryan. E Ryan não se moveu a não ser no olhar. Atrás dele, primeiras páginas de jornais. “Got him!”, lia-se. E havia quem fingisse que não via o que achava que o mundo não devia ver, mas que Ryan queria que visse. E se no princípio era apenas Ryan e o seu cartaz, agora era uma bolha que ia engrossando. Quem passava parava. Os indignados e os intrigados. Curiosos à volta de Ryan, o miúdo magro, de olheiras e dor de cabeça confessa, articulava agora com um homem de pasta, executivo da city, que lhe perguntava se ele não tinha vergonha.

– Claro que não.
– Então devias.
– Então porquê?
– Porque não sabes do que falas, seu fedelho. Quem eras tu no dia 11 de Setembro de 2001? Quantas pessoas perdeste aqui? Que memória tens dessa data? Não viveste isso; devias ir para casa.

E o “go home” ecoava e Ryan defendia-se como podia da retórica, até perder a cabeça e levantar o tom. Foi quando homem da pasta da city lhe disse que ele não tinha o direito de estar ali porque não tinha estado ali no dia 11 de Setembro de 2011, o tal dia que mudou a América e o mundo.

Sir, onde estava no holocausto?

E o homem da pasta que vinha da city passou-se e veio um polícia e o polícia disse a Ryan que ele não podia estar ali. Que impedia a passagem. E entre todos os que se manifestavam, mesmo no silêncio, Ryan foi o único que teve de mudar de sítio.

Ele, o rapaz que acreditava na liberdade e que a desafiava quando os outros lhe diziam que não era o lugar nem o dia. E ele perguntava-se se a liberdade tinha dia e hora no país que lhe ensinaram ser o da liberdade. O seu. E agora as câmaras já o seguiam. Ele era o provocador de ânimos num dia de comunhão de ânimos. E irritava-se contra Obama, o homem que quis ver na Casa Branca, por ser um caçador de homens que exibe o troféu que Bush sempre quis oferecer.  “Não se trata de festa. Trata-se de morte, seja de quem for. “Devemos, nós, os civilizados celebrar a morte e mostrá-la ao mundo?”

Ryan queria respostas. Saiu dali com muitas mais perguntas.

One response to “O incomodo Ryan

  1. Adoro ler-te neste registo. uma crónica magistral mas, sobretudo uma crónica que alerta consciências. esse miúdo é herói. afinal, ainda os há! parabéns Isabel, pelo olho clinico e, pela tua enorme capacidade que tens de comover o leitor.
    beijos

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