“A arquitectura vai ser cada vez mais low-cost”

No dia em que ele recebe o Pritzker recordo uma conversa com o Arquitecto Souto Moura

É um dos nomes mais internacionais da arquitectura portuguesa. Tem obra premiada e construida um pouco por todo o mundo. Um dia disse que todos os dias lhe apetece abandonar a arquitectura. Foi um dia. Agora já não. Aos 57 Anos, Eduardo Souto Moura, Benfiquista de quando o Benfica era herói de uma geração, diz que que quer continuar a fazer as coisas mexer, a fazer obra, mesmo depois não volte a entrar nela. Mas como não há regra sem excepção, o Arquitecto vive numa casa desenhada por ele. Não para ele. E confessa que já lhe encontrou defeitos.

Fez anos dois dias antes desta conversa este homem que diz que a arquitectura veio para corrigir as imperfeições do mundo. Pretencioso? Não importa. Importa o que faz e como faz e ele tenta sempre fazer o melhor antes de mais, parabéns. Fez anos há dois dias.
Obrigado.

Como lida com esse passar dos anos? Gosta de escultura e lembro aquela frase da Yourcenar: “O tempo, esse escultor”. Sente-se a ser moldado pelo tempo?
Sinto. Acho que estou a ficar diferente. Não é uma percepção muito imediata, dizer “mudei”. Mas noto no dia a dia que sou diferente em relação ao que era há uns anos.

Diferente como?
Não sei. Vejo as coisas de maneira menos precipitada, menos eufórica, mais comedida, talvez. Por vezes não é por um acto voluntarioso da nossa parte que se pode mudar o mundo. Às vezes saber esperar é a melhor maneira. Não estou a dizer que cruzei os braços, mas muitas vezes agitar os braços não significa chegar mais depressa onde queremos.

Está a dizer que se tornou mais conformado?
Não, pelo contrário. Os meios contra a resignação é que não são tão visíveis ou eufóricos. Estou a falar da minha vida profissional, a arquitectura.

A arquitectura é um processo lento…
Lentíssimo. Então há que trabalhar para as coisas acontecerem dessa maneira suave na arquitectura, o que nunca acontece. Há que trabalhar mais. Trabalho muito, mais do que há uns anos. Agora há que ser mais persuasivo na apresentação do material para mostrarmos que temos razão. É preciso fazer estudos económicos, coisa que não se fazia. Era “isto está muito bonito” e chegava. A actividade é muito mais desgastante agora, mas é apresentada de maneira não tão vigorosa, de jovem entusiasta contra tudo e todos. A palavra pode parecer um pouco pretenciosa, mas há uma certa sabedoria na forma como as coisas acontecem, de saber que no fundo a arquitectura não depende dos arquitectos.

E depende de quê?
O arquitecto entra a meio. Depende do investimento.

O que está a dizer é que o arquitecto é um intermediário?
Não. O arquitecto nos últimos tempos, se tem empreendimentos maiores, tem de ter uma empresa. Coisa que antes não acontecia. Ou que eu não tinha. Não quer dizer que trabalhasse num vão de escada, mas para fazer umas casas para a família e ir a uns concursos, um atelier artesanal servia… Hoje não é assim. As pessoas têm de estar perto dos clientes que querem reuniões imediatas, respostas imediatas, pedem coisas que nem sempre podem ser. É preciso advogados na retaguarda e informações económicas da parte da construção e da engenharia a dizer isso não é possível, não é compatível.

A arquitectura é cada vez mais uma ciência exacta e menos uma arte?
Quanto mais a arquitectura tem de ser empresarial, mais as pessoas tendem a encontrar anticorpos para combater isso e arranjar substitutos. Significa que hoje o arquitecto tem de trabalhar mais, neste sentido. Além da parte da criação porque as pessoas vêm ter comigo e querem um projecto pessoal…

Uma marca?
Sim, uma marca, não queria dizer isso, mas é.

E qual é a sua marca pessoal?
Não sei. Sei que não é a que tinha. Fui mudando. Quando as pessoas se começam a repetir perde um pouco o interesse.

Souto Moura era conhecido como fazedor de casas
Foi o meu início de carreira. Não estava ligado a nenhum grupo económico, não pertencia a nenhum partido e dessa forma, neste país, é muito difícil fazer arquitectura. Aparecia como profissão liberal, a fazer casas. Primeiro para a família, depois para os amigos e fui fazendo casas. É evidente que as casas não dão dinheiro, mas fui sendo professor cá e lá fora. Por isso a minha conta bancária nunca estava negativa. Tinha sempre o ordenado da docência. Quando deixei de ser professor pensei que assim não ia lá e decidi entrar em concursos. Através de concursos comecei a ter projectos grandes e fazer outro tipo de intervenções ligadas ao território, construir imagens sem ser as chamadas casas. Gosto imenso de fazer casas. Não posso é só fazer casas.

Estávamos a falar da sua marca. Será a tal horizontalidade de que se fala?
Talvez, mas isso não me compete a mim. Que é horizontal é; que acho que a arquitectura deve estar ligada à terra, também confesso. Não por gosto pessoal, mas porque há uma tradição da arquitectura portuguesa. A manipulação do território foi sempre muito amaciada. Nunca cortamos montes e montanhas a meio porque não tínhamos esses meios. A colonização era feita através de uma distribuição pontual, mais por famílias, pequenos barcos e que eram deixadas nesses pequenos portos e depois faziam feitorias. Os meios eram poucos e era preciso estabelecer relações com os nativos porque não havia exército. Há um conjunto de condições que formaram o que se chama identidade portuguesa e se manifesta também na arquitectura. Antes de mais sou português, não tenho de fazer arquitectura nem inglesa nem americana. Tenho de fazer arquitectura portuguesa.

E revê-se nessa identidade?
Revejo. Porque também não vejo que as circunstâncias mudassem muito. Continuamos a ser poucos e com poucos meios apesar de parecer muitas vezes que não é assim. Não há dinheiro também.

Há um exemplo da sua obra que mexe muito com a topografia e contraria isso que acabou de referir: o Estádio do Braga.
Isso é outra coisa. As regras têm excepções. Passei a vida quase sem tocar na terra e apeteceu-me. Foi uma sugestão que tive por causa dos anfiteatros romanos que eram metidos dentro da própria montanha. Ali a montanha já estava a ser mexida com uma pedreira. Foi a imagem certa no tempo certo, com as pessoas certas. Porque se não fosse a CMB a aceitar penso que outras pessoas não aceitavam. Aí tenho de fazer justiça ao cliente.

Diz que nunca entra numa obra sua depois de concluída. Não voltou a entrar no estádio do Braga?
Fui lá receber um prémio, o Prémio Secil, durante um jogo Braga -Sporting.

Como se sentiu?
Saí a meio porque o Braga já estava a perder por tantos que imaginei que aquilo fosse ser uma desgraça.

É adepto do Braga?
Tenho uma certa simpatia, porque o meu pai era do Braga e eu em pequeno ia aos jogos. E é evidente que tenho de ser minimamente reconhecido a quem me chama para fazer um estádio e depois não ter o mínimo de afectividade em relação ao clube dessa terra. Não sei qual é o clube do Manuel Salgado, mas desconfio que é do Sporting (sorri).

E o seu qual é?
Eu sou do Benfica.

Como quase todos os adeptos do Braga.
Não. Como quase todas as pessoas da minha geração.

É uma coisa geracional?
Acho que sim. Quando se é pequeno quer-se heróis e os heróis da altura eram o Eusébio, o Coluna, o Simões. As pessoas humildes querem pessoas que ganhem não querem pessoas que perdem. O Porto não existia, como clube. Depois o Benfica entrou em decadência e o Porto começou a subir e não me apeteceu virar a casaca. Não, não gosto. Mesmo quando discordo.

Também acha que nunca se muda de clube?
As pessoas, quando aderem, tem de ser para o bom e para o mau. Não é agora pelo Porto ser famoso que mudo. Vivo no Porto, gosto muito do Porto, sou portuense na maneira como penso, na cultura…

E o que é ser portuense nesse sentido?
É gostar daquela terra, daquela maneira de viver e das pessoas que trabalham ali, muito diferente de Lisboa, do pouco que conheço de Lisboa. Considero o Porto uma cidade muito mais fechada, introvertida.

O portuense é introvertido?
É. À primeira vista. Depois quando as pessoas aderem, é afável. Mas na primeira impressão penso que não é. Pergunto a mim próprio porque é que não há negros no Porto. Por uma questão de economia? Lisboa é quase uma cidade mista e no Porto passo meses sem ver um negro. Numa entrevista de um escritor americano a quem perguntaram o que é que achava do Porto, ele disse que uma das coisas que lhe fazia impressão é que vivia ali há seis meses e nunca tinha visto um negro. Não digo que seja hostilidade, porque as pessoas do Porto não são hostis. São afáveis, querem entender as regras do jogo, querem entender a fidelidade do outro lado para poder saber se estão disponíveis a dar a sua. Depois disso penso que é um casamento perfeito e as pessoas ficam a viver lá. Não uso o slogan de que o Porto trabalha e Lisboa diverte-se. Não é verdade. Eu trabalho muito mais em Lisboa do que no Porto.

Qual é a sua relação com Lisboa?
Eu tinha uma relação de férias maravilhosa com Lisboa. Fiz aqui a tropa onde não se faz nada. Trabalhava no quartel da Graça, que é um sítio maravilhoso, e vinha do Porto, Santa Apolónia, subia, tinha uma relação muito próxima com o rio e a luz. A luz faz-me impressão, é muito forte. Depois como não se fazia nada, fiz um projecto aqui em Lisboa, o mercado de Braga, projecto que um professor me tinha dado.

Já tinha terminado o curso de arquitectura nessa altura.
Tinha, não pensava em ir para a tropa. Foi um acidente, uma pessoa formar-se e poder ir para professor porque tinha uma boa nota e tive de ir dois anos para a tropa. Era o mais antigo de todo o quartel. Chamaram só duas profissões: arquitectos e psicólogos. Psicólogos para os testes e os arquitectos para as obras. Mas nunca tive contrariedades. Nem na vida pessoal, nem na vida profissional, nem na vida afectiva em Lisboa. Passeava, ia às galerias…

Agora tornou-se cidade de trabalho.
E neste momento trabalho e as coisas não são bem assim. Mais pela burocracia. Há muita burocracia na Câmara de Lisboa. Para decidir uma varanda tem de reunir os vereadores todos, que é uma coisa que não se entende no século XXI…

É por essa demora que contamina a arquitectura que diz que todos os dias lhe apetece abandonar a profissão?
Não, eu agora já não estou nessa fase porque acho que já é tarde. Acho que já não sei fazer outra coisa, se calhar.

Mas gosta de fotografia, de escultura…
Gosto, gosto imenso. Estou aqui cheio de papéis sobre umas máquinas… Mas não me apetece ir para Vale de Lobos como o Alexandre Herculano, recolher-me e ficar com a manta em frente ao fogão. Gosto deste país e acho que devo continuar a trabalhar.

Nunca lhe apeteceu sair de Portugal?
Às vezes apetece-me, apeteceu-me, mas não estou arrependido. Saiu-me a sorte grande para qualquer arquitecto: ser professor efectivo em Zurique, dois dias por semana, o que me dava para viver, não digo como o Cristiano Ronaldo, mas sem a mínima suspeição de reformas e essas coisas. Era o correspondente, em Portugal, a três mil e quinhentos contos por mês. Não fazia mais nada e vivia muitíssimo bem. Dois dias que acabavam por ser três, com as viagens para o Porto. Eu disse “sim, senhor, vou para Zurique, fico um professorzinho académico, não sou arquitecto e durmo descansado. Tenho os três mil e quinhentos contos, mas… Tudo aquilo que me faz mexer e lutar e trabalhar para que as coisas fiquem melhores, isso vou perder.

O que é que o faz mexer? O que é que o faz querer ser arquitecto?
O que me faz querer ser arquitecto, o que me faz mexer, no fundo e usando uma frase muito banal, é poder contribuir para as pessoas serem mais felizes. A realidade pode ser melhorada. E isso pertence fisicamente aos arquitectos. Deus distraiu-se no último dia, foi descansar e não devia ter ido, que isto podia estar melhor.O arquitecto corrige um pouco a natureza, vem melhorar. Acho que faço parte disso, assim como os escultores que pegam em blocos de mármore imperfeitos e põem-nos perfeitos, os arquitectos pegam numa montanha como a Acrópole uma montanha sem graça nenhuma e depois constroem o Parthenon, com essa pedra, a obra mais impactante e mais perfeita da história da arquitectura. É um bocado isto que sinto: que as coisas podem ficar melhores. Digo isto sem pretenciosismo.

É um pessimista em relação ao que se está a fazer na arquitectura…
Não. Há coisas que não gosto e sou crítico em relação a elas. Se achar que com a intervenção fica pior ou que é desnecessário, recuso.

Já recusou trabalhos?
Já, já. E os trabalhos que recuso, digo “olhe, não posso, e tal”. Porque acho que não vem a propósito.

E dos que fez, nunca teve essa percepção?
Dos que fiz há uns que gosto mais e outros menos e há outros que digo “acertei melhor” e outros “acertei pior”. Às vezes espeto-me. Há uma coisa que tento não fazer e por isso é que trabalho: Isto correu mal porque fui para a praia e devia ter feito aquela janela de uma outra maneira”. Isso é que me faz impressão. Há quem me diga: “Mas por que é que és tão exaustivo, e tal?” Porque as coisas podem acontecer mal, mas pelo menos gostava de dizer que tentei.

Quando falamos de arquitectura, o que é isso do “bonito”?
O bonito…

É a harmonia?
Pois, mas a harmonia pode ser dissonante, tal como a música. O bonito pode ser o feião. Não é o feio, quer dizer, qualquer coisa desconexa que é necessária ali. O bonito é aquilo que São Tomás de Aquino explicava: o desfasamento entre duas coisas diferentes. O bonito nunca é o estádio a que se atinge e que fica por ali e que é uma entidade fechada e positiva. É sempre um processo dialéctico que nunca está bem, é sempre inconstante. Olhe, o bonito é aquilo de que o Pedro Mexia falou há tempos no “Público”: é a inquietação. Não é o estádio final, é o processo para… e que tem a consciência do desassossego – citando Pessoa – que nós vivemos sem estarmos aconchegados e nos faz produzir. O tal estádio que eu dizia, da felicidade. Nós trabalhamos para as pessoas serem mais felizes. É uma frase banal, quase piegas, mas não me importo nada porque as coisas têm de ser ditas de uma maneira…não é preciso inventar coisas complicadas.

Já não se pode inventar nada, na arquitectura…?
Acho que não. Inventa-se pelas transformações que existem, pelos meios diferentes. Isto é, hoje somos responsáveis e temos disponibilidade muito maior que os antigos. E somos responsáveis por isso. A dificuldade de fazer as Pirâmides do Egipto foi brutal. Como a dificuldade de fazer a Muralha da China… Nós hoje temos obrigação de fazer melhor. Existem mecanismos, materiais de tecnologia que devemos utilizar. E devemos fazer aquilo que já está tipificado pelo saber colectivo e foi censurado durante milhares de anos, na arquitectura. Portanto, as formas são apuradas, devem ser melhores e devemos introduzir os materiais e os sistemas construtivos da actualidade. Agora se me disser assim: “Vamos fazer ou vamos inventar a casa do futuro.” Não me interessa nada e é sempre um desastre. A casa do futuro é a casa do presente, melhor, o melhor possível.

A arquitectura sustentável é uma expressão que o irrita?
Irrita-me imenso. Porque não há pessoas sustentáveis. Há pessoas agradáveis. E irrita-me porque é um adjectivo que é uma visão unilateral e a arquitectura não tem a ver com isso. Isso é uma condição necessária mas não é suficiente.Portanto, nesta moda da energia, quase se diz que se é sustentável já é bom. Claro que não. Pode ser um horror. Eu posso gastar menos num ar condicionado e depois não poder ver aquilo lá dentro porque aquilo é de uma fealdade brutal. Aliás como acontece em quase todas as casas ecológicas. Visitei vários edifícios paradigmáticos sob o ponto de vista da sustentabilidade e são autênticos monstros. E os edifícios são como as pessoas. Portanto, a tal beleza que vem da inquietação tem a sustentabilidade implícita. Há uns anos falava-se de arquitectura inteligente. Havia uma moda. Então, a arquitectura era regulada pela domótica.

É estúpido falar de arquitectura inteligente?
Completamente estúpido. É como as famílias felizes, não é? As famílias felizes não são muito sustentáveis ou, pelo menos, eu não gosto. Eu gosto de discutir, gosto de incidentes, gosto de ter opiniões contrárias, e as coisas vão-se conquistando assim. E a arquitectura inteligente que tinha a domótica é de um atrevimento enorme, porque determina que os outros são burros, e depois, todos os outros edifícios que não têm isso e que têm fontes térmicas e que gastam um bocado mais de electricidade, são estúpidos. Não me conformo com “este tipo é um estúpido e aquele é que é inteligente”. Não é assim.

E como se vai posicionando face a estes movimentos?
Tento fazer o que acho que devo fazer e transformar essas modas num supérfluo.

A arquitectura está na moda.
Está, tenho que reconhecer que está. As coisas vão mudando. Lembro-me de quando decidi ser arquitecto e disse ao meu pai que ia para Belas-Artes, a primeira reacção foi má e não foi por conservadorismo. O meu pai era conservador, mas inteligente…

Era conservador?
Muito conservador. Era monárquico. Mas muito inteligente. E um liberal. E dizia “vais morrer de fome”. A minha família é de Braga e o único arquitecto que ele conhecia era um arquitecto que trabalhava de noite e que dormia de dia. Era a imagem do ‘enfant terrible’, quase como um Baudelaire. Nunca tinha dinheiro, aceitava uns projectos e pagava as dívidas. Isto era a imagem que se criou do arquitecto, um pouco a de um artista, louco. Na pintura, na escultura ou na literatura, o artista pode ser muito autónomo. Quase que não precisa de ninguém. Só o escritor é que precisa do editor. Mas em arquitectura precisa-se de muito dinheiro porque senão não se faz nada. E de muito poder. Por isso é que não acredito na arquitectura contra o poder. São desenhos que não passam de riscos. E depois precisa de construir. E para construir tem de entrar com a economia. E a economia é o poder. Esta é uma plataforma e depois há que superar isso. Porque se for só isto é uma resposta mecanicista, não é arquitectura. É só construção que se vende ao metro quadrado. A obrigação do arquitecto é usar isso para fazer melhor. Se contraria não consegue. Tenho de pontuar os interesses pessoais do cliente e com essas peças e construir um objecto que seja cultural, isto é, que possa pertencer ou contribuir para a história da arquitectura. Sei que é de uma ambição desmedida mas se não houver…

É essa a sua ambição?
É. Temos de apostar muito alto para ficarmos pelo meio. Se apostarmos rasteiro não passamos da alcatifa. É uma espécie quase de droga interna. Eu sei que nunca irei passar à história da arquitectura mas tenho de jogar com os critérios.

Já faz parte dela.
Venho aí em alguns livros da região mas isso não é a história da arquitectura. As pessoas têm de ser honestas. Não me podem pedir uma coisa e eu fazer outra. As grandes casas da história da arquitectura, as tais, são os tais arquitectos que conseguiram através daquele objecto demonstrar que foram vanguarda e que ultrapassaram o passado e estabeleceram uma linguagem de futuro. Essas casas nunca foram habitadas. E porquê? Porque eram de tal maneira avançadas para a sua época que as pessoas não as toleraram.

As casas do futuro…?
Exactamente.(risos)

Estamos em fase de eleições autárquicas, as câmaras querem mostrar trabalho e são muitas vezes acusadas de promover a má arquitectura. As autarquias são, de facto, as culpadas dos males da arquitectura?
Acho injusto dizer isso das câmaras. Não que eu as defenda, também as critico mas não é por isso. A arquitectura não é fraca porque as câmaras são fracas. A arquitectura é fraca porque as pessoas que as fazem são fracas. Antes havia uma sabedoria de construção diferente e os engenheiros faziam coisas bem… tal como os pedreiros. Antigamente pedia-se a um pedreiro para fazer a casa e eles tinham o sentido das proporções. Tinham sido educados desde miúdos. As Câmaras só são culpadas por permitir, não são autoras disso.

Não acha que o arquitecto deve ser responsabilizado quando faz uma má obra?
Acho. E é. A nova legislação é muito dura em relação a isso.

De que forma?
Isso é muito subjectivo. O que se pode fazer é encontrar os dados objectivos e dizer “esta obra ficou caríssima” e ele é responsável por isso, deve ser penalizado.

Mas é punido?
Na prática ainda não vi nenhum, mas a legislação também é muito recente. Mas pode vir a acontecer. Há indicações que já mudaram. Não é por acaso que metade do BPN já está detido. E esta ninguém sonhava há uns anos. Ainda por cima ministro ou ex-ministro. Qualquer dia arquitectos famosos também começam a ouvir “O senhor tem que dar explicações sobre este assunto”.

Não teme?
Temo. Porque ninguém é perfeito. Tento no meu dia-a-dia cumprir, mas também sei não cumprir quando a lei é estúpida. E sei que tenho obras em que não cumpri exactamente por isso.

Portugal tem excelentes arquitectos.
Tem, tem. E isso eu vejo, e não é por ser patriota. Vejo com regozijo, nas imensas solicitações, nos encontros da arquitectura portuguesa. A do passado que era boa, conheço, os colegas da minha geração, que também são bons; e o que faz ficar admirado e orgulhosíssimo é ver uma nova geração brilhante. Quer no Porto quer em Lisboa porque antigamente dizia-se “ah, a Escola do Porto, e tal, é melhor e em Lisboa não é assim”. Mas neste momento…

Sente-se pertencente a essa escola do Porto?
Eu não. Dizem, mas nunca ninguém me explicou o que é a escola do Porto e eu não sei. Dizem que é o Távora, o Siza, o Souto Moura e mais não sei o quê. Sei que o Távora foi meu professor e eu gostava muito dele. O Siza trabalhei com ele, fizemos trabalhos em conjunto, admiro-o muito. É evidente que se me perguntar se há variantes – não digo características – entre o que se faz em Lisboa ou o que se faz no Porto, diria que são diferentes. Há uma identidade na arquitectura que se faz no Porto, a boa e a má, que é diferente da de Lisboa. Ainda hoje fui ao Seixal, e vi um tipo de arquitectura que era incapaz de existir no Porto. Toda efusiva. Era uma arquitectura pobre que tenta esconder a sua pobreza através de elementos festivos. Faz arcos, faz triângulos, faz frontões. Verde alface, cor de laranja, como se isso pudesse compensar a mediocridade do objecto. No Porto é de outra maneira. Há os emigrantes, há aquilo tudo e tal. Agora perguntarem-me o que é a escola do Porto, não sei. Alguém sabe, os outros devem saber e, se calhar, daqui a uns anos, a mais distância histórica…Mas fala-se tanto que realmente alguma coisa há-de haver. As pessoas falam muito dela e têm essa percepção. Não a tenho nem me interessa nada.

Vive na casa dos seus sonhos?
Vivo numa casa minha encomendada por uma arquitecta. Ela não pôde ficar nela por motivos familiares e perguntou-me se eu queria a casa. Não é fácil. Uma coisa é no papel e a outra…

Entrou numa obra sua e ficou.
Fiquei. Não é fácil. Mas uma coisa é decidir no papel com os tais critérios museológicos, da boa arquitectura, da história e das coisas e depois é almoçar e cozinhar e dizer , por exemplo, “Este armário não devia estar aqui…”

Já lhe encontrou esses defeitos?
Já. Muitas virtudes, tem coisas muito agradáveis e tem defeitos.

Gosta de cozinhar? Já o ouvi falar várias vezes em cozinha.
Gosto mas não cozinho. Tenho pouco tempo. Acho graça mas não sou gastrónomo. Aos domingos costumamos comer fora mas às vezes estou cansado e não me apetece ir para os restaurantes, têm muito barulho. O Porto ganha sempre e os restaurantes estão sempre cheios de festa. À vezes estou cansado e tenho um grupo de amigos que juntamos para jantar aos domingos. Então, nessas alturas, faço alguma coisa, mas o mais simples do mundo. Uma massa ou assim porque não passo disso.

Os domingos são os seus dias de fazer desenhos.
É. Não quer dizer que eu trabalhe sempre. Consigo encontrar intervalos de relaxamento e de fazer o que eu quero e gosto. Estar com amigos, viajar, ir a livrarias, ler, ouvir música…O que não faço é seguir esse calendário católico, ao domingo vai-se à missa, e tal. O que faço é assim: “Hoje estou estoirado e vou ficar em casa a fazer isto que me apetece.” E pronto. Gosto de trabalhar e aos domingos por um certo sossego. Não é para dizer que é só aos domingos que tenho tempo. Não. De manhã vou muitas vezes ao ‘atelier’ e depois trabalho em casa, sossegado. E a explicação de trabalhar aos domingos é só pelo sossego. Não há pessoas, não há telefones e a pessoa está mais descontraída.

Não é conservador, como o seu pai.
Estou a ficar mais. Uma coisa é ser reaccionário. Consegui perceber a diferença entre ser reaccionário e ser conservador. Ser reaccionário é ser contra qualquer inovação; ser conservador é querer defender valores antigos. Acho que o meu pai não era reaccionário. Há muitas coisas antigas que devem ser mantidas.

Mas na política tem tido uma posição mais liberal.
A palavra liberal na política, não gosto muito.

Qual é a palavra que prefere?
A esquerda não me diz muito e acredito na social-democracia. Mas a sério, e não a social-democracia tal como é entendida em Portugal. Conheço bastante bem os países do norte da Europa e acho que são os países politicamente, mais equilibrados. O problema da educação, da saúde. Há serviços fundamentais da dignidade das pessoas, acima de qualquer preço e isso encontra-se ou em sociedades socialistas ou em sociedades social-democratas. E quando digo socialistas pode ser perigoso porque há sociedades socialistas que falharam. E social-democratas também pode ser entendido como uma ligação ao Partido Social Democrata que acho que é o Partido liberal e não Social-democrata.

Tem dificuldade em escolher na hora de votar?
Imenso. Não lhe digo que não vou votar mas fico sempre…

Vai votar?
Vou sempre. Nunca falhei. Nem uma vez. E sabe porquê? Porque me irritam as pessoas que me dizem: “Tu ainda votas?” E então, no dia-a-dia as pessoas dizem sempre muito mal de tudo. É um bocado como a arquitectura. “Porque é que fazes ainda?” Faço porque acho que isto não está bem. E depois pensar nos prós e nos contras. Acho que há sempre um mal menor. Antes do 25 de Abril pertenci a essas associações de estudantes, em Belas-Artes, e deu tanto trabalho, sofreu-se tanto, morreu tanta gente, principalmente no Partido Comunista, para depois se ter a hipótese de decidir, de votar, e agora as pessoas vão para a praia?! Quer dizer, não…há um mínimo de respeito pelas pessoas que contribuíram para isso.

Os arquitectos são muitas vezes usados politicamente.
Foi sempre assim. Os reis e os papas faziam isso quando estavam no poder. E quando queriam manifestá-lo faziam obras de arquitectura ou de pintura ou de escultura.

Já se sentiu usado?
Pouco. Porque percebo e meto a embraiagem a meio. E o carro na altura nunca vai abaixo. Há essa intenção. Quando se chega à época das eleições é um reboliço. Mas que realmente somos instrumentos, somos. Acho é que é preciso ter cuidado. Há arquitectos que se identificam com partidos políticos e fazem abaixo-assinados. Pertencem mesmo. Eu nunca fiz isso porque acho que são duas coisas diferentes.

Qual é o trabalho com que se está a entusiasmar mais neste momento?
O trabalho com que estou mais preocupado e que queria acabar é o museu da Paula Rego, em Cascais e que está quase, quase. É o que está mais fresco, ainda o estou a tirar do forno e vamos lá ver. A Paula Rego é muito diferente de tudo o que fiz até hoje. É um edifício todo vermelho. Depois é talvez o único edifício público feito no sul. Fiz umas casas no Algarve e aqui em Lisboa mas obra pública não tinha. É um edifício que tem algum impacto. Depois, fui escolhido pela Paula Rego, uma responsabilidade enorme. Ainda não está pronto porque ela ainda não o viu e estou inquieto. Já me escreveu uma carta muito simpática a dizer que gostava muito, mas uma coisa é escrever e outra coisa é ver. É difícil apreender um artista. Já as pessoas normais, sabe Deus, quanto mais os artistas…

Os artistas não são pessoas normais.
Os artistas são pessoas diferentes.

É um artista?
Não, eu sou uma pessoa normal. A palavra artista tem uma conotação quando se considera “aquele” tipo é um artista”. Sou metade, metade. A arquitectura precisa desses dois lados. O pintor faz o que quer. Ninguém lhe pede para “pinta-me assim ou assado”. Os arquitectos têm aquelas regras.

A sua equipa quantas pessoas tem?
Neste momento nem sei bem e é melhor não saber. Mas acho que tenho vinte e cinco no Porto, e aqui, dez, por aí, não sei. Estou a fazer uma série de hospitais e os hospitais são trabalhos muito densos. Já agora aproveito para dizer que não são muito bem programados porque dão muito pouco tempo para o projecto. E são projectos de grandes investimentos e de grandes áreas. O hospital de Todos os Santos, a que eu concorri, tem 220 mil metros quadrados de área e tem muito poucos meses para fazer o projecto e depois a avaliação são, não sei se seis meses. Acho que devia ser ao contrário. Trabalhei doze anos no metro do Porto, isto tem de ser assim, não pode ser para ali nem para acolá. Está estudado. As linhas, as alturas, as distâncias. Isso enquadra muito bem na arquitectura. A arquitectura não é isso mas sente-se aconchegada, sente-se mais segura. Não é aquela arbitrariedade artística, “o que é que vou fazer…”.

Essa grandiosidade contrasta com aquilo que o aflige tanto, que é o pormenor.
É ao contrário. A questão é: “Como é que simplificamos?” Mas há um texto de um filósofo, que diz que quando a realidade recusa a simplicidade temos de nos virar para a complexidade. Quando a coisa é muito complicada temos de fazer simples. Tenho de fazer esse esforço e esse trabalho de racionalização. E isso gosto.

É obcecado pelo pormenor?
Gosto de pormenor. Não digo que seja condição suficiente fazer um bom pormenor para que a obra fique bem, mas é condição necessária. Não há hipótese na gastronomia, na roupa… Quando se vê alta costura, um vestido vermelho, um vestido preto… há seis milhões de vestidos vermelhos. A bainha, o cair, a manga e não sei quê, têm um pormenor que o faz diferente. Na gastronomia há trezentas maneiras de fazer ‘risotto’, em todas as esquinas há ‘risotto’ por exemplo, mas há um pormenor. Se ele estiver seis horas a mexer lentamente, em lume brando, a deitar-lhe pontualmente um bocadinho de vinho e não sei quê, ele sai melhor. São pequenos detalhes que fazem com que a obra chegue aí. E é uma maneira de se distinguir. A globalização está a radicalizar-se e o futuro é que a arquitectura seja cada vez mais ‘low cost’ como os aviões. Vão acabar as companhias e vai ficar tudo ‘low cost’. E as casas vão ficar ‘low cost’. Não se pode fazer uma casa durante cinco anos. Não há dinheiro que pague ao arquitecto. É como os sapatos. Toda a gente anda de sapatilhas: são todas iguais e custam o mesmo. Quem quiser uns sapatos vai à Hermès e compra sapatos cozidos à mão e paga brutalidades. E na arquitectura vai acontecer um bocado isso. Neste momento as pessoas têm opções. Mas se formos a ver, os preços para se conseguir aquilo… As pessoas querem mais rápido, mais barato, até que vamos acabar na casa Nike, Adidas ou Reebock. Não há outro tipo de solução.

Quem quiser uma casa diferente vai ao Souto Moura .
Não. Vai à Old Church Street e compra sapatos cozidos à mão.

in Semanário Económico, 01/08/2009
Isabel Lucas

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