O caminhante

Ajoelhado no alcatrão, encostava o ouvido à terra e procurava companhia. Dizia que o chão não mentia e se ele dizia que vinha aí um carro é porque esse carro viria e o resgatava a uma solidão que queria apenas com algumas interrupções. Esse carro poderia trazer comida, água, dois dedos de conversa, uma boleia mais para o alento do que para as pernas que, essas, queria-as a caminhar. O velho caminheiro fazia anos que caminhava e era observado pelos retrovisores como no dia em que o vi, ao longe, a afastar-se na colina, quando a estrada se afunilava e ele parecia levitar no calor do asfalto, cada vez mais pequeno, cada vez mais indefinido nos contornos, boina na cabeça, numa moldura de cores de fim de tarde de verão, quentes, esbatidas, mais óleo do que aguarela, de um impressionismo que ganhava vida num acenar de até sabe-se lá quando, sabe-se lá onde. E ele caminhava. Ia a Fátima pagar promessas. Ele tinha tantas. As dele e as dos outros que lhe pagavam para ele pagar e não era preciso pagar muito. Só “ficada e comida” que o gozo de caminhar era dele. E não era preciso haver um dia 13, nem para sorte nem outra coisa. Ele pagava promessas porque gostava de caminhar, fazendo desse andar, desse pé após pé, um equilíbrio difícil e era esse o desafio. Como na barra, caminhava sem rede para as lágrimas da solidão, para as feridas nos pés e dores nas pernas. Ele que gostava de conversa mas precisava daquele silêncio em trânsito. Só assim o suportava, um silêncio a ver passar, e quando havia muito tempo sem rostos, nem rodas, ele punha-se a escutar o alcatrão. Era assim também quando todas as manhãs, saca de serapilheira às costas com quase nada dentro porque isso era tudo o que precisava, saía de casa deixando a mulher cega a tratar-lhe da vida, e subia a ladeira que ia da aldeia ao casal, uns quilómetros adiante. Ia à horta e ia a andar. Um pé depois do outro e muitas conversas pelo caminho. Baltazar, o caminhante, ia a Fátima ou à horta com a atitude religiosa de quem paga promessas e fazia amigos pelo caminho. Também ia a Santa Luzia levar garrafas de azeite à santa para o milagre dos olhos da mulher. E ia a andar. Uma manhã para lá, uma tarde para cá e o mesmo silêncio quebrado por conversas de caminheiro. Um leva e traz de histórias que não havia saca que carregasse e ai de quem falasse em sacrifício. “Faz-se bem. Não me faltem as pernas.” E fez-se sempre bem, e todos respondiam ao seu acenar até que as pernas lhe faltaram e Baltazar deixou de caminhar. Agora, do seu poiso de silêncio, vê outros caminhantes caminhar. Acena-lhes e diz-lhes para, de caminho, darem ouvidos ao chão.

Publicado no suplemento Outlook do DE, a 17 de Junho de 2011

 

One response to “O caminhante

  1. crónicas fantásticas…
    estou mesmo rendido á tua escrita, Isabel.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s