dor no pé

Fiquei à espera com um livro do Afonso Cruz.
Era noite em Lisboa e ele trazia-me coisas de outras terras onde a sabedoria não precisa de cadernos nem canetas e nos é atirada à cara sem cerimónias de bem-parecer. Cresci com essa sem-cerimónia e sei o que ela é, o que ela custa, o que ela desarma.

O livro conta a vida de um pintor descoberto na província com tem direiro a quadro na parede da casa da Figueira da Foz, mesmo por cima da arca. Há sempre uma arca numa casa velha de pronvícia. Toda a gente sabe.
E o quadro ficou por lá com a sua história para ser contada, e como Afonso, o pintor, o ilustrador, o designer, o músico dos Soaked Lamb, não gosta de deixar histórias por contar – “temos de as soltar para que possam correr todas nuas” -, resgatou-a e aqui está ela contado no impulso como deve ser com as histórias para que guardem alma.  Ainda o prato de favinhas com chouriço não tinha chegado à mesa e já eu ia dentro dela, com a mãe dele, a de Sors, o pintor, no dia em que o médico anunciou aos pais, na hora do parto, que aquele bebé tinha um olho em meia-lua, sinal de que iria ser artista. Não de circo, como a mãe ainda sugeriu, mas dos outros, e ela não viu nisso qualquer beleza, qualquer vantagem na liberdade que lhe apregoavam como boa como a de olhar sempre o mundo como da primeira vez.

“É a maior infelicidade. Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições.
Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios.
Quero que os lençóis de ontem, mesmo que os bordados sejam completamente diferentes.
Não quero que os beijos que recebo sejam novos, quero que sejam velhos, quero que sejam os de sempre.
Não me quero sobressaltar como quando era jovem. Uma pessoa só pode ter paz quando está ao pé das mesmas coisas, quando nem repara nelas, porque elas já fazem parte de si, como se as tivesse comido e mastigado e engolido e agora fossem carne da sua carne e sangue do seu sangue.
Só somos felizes quando já não sentimos os sapatos nos pés.”

E é esta frase que resume tudo, todo o incómodo do novo, e apetece citá-la, guardá-la na memória para a ter a jeito, só no caso… O Afonso tem esse olhar capaz de filtar o essencial de uma realidade que muitos não conhecem e tendem a julgar como má. É preciso saber a razão pela qual a mãe de Sors, o pintor, não gostou nada da profecia de que o seu filho iria ser um daqueles sempre a ver o mundo como novo. Na sua sabedoria, sem cadernos nem canetas, ela sabia que isso tinha o incómodo do sapato que magoa o pé, o tal que nos recorda que temos um pé quando era suposto esquecer porque ele está lá é para andar e não para fazer doer.

As favas estavam na mesa. A companhia para o jantar chegou, e o Afonso, com aquela invulgar sensibilidade de quem conta mas não julga e mesmo assim comove – ou só por ser assim comove tanto – tinha-me serenado e posto de bem com o mundo num dia em que parceia que o mundo não queria nada comigo. Foi um dia em que o sapato andou sempre a lembrar-me que eu tinha um pé, a mim que não tenho nada de artista.
Fechei o livro, mas aquele mundo, que era o mesmo em que eu nasci, não me largou na grande cidade onde eu comia agora favas com chouriço sem medo de querer olhar sempre o tal mundo como da primeira vez.

E não é que nunca comi favas assim… Obrigada Afonso por este “O Pintor Debaixo do Lava-Loiças”

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