E se a morte deixasse de matar?

A interrogação foi do próprio José Saramago, a propósito do livro “As Intermitências da Morte”. Uma ideia. Porque nele os romances nasciam assim.

Primeiro era a ideia. Esta foi a que o lançou num livro que está longe de ser um dos seus melhores e que é uma interrogação à vida. Isso foi em 2005. Numa entrevista em que dizia: “Eu sou um velho.” Tinha 83 anos. A voz ainda não lhe tremia, mãos cruzadas sobre a mesa, porte altivo, sorriso nada fácil. “A morte do outro é lógica e natural e necessária. A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam. Ele que não pensava que a morte lhe pudesse chegar quase por carta, como no livro, a avisar. “Partida tremenda”, essa, a da vida, considerava a propósito da sua tal ficção. O facto é que a José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998, a morte fez-se anunciar, provocadora e ele resistiu-lhe durante anos, até ontem, ao meio-dia e meia.
Morreu, vítima de uma “múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença”, na casa onde vivia, na ilha de Lanzarote. A morte aconteceu-lhe bem longe da aldeia onde nasceu, em 1922, na Azinhaga do Ribatejo, a aldeia que há dois anos se vestiu de festa para celebrar o seu mais famoso habitante. O neto do Jerónimo e da Josefa, ex-operário, militante comunista, homem que esteve ligado ao PREC à frente de um jornal e que se tornou escritor de nome e de vendas. Ele voltava Nobel quando a água do Alviela, ali ao lado, estava a subir e à porta das tabernas os homens comentavam o rio e o escritor. A cheia estava por pouco. O escritor estava a minutos. E já se assavam porcos e se preparavam churrascos e a banda filarmónica afinava as últimas notas para uma romaria ensaiada.
Nunca a Azinhaga foi tão falada, fotografada, filmada. Ele chegou atrasado meia hora e as pessoas, quase todas com laços familiares, impacientes. “Não esperava tanta gente. Creio que a Azinhaga está toda aqui”, comentou à chegada. E estava. Mais os que vieram de Lisboa e das aldeias à volta para ver Saramago apresentar o seu livro de memórias a que chamou “Pequenas Memórias” e onde a Azinhaga tinha ares de protagonista.

A doença já se comentava, mas era um assunto silenciado. O escritor iria recuperar. Mas a debilidade física já lá estava e ele disfarçava. Atravessou a aldeia de braço dado com Pilar del Rio, a quem culpou pela “conspiração”. Irónico. Olhos brilhantes de uma vaidade pródiga. Ele que teve o primeiro sucesso literário aos 54 anos e que voltava trinta anos depois, já Nobel.
E discursou como o povo quis e disse o que o povo quis: “Entre todas as boas surpresas que tenho tido na minha vida, talvez a principal tenha sido esta.” E terminou a citar uma memória dita emocionada e para emocionar. “Sou avô, mas continuo o neto do Jerónimo e de Josefa.” E disse ainda que devia ter cultivado mais essa terra, antes de terminar a dizer: “ Não vos digo adeus,digo-vos até à vista.”

E voltou em grande com um livro aplaudido que pensou que não iria terminar. “A Viagem do Elefante”. Um romance interrompido por um internamento que quase lhe tirou a vida. Essa experiência, garantiu, não o influenciou em nada na escrita. Prosseguiu. Aderiu à Internet, criou um blogue e uma fundação com o seu nome nas instalações da sua editora de sempre, a Caminho. Mandava recados por aí. Sempre gostou de falar ao mundo este escritor que nunca deixou de opinar sobre política, economia, que defendeu a Ibéria e que vivia dividido entre Portugal e Espanha, casado com uma ex-jornalista que se tornaria sua tradutora para castelhano e que parecia a sua sombra. Saramago e Pilar. Inseparáveis.

Mas foi em Outubro. A voz saia-lhe frágil, o discurso ágil, directo, desafiador como sempre. Tinha dado uma conferência de imprensa para explicar uma alegada ofensa à Igreja. “A Bíblia é um livro de maus costumes.” Ele afirmou e toda a imprensa replicou, ainda não se conhecia o conteúdo de “Caim”, o seu último romance, o livro que lhe merecera este comentário em tempos den promoção e que fez lembrar uma polémica antiga, quando um ex-secretário de Estado da Cultura que só ficou para a história por isso,Sousa Lara,lhecensurou“O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Cavaco Silva era primeiro-ministro e Saramago nunca lhe perdoou a não existência de um pedido de desculpas.

Mas foi em Outubro, altura em que fez 87 anos. Depois da conferência, eu e ele numa sala cheia de cadeiras vazias e o escritor a explicar que a dimensão da polémica à volta da frase era pura ingenuidade e afirmando ainda que o Deus do Antigo Testamento era um Deus “injusto e não de fiar”. Lá estava ele, desafiador, sem medo de aumentar o bruá. A debilidade era apenas física e o cansaço que revelava ao princípio foi-se dissipando ao longo de uma conversa que não chegou a durar meia hora. Pilar de Rio, vestida de verde alface, diz-lhe “cariño, anda que estás fatigado”.Saramago limitou-se a desviar o pescoço em direcção à mulher e a dizer: “Mas ainda não acabámos.” Acabámos. Pilar insistiu. Saramago obedeceu a contragosto, rosto fechado, olhar vivo.

A última vez que o vi. Em Outubro.

Por Isabel Lucas 19 junho 2010
in Diário Económico/suplemento Outlook 82

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