Uma casa

Queria aquela casa onde cheirava a mar misturado com o barro das telhas e onde sol entrava filtrado pelo vidro do telhado e que dourava tudo.
O leite fervia num fogão de dois bicos. Vinha fresco, em pacotes moles, de plástico, que eu gostava de apertar até sentir que quase rebentavam.
Eu agora queria aquela casa numas águas furtadas num terceiro andar sem elevador e com um terraço onde me inclinava para ver quem passava em baixo. E às vezes dava para dizer adeus.
Bom era aos domingos, quando as camionetas de carreira chegavam cheias de gente com cabazes de comida e eu contava-as a ver se naquele domingo se batiam recordes.
Depois apressava-me para dentro não fosse o leite entornar.
Não me lembro onde poderia estar a minha mãe.
Acho que eu ficava de guardiã ao leite por gostar de ficar a olhar para a sua fervura, meio hipnotizada com aquele crescer, a nata a formar-se e de repente uma espuma que tentava sempre apanhar-me distraída. Como eu gostava de ganhar à avalancha branca. Lembro o cheiro, meio a natas queimadas que se misturava ao resto dos cheiros que tornavam a casa casa. Que é feito dela? Às vezes vejo-a, por fora.
Era o lugar do Verão, onde todos cabiam. E eu gostava daquela gente que entrava e saia, como em festa. Queria aquela casa agora, como ela era então.

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