Casa

A chuva cai miúda, mas implacável. Molha os tolos e os outros, e tola, persigo o objectivo: olhar as ruas, as casas, parar nos cafés mesmo sem esplanadas, ir em busca do bar preferido de Rufus Wainright enquanto mentalmente vou cantando “Cigarrettes and Chocolate Milk”. Quem se cruza comigo agradece, sem o saber, que esse canto seja apenas mental. Assim sou brilhante no meu cantar.

Nos Hamptons dos Kennedy e de todo o sangue antigo da América, entre o desfile de casarões, vou atrás de um canadiano dito alternativo e da sua música, sel ligar aos vestidos certinhos e assertoados das montras, intercaladas com galerias onde se expõem obras mais ou menos convenientes e que não resisto a comparar com outras montras de outros sítios que perseguem ao longe o sonho americano, de muito longe e vendem unhas coloridas e peças novas para carros usados. Como Newark está longe de Long Island! A exclamação é a única pontuação possível.  

E lá vou eu vou na minha perseguição pessoal a referências políticas e literárias e musicais tão longínquas quanto as unhas de gel, quando me deparo com a inusitada familiaridade. Alia estava o sabor a casa, o saber-a-casa da arte de Julião Sarmento.

Lá está ele, o português patrocinado por mecenas americanos ricos e subsidiado nesta sua deslocação artística pela Fundação Gulbenkian e pelo Ministério da Cultura.
Era ele, no Parrish Museum de Southampton.
Julião Sarmento em mais de 40 obras que mostram a relação próxima entre o artista plástico luso e a literatura universal. Obras em papel para falar de uma relação com a escrita. A linguagem que outra linguagem inspirou porque as referências alimentam-se delas mesmas. Para quem não sabia, um famoso escritor local, James Salter, apresentou numa conversa com Julião Sarmento, ali, em Southampton, no dia 16 de Abril, o dia inaugural da exposição a que foi dado o nome “Artists and Writers/Houses and Home”.

E é em casa que me sinto apesar do lamento de não ter sabido e não ter estado a horas de ver e ouvir. Afinal, era a primeira vez que Sarmento tinha direito a uma exposição individual em território americano, desde que esteve em Washington, em 1999,. e eu ali e nºão vi…
Olho o relógio e interrogo acerca da porta fechada. Passa das cinco. Tola, chamo-me, dando razão à chuva, adiando a visita, sentindo-me inusitadamente acompanhada num aconchego à beira-mar, mesmo que ali o Atlântico seja ao contrário do meu. Como se dali visse Lisboa. Lisboa do lado de lá da água, como Alice no espelho. E é a água a devolver-me o rosto, a casa, como na exposição de Sarmento, o autor que Salter sublinhou saber dar essa sensação quando se aproxima da escrita. Agora persigo isso, essa sensação, e cheirou a café.
Entro. Um livro na mão denuncia-me e ouço em bom português: “O que vai ser?” Longe de saber de Julião Sarmento, aquela rapariga loira veio de Lisboa grávida, como me havia de contar, à procura de um sítio onde pudesse criar a filha. Contou-me ainda que trabalha ali e noutro restaurante, longe da Lisboa de onde veio e para onde está virada. Não tem um dia de folga, mas está entre os ricos da América a perseguir mais do que um cantor canadiano.

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