Romance à antiga

O que há de comum entre Jonathan Franzen, o escritor norte-americano de 51 anos, natural do Illinois, famoso depois de publicar “Correcções”, romance vencedor do National Book Award em 2001, e o russo do século XIX, Leo Tolstoi, autor de clássicos como “Guerra e Paz”, não é apenas o modo de estruturar os romances, mas sobretudo contar uma época tendo como principal guia as particularidades de cada uma das personagens. A comparação não é original e está longe de ser forçada ainda que pareça presunçosa, como sublinhou, aliás, o jornal inglês “The Independent” na altura da publicação de “Liberdade”, o romance que acaba de ser traduzido em Portugal e publicado com a chancela da D. Quixote. Presunçoso, porque são poucos os que se atreverão a pensar, quanto mais a publicar, que Tolstoi tem um escritor à altura na actualidade. Tim Walter, o autor do artigo publicado a 16 de Setembro do ano passado não fez por menos, provavelmente influenciado pela referência ao “Guerra e Paz” no romance de Franzen. Afinal, o livro de Tolstoi é um daqueles livros com a capacidade de transformar a vida de quem o lê. Foi o que aconteceu com a personagem principal de Liberdade, a ex-estrela do basquetebol universitário Patty Berglund, uma mulher que trocou uma quase inevitável carreira enquanto atleta por uma missão que chamou a si: ser mãe e esposa exemplares.

Presunção, pois, esta de comparar Jonathan Franzen a Tolstoi enquanto mestres da narrativa, autores capazes de captar a essência da época em que vivem e transmiti-la da forma mais sedutora para quem lê: sem que pareça um ensaio, saída do que há de mais íntimo em cada uma das personagens que um e outro criaram indo ao fundo do que é a natureza humana. Por isso, mais do que vozes de um tempo, eles são psicólogos com uma capacidade invulgar de expôr as tragédias e as alegrias pessoais graças à densidade humana que colocam em cada uma das personagens que inventaram sem que pareça que há nisso qualquer invenção.

Mas presunção ou não, vamos ao plot, que é como quem diz, à acção de “Liberdade”, o romance que já fez correr muita tinta pelos sítios por onde anda a ser publicado. Ele conta a história de um casal, os Berglund. Patty e Walter, dois universitários vindos de universos sociais bastante distintos. Ela, a filha de um advogado rico de Manhanttan e de uma mulher cheia de ambições políticas; ele, o segundo filho de um casal pobre e problemático, alguém que assumiu desde cedo a responsabilidade de tomar conta da família enquanto persegue o sonho do teatro e de uma formação superior. Ele ama-a e ela quer amá-lo, mas pelo meio há Richard Katz, um músico de segunda linha, melhor amigo de Walter, alguém que despreza as mulheres não conseguindo ter com nenhuma uma relação duradoura. É para ele que Patty olha sempre que questiona a sua existência com Walter, o homem a quem aprende a amar, mais como projecto de uma vida que quer familiarmente diferente daquela de onde veio do que por paixão, um sentimento que há-de reservar para Richard, precisamente numa altura em que está a ler, a conselho de Walter, “Guerra e Paz”, a obra maior de Tostoi. É então que se vê a si mesma como a heroína pouco heróica, Natalia Rostov, na sua ambiguidade de sentimentos.

Simples? Só aparentemente. Qualquer tentativa de resumo peca por ser demasiado simples e esconder a densidade que Franzen consegue dar a este livro que lhe levou nove anos a escrever e resulta de uma pesquisa imensa, não apenas da História, mas sobretudo daquilo que parece mais fácil: a capacidade de fazer com que cada uma das personagens que cria seja inesquecível e fique para sempre no imaginário de quem lê o romance. É aqui que Franzen talvez mais se assemelhe e Tolstoi e talvez “Liberdade” tenha essa mesma capacidade de mudar vidas como tem “Guerra e Paz”.

Jonathan Franzen, que foi buscar muita da sua mestria narrativa ao romance europeu, o romance realista europeu, situa este livro nas últimas três décadas da História americana e coloca cada uma das suas personagens com uma função: a de servir de metáfora de um tipo. Psicológico, político, social. Não sendo totalmente original (outros escritores americanos já o fizeram e fazer, como por exemplo, John Updike) Franzen conseguiu como poucos passar a sua obra ao reunir, primeiro com “Correcções” e agora com “Liberdade” apoios como o da mediática Oprah ou de Barack Obama. O presidente depois de ler o livro numas férias veio de imediato dizer que se tratava de uma das grandes obras da literatura americana. Franzen colhe os louros disso e de saber estar no cento das atenções graças aos artigos que vai assinado na “The New Yourker”.

“Liberdade”, como antes “Correcções”, veio para ser o livro de uma década. Citado, lido, posto numa estante como marco. Clássicos como “Guerra e Paz”? Isso fica para o tempo. Para já, é um prazer ler.

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