“Eu sou o escritor que não sofre”


A feira fechou, mas Ignacio del Valle ficou a dar autógrafos depois das luzes se apagarem e a conversar com quem descobriu na escrita dele a mesma compulsão detectada e elogiada por Urbano Tavares Rodrigues.
Depois de ler “Os Demónios de Berlim”, o mais recente romance de del Valle, o escritor português não descansou enquanto não conheceu o responsável por tê-lo feito passar uma noite em claro. Não foram insónias. Foi o prazer da leitura, esse tal jogo ou brincadeira que o espanhol Ignacio del Valle gosta de jogar, seja em campo, enquanto criativo, seja numa poltrona a recrear-se com o talento de gente como Cormac McCarthy, o americano desapiedado que conta histórias como quem dá murros certeiros, ou Eça de Queirós, o autor português que melhor conhece e que gosta de citar para provar que a boa literatura não tem idade.

Se a literatura tem uma função, e tem, é a de entreter e que não haja medo da palavra. “Não se retira prazer apenas do facilitismo. Uma peça de teatro é um prazer, um bom prato é um prazer, como é um prazer uma ópera ou um grande romance.” E que prazer aprender com as boas coisas da vida! É a melhor forma de adquirir conhecimento”, vai dizendo Ignacio del Valle.

Aos 40 anos, e depois do sucesso literário da trilogia que dedicou à II Guerra Mundial, del Valle prepara-se para mudar de território. E não é sem dor que se separa de Arturo Andrade, personagem com quem conviveu dez anos e da qual se despede agora como de uma relação amorosa. Arturo foi o protagonista de “Os Demónios de Berlim”, o thriller que começa com a invasão soviética naquela cidade dominada pelo caos, em 1945. Foi o derradeiro título de uma trilogia que começou com “A Arte de Matar Dragões”, ao qual se seguiu “O Tempo dos Imperadores”, a ser adaptado ao cinema por Gerardo Herrero. Um adeus sem data de regresso. Isto se houver regresso. Não por o tema se ter esgotado, mas porque “neste momento não tenho mais nenhuma questão a colocar”, justifica-se Ignacio del Valle, mais interessado por outro tempo, outra geografia. Para trás ficou a Europa, e o próximo romance, já concluído mas ainda sem data de edição, centra-se em Nova Iorque, a grande obsessão literária deste espanhol natural de Oviedo, onde nasceu em 1971, e actualmente a residir em Madrid.

É de Nova Iorque que parte uma história de amor passada na actualidade; é ali, naquela cidade onde Ignacio quer viver mas não morrer, que decorre também a maior parte deste a que concede chamar um romance político, embora “todos os romances sejam políticos”, defende. E todos são também histórias de amor. É disso que é feita a vida. De uma emoção que se cria e que nos move. E é disso também que se faz a literatura tal como a entende este escritor que gosta de ser contaminado pelo “american way” de contar uma história. Não ao jeito de Don DeLillo, autor de “Cosmopollis” ou o “Homem em Queda”: “Ele não escreve romances, mas ensaios. A diferença é que arranja personagens para dizerem aquilo que ele pensa.” Daí a preferência por Cormac McCarthy, “o fantástico narrador, seco, sem uma palavra a mais, que escreve sobre a condição humana através de histórias intemporais. ”Quem lhe dera ser contaminado, confessa sem esconder a admiração e a tal capacidade de escrever por imagens. Se a sua escrita é visual – e até tem um livro adaptado ao cinema –, então a culpa é de McCarthy, quem mais?

Com seis romances publicados até agora, traduzido em várias línguas, Ignacio espera a publicação do próximo romance com a expectativa de quem já conheceu o sucesso e sabe que ele lhe pode fugir. Sentiu, aliás, o amargo do fracasso. Um ano e meio passado a escrever um romance que ficou na gaveta por ser “mau de mais”. Lamenta, mas sabe exactamente onde estão os erros. Passou muito tempo a olhar para eles, a perceber as razões, a fragilidade e só depois avançou para o outro. O que já está escrito e há-de vir para as livrarias. “Foi difícil lidar com isso, mas não foi tempo perdido. Aprendi e só por isso estou aqui, continuo a escrever”. E não há amargura. Há um sorriso para dizer que a escrita não é uma angústia. Um prazer que dá muito trabalho. 95 por cento de suor e o resto é o tal incontrolável, que não sei de onde vem.” Se há o retrato do escritor sofredor não é o de Ignacio. Como, se me pagam para viajar, para estar nestes hotéis, para ir a bons restaurantes. Quantas pessoas não sonham com esta vida?” Ele sonhou um dia e por isso dedica 14 horas diárias à escrutina nos tempos em que está para nascer um livro. E não há tiques de vedeta. “Posso escrever em qualquer lado.” Poderia agora estar a escrever o romance de que não quer falar. Embrionário, top secret, com um cadáver para resolver, mas isso é o menos. O mais é emoção. É para a criar que existe a sua luta de escritor.

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