Monthly Archives: July 2011

Agosto está aí

Em agosto comecei a andar, em agosto vi pela primeira vez o mar e a nao houve grão de areia que não trincasse; em agosto soube o que era o som do amolador e as rodas das carroças de hortaliças a chegar à praca; em agosto comprei o meu primeiro livro com o meu primeiro dinheiro e não dei o meu primeiro beijo porque em agosto eu não tinha namorado; em agosto fiquei na rua, no degrau à noite, porque o meu pai confundiu a campainha com o despertador; em agosto comi caracois e carangueijos e tremoços com pevides; foi em agosto que andei numa bicicleta com duas rodinhas a ajudar as outras e nao houve agosto que me fizesse andar de bicicleta de outra maneira; em agosto a minha mãe usava óculos de sol do tamanho da cara dela e o meu pai ria do ridículo que achava aquilo que eu um dia queria imitar; em agosto eu andei com uns óculos do tamanho da minha cara e o meu pai nao se riu porque acho que estava distraído; ainda em agosto vi que a melhor vista do mundo pertencia a uma vaca num prado em s. Miguel, a vaca! Em agosto aprendi a fazer malas e nunca soube como as desfazer; em agosto vesti me de noiva e parti o salto do sapato tornado me uma noiva coxa que foi brincar ao carnaval de verão; em agosto fiz piqueniques com formigas a picar a língua, em agosto vi o que nunca pude ver antes, falei com quem nunca imaginei falar, chorei e ri, andei pelo país feita repórter num carro azul que perdeu a cor e soube quer podia ser marinheiro porque não enjooei num barco onde chegaram percebes e a notícia de um nascimento. Foi no mar. Em agosto amei, em agosto tive raiva e esqueci tudo. Em Agosto a minha avó caiu para nunca mais se levantar; em agosto cantei cantigas de embalar onde havia uma herói e uma menina que sabia falar inglês. Em agosto corri para ver o que nunca ninha visto; em agosto uma amiga muito amiga ia ter um bebé e teve, e eu, graças a ela, aprendi um dos  incondicionais do verbo amar; em agosto surgiu a Maria e agosto ha-de ser sempre dela. É quase quase agosto, Maria

conversa de biberon

– o que queres ser quando fores grande?

– bombeira e pescadora

– eu quero ser presidente da república ou costureira

first steps

o caminho do moinho

Uma casa

Queria aquela casa onde cheirava a mar misturado com o barro das telhas e onde sol entrava filtrado pelo vidro do telhado e que dourava tudo.
O leite fervia num fogão de dois bicos. Vinha fresco, em pacotes moles, de plástico, que eu gostava de apertar até sentir que quase rebentavam.
Eu agora queria aquela casa numas águas furtadas num terceiro andar sem elevador e com um terraço onde me inclinava para ver quem passava em baixo. E às vezes dava para dizer adeus.
Bom era aos domingos, quando as camionetas de carreira chegavam cheias de gente com cabazes de comida e eu contava-as a ver se naquele domingo se batiam recordes.
Depois apressava-me para dentro não fosse o leite entornar.
Não me lembro onde poderia estar a minha mãe.
Acho que eu ficava de guardiã ao leite por gostar de ficar a olhar para a sua fervura, meio hipnotizada com aquele crescer, a nata a formar-se e de repente uma espuma que tentava sempre apanhar-me distraída. Como eu gostava de ganhar à avalancha branca. Lembro o cheiro, meio a natas queimadas que se misturava ao resto dos cheiros que tornavam a casa casa. Que é feito dela? Às vezes vejo-a, por fora.
Era o lugar do Verão, onde todos cabiam. E eu gostava daquela gente que entrava e saia, como em festa. Queria aquela casa agora, como ela era então.