O guardanapo

Uma dobra e outra. Um vinco e nada. Havia o guardanapo vazio mas não havia angústia.
Isso era o bom do guardanapo de papel. Não foi feito para se encher de letras ou números, mas invariavelmente acabava por ficar preenchido por gatafunhos, projectos, contas, frases apanhadas em momentos de espera ou em boa companhia. Um cúmplice. O bom do guardanapo de papel era essa falta de compromisso e o estar mesmo ali à mão, ou melhor, mesmo ali à mesa e a mesa ser outra coisa boa.
Talvez por isso goste tanto de escrever e de ler em guardanapos de papel. As letras andam às voltas a aproveitar todo o espaço em branco para uma criatividade desprevenida. A escrita enterra-se, fofa, no papel. Ele amortece os erros e trava pressas.
Nada como um guardanapo branco para encher de azul. Acho que o azul fica ali melhor do que qualquer outra cor, talvez por me ter iniciado na escrita de guardanapos com uma caneta Bic azul. Ah!, E de escrita fina. Ali não há a vergonha de falhar. Força a mais e lá vai rasgão. Não faz mal. Bon-vivant, ele presta-se a experimentalismos e tanto guarda palavras como manchas de batom e de vinho e tudo sem censuras.
Não deve ser à toa o facto de tudo começar por aí, “guarda”. Também guarda lágrimas, mata borrões de esperas e de despedidas porque elas acontecem muito à mesa e depois guardam-se no bolso e levam-se para casa.

Eu devia estar a escrever estas coisas soltas num guardanapo de papel.

Não lembra a ninguém escrever em linho ou noutros tecidos menores. Esses lavam-se. O papel não, e ele atura bem o erro. Embora aí errar no papel do guardanapo. Errados ou errantes ou as duas coisas, o efeito é menos literário e mais visual e uma letra é como um desenho e um desenho passa a ter outra dimensão. Afunda-se num decalque e quantos decalques de declarações de amor de liceu em guardanapos perdidos lá por casa quando um a mesa de café era o sítio mais íntimo que se arranjava. Não estava lá nenhum “amo-te” mas era claro que aquele boneco com capacete e cara de poucos amigos com uma espingarda na mão só podia querer dizer isso. Senão para quê tanto trabalho empregue num guardanapo atirado à mesa, mesmo à mão de quem está em frente? E há pedaços de poemas e até cábulas. Ele guarda.
E tudo seria diferente se isto, esta página de jornal, fosse um guardanapo de papel. Agora talvez escrevesse: “Hoje morreu Jorge Semprún” e desenhava o nome do livro dele que li não como o de um activista político, mas como o de um grande romancista, escritor. “Vinte e um anos e um dia.” Punha lá isso como quem faz um registo. E seria para guardar esse guardanapo. Teria a data de hoje, claro. Oito de Junho de 2011. É sempre de fixar o dia em que morre um escritor que quase de certeza também escreveu coisas em guardanapos, ao descaso. Fosse eu de guardar frases na memória e agora guardaria uma dele no guardanapo para solenizar o momento.

Não sou e não se vai consultar livros para escrever em guardanapos. Ou bem que é espontâneo ou não é para guardanapos. Não tenho aqui nenhum guardanapo à mão, à mesa. Mas ao contrário de frases, guardo guardanapos na memória e há um que tem um boneco com capacete e cara de mau e o azul um pouco desbotado.

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