Não deixem morrer os burros

Em Zamora e no planalto mirandês há gente apostada em preservar uma espécie que os livros condenam à extinção. De um lado e de outro da fronteira, homens e mulheres procuram nova função social para uma população de menos de três mil burros. Do turismo à ajuda na recuperação de deficientes, da produção de carne ao leite e à cosmética. São testes sem muito tempo para falhar.

Adolfo tem 70 anos e um rosto onde as rugas só aparecem quando não ri. Por isso, o melhor é dizer que aos 70 anos não se acham rugas em Adolfo Garzón de San Miguel porque o sorriso é a expressão natural deste homem de olhos azuis que grita num castelhano nasalado “los burros me encantan”. Vive e sempre viveu numa povoação de pedra a uns 15 quilómetros da fronteira com Portugal, seguindo pelo Douro. “Esta é a aldeia de Castilla com mais asnos.” Diz isto e ri com um riso completo, barriga a tremer e olhos a fecharem-se enquanto afaga Malina, burra com mais de 20 anos que ainda leva para o campo, lhe carrega lenha e vive na porta ao lado da sua.

Em Villalcampo, terra de Adolfo, vivem 300 pessoas e 200 asnos. Quase não se vêm crianças e os carros contam-se pelos dedos. Por ali, os burros passeiam-se em liberdade pelas ruas, pachorrentos como cães sem trela, e ao vê-los ninguém diria que pertencem a uma raça cujo destino natural é a extinção (ver entrevista).
Adolfo e Villalcampo existem e tipificam um cenário que, tal como os burros, ameaça eternizar-se em postal ilustrado. Pertencem à categoria das raridades como tantos outros homens e algumas aldeias do outro lado da raia, em Trás-os-Montes.
Malina, Bonita, Esplêndida e Morena, as quatro burras de Adolfo, são de raça zamorana, considerada “espécie em perigo de extinção” pela União Europeia. Esse estatuto vale-lhes direito a protecção e equivale subsídio aos proprietários. São iguais à Andorinha e à Bomboca, fêmeas de lã comprida e desgrenhada que pastam do lado português da fronteira, na aldeia de Atenor, tão deserta de carros quanto Villalcampo, com as mesmas casas de pedra, mas a cair, pontuadas de palacetes de emigrantes e velhos ao sol em dia feriado. A estas burras, chamam-lhes mirandesas, por serem de Miranda. Correm tanto risco quanto as vizinhas espanholas, mas a burocracia de Lisboa ainda não as inscreveu em Bruxelas. Na realidade, estão em extinção. Oficialmente nem por isso.
Olivier Campardou, francês dos Pirinéus, anda entre Zamora e o planalto mirandês só para ver burros. Como Adolfo, deixou-se um dia encantar por eles, mas ao contrário de Adolfo e de outros criadores da península, transformou encantamento em negócio e isso faz dele um exemplo. Apresenta-se como pioneiro no retomar de uma tradição que se perdeu com a II Guerra Mundial. Produz cosméticos a partir de leite de burra.

Parece saído da cidade, até na boina que podia ser de artista mas é de agricultor. Não se incomoda com o cheiro a bosta, o odor natural em Villalcampo. “Isto é o paraíso na terra. Tudo em pedra e os burros em liberdade junto com as pessoas”, vai dizendo num castelhano de erres pouco carregados, quase perfeito, enquanto segue Adolfo. O leite que Olivier retira das 40 burras que tem na sua quinta em Saint-Girons, Angières, não chega para as necessidades de um mercado que em França se está a expandir. Quando começou, há 12 anos, era o único. Agora é um entre 23, mas a procura continua a ser maior que a oferta e isso obriga-o a procurar leite fora da sua exploração.

Jesus de Gabriel Pèrez, veterinário, criador de burros e presidente da Associação para a Protecção de Gado Zamorano (Aszal), conheceu-o numa feira agrícola em Paris e os dois decidiram fazer negócio. Há dois meses, o espanhol começou a ordenhar as suas burras e Olivier compra-lhe o leite. Chegou na véspera numa carrinha verde da cor do pasto equipada com arca frigorífica e o desenho de uma burra pestanuda de flor cor-de-rosa na boca. Foram dez horas de caminho, percorrido sem pressas até Toro, cidade de dez mil habitantes, a leste de Zamora. De lá, são mais sete quilómetros e uma placa assinala Villardondiego. É ali, numa planície a perder de vista pontuada de silhuetas no sol de fim de tarde, que está a Burrada de Jesus de Gabriel.

Está na hora de mais uma ordenha. Jesus chama as burras a um prado novo. É um dia especial. Veio Olivier e vieram também elementos da AEPGA (Associação para o Estudo e Protecção do gado Asinino), de Miranda do Douro. O Nuno e o Rui vão filmar o que ali se faz para mostrar o vídeo aos criadores portugueses “que não acreditam que tal seja possível fazer”. Todos falam em portuñol, língua de fronteira e Jesus fala mais que os outros. De cada burra, conta uma história. De Maité, Solita, Galana, Desejada, Yera… Todas têm nome para serem registadas no livro da espécie. Jesus fala, mas é Fernando quem recupera memórias. “Havia cá um homem que dizia que um burro é capaz de memorizar 40 palavras.” Não lhe custa acreditar. “Ser cabeça de burro há-de deixar de soar a ofensa”, sentencia. E sublinha o popular com o recurso ao clássico. Vai buscar O Burro de Ouro, a sátira que Lúcio Apuleio escreveu no século II e na qual homem e burro se metamorfoseiam. “Precioso”, comenta, e não há tradução que valha ao tom.
Fernando é o quarto irmão de Jesus. Cenógrafo, iluminador em palcos de bailado, pintor de murais a branco e negro, ordenha burras das seis da manhã às dez da noite, todos os dias há um mês e meio. “A rotina do campo é disciplinadora para quem vem da cidade”, brinca. Há-de repeti-la até ao dia em que terá de sair numa tournée de três semanas por sete países da América do Sul e só a alegria de voltara a ver cidade de Guadalupe o com a da tristeza de deixar os burros. Mas não irá sem deixar sucessor em Villardondiego.

Miguel, o sobrinho de 25 anos, veio das montanhas, junto a Leon, no Norte de Espanha, até à planície para aprender a tirar leite das burras. Não podia encontrar melhor mestre. Olivier ensina-lhe a precisão do gesto. Miguel olha com uma atenção inversa ao que poderia sugerir o seu jeito urbano. Conhece cada planta, cada animal. Só não consegue repetir os gestos de Olivier. Dizem-lhe que são mais ou menos dez litros por cada ordenha e uma ordenha de quatro em quatro horas. E ele olha o pouco que conseguiu em demasiado tempo. “O tom de voz ajuda”, segreda-lhe Fernando. E Miguel ensaia o diálogo com Abutarda, “a burra que produz mais”. E o leite vai saindo e a espuma branca caindo na lama. “Deve ser da conversa”, riem os homens.

Nuno e Rui filmam e os portugueses hão-de ver o que Adolfo também ainda não viu. Em Villalcampo, só sabe porque Jesus lhe contou e, para Adolfo, ninguém sabe mais do que Jesus. Por isso, um dia, ele também há-de experimentar a tirar leite das suas burras. “Mas temos de ser todos”, acrescenta, “todos os de Villalcampo”.

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