De pantufas, na rua Basílio Teles

Vinha de casaco de tricô beige. Um casaco sem tempo, de lã grossa com borbotos. Não lhe chegava aos joelhos. Abotoava à frente, com botões de madeira, e tinha dois bolsos, um de cada lado, naquela malha que imita ondas como as do mar que gostava que o levassem a ver. Era nesses bolsos que às vezes punha as mãos enquanto andava com passos miúdos. Sem pressa e silencioso. “Tenho um pé que já deu a volta ao mundo”, escreveu ele em “Autografia”, poema que haveria de ser nome de filme biográfico. E deu a volta ao mundo porque o mundo era ele, diria também. E ninguém diria ao vê-lo assim, num tempo em que já não escrevia, com as pantufas que não chegava a descalçar para ir almoçar ali, naquele restaurante onde agora entrava, como entrou em tantos outros dias antes. Gestos repetidos de um quotidiano em que sair de casa de roupão era o pouco que lhe restava para provocar, ele, a quem Luís Pacheco – outro surrealista — chamou um dos “surreal lisboeto”, “malta de cafés e outros estabelecimentos, com vidas mais ou menos precárias, histórias psiquiátricas e uma predilecção por álcoois”, como recordava Pedro Mexia, num suplemento “DNA”, de Abril de 2004. Para ele, agora, era só descer as escadas, virar à esquerda no passeio estreito de uma rua sem história de Lisboa e entrar na porta ao lado.

Já não escrevia versos em 2002, mas pintava e “a pintura foi outra maneira de andar”, disse ele um dia, nesse mesmo ano, quando lhe atribuíram o Grande Prémio EDP, distinção para a sua obra plástica. 
Andava e às vezes não ia com o casaco beige. Levava antes um roupão cinzento, de quadrados. Era quando estava mais frio. Mas mantinha as mãos nos bolsos que só tirava para ajeitar a boquilha onde o cigarro queimava. Entrava e havia cabeças que se viravam para o ver entrar, sem a companhia “de gente altamente suspeita”, como acontecia quando o viam na noite, quando frequentava a noite. Isso anotou ele noutro poema. Agora entrava, esperava que lhe indicassem uma mesa e sentava-se. Levava a irmã, Henriette, com quem vivia, a mesma que em “Autografia” — o documentário de Miguel Gonçalves Mendes estreado em 2004 — se definiu como uma “antiartista” e irmã “de um santo irmão”.

Era Henriette, a mais velha das três irmãs, ou então um amigo, quase sempre o mesmo, alguém com um rosto em que ninguém se fixava porque os olhares só perseguiam aquela cabeça branca com queixo adunco, riso escarninho desenhado na boca e contagiando os olhos; riso sarcástico de um sarcasmo que se recusava a envelhecer, apesar do corpo cada vez mais curvado, frágil. A maior parte das vezes calado outras soltando um cumprimento efusivo, dizendo palavras que sublinhava com gestos exagerados. Cesariny no seu teatro, “performer nato” segundo quem o conheceu de perto a dizer palavras. “Palavras que nos sobem ilegíveis à boca / palavras diamantes palavras nunca escritas / palavras impossíveis de escrever / por não termos connosco cordas de violinos / nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar…” (in “You are Welcome to Elsinore”).

E as palavras, o “dever de falar”, dependiam da assistência. Porque vê-lo entrar era uma espécie de happening, um acontecimento, uma liturgia. Mário Cesariny de Vasconcelos, o poeta, o pintor, numa rua sem história, num restaurante fora de roteiros, a comer, de pantufas e roupão, mesmo por baixo da casa que lhe deram para viver, em Lisboa, mas longe da Lisboa que sempre transportou para a sua poesia. A dos bares do Cais do Sodré, das tertúlias, dos cafés Gelo e do Royal num tempo salazarista que o perseguiu pela sua homossexualidade. Ele estava ali, na Rua Basílio Teles, rua sem história, mas onde ele encontrou estórias para um poema. A rua da casa, a rua do restaurante para onde ia de pantufas e roupão. E para que menu? A ver pelo cardápio, dos que se guardam em vidro com fechadura, do lado de fora da porta, decerto diferente daquele que Cesariny descreveu em “Homenagem a Cesário Verde” e publicou no livro Pena Capital (Assírio & Alvim): “Depois do bolo-rei comeram-se sardinhas / com as sardinhas um pouco de goiabada / e depois do pudim, para um último cigarro / um feijão branco em sangue e rolas cozidas.” Ali, nada disso. No máximo uma lampreia vinda do rio Minho e feita por encomenda, uns joaquinzinhos com arroz de tomate e sardinhas, mas sem goiabada…

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