Monthly Archives: August 2011

Grossman depois da morte de Uri

Descobri-o com “Ver: Amor”, romance magnífico, onde um menino, Momik,  filho de judeus sobreviventes à II Guerra Mundial, tenta perceber o que viveram os seus familiares através das conversas que ouve, dos silêncios mais ou menos pesados que escuta, das coisas nunca ditas. Estamos na década de 50 e ele vai construindo a sua identidade num mundo cheio de contradições. Lembro que comecei esse livro num dia de Agosto e acho que a partir daí apanhei tudo que pude desse escritor grande chamado David Grossman. Quando escrevia o sétimo romance, este israelita que, a par de Amos Oz, por exemplo, é um dos grandes biógrafos do seu país através das ficções, recebeu a mais atroz das notícias: o seu filho, o soldado Uri, morrera em combate. A “Lire” de Setembro entrevistou o escritor na sua casa de Mevasserat Zion, Jerusalém, a propósito da edição deste romance em França. Nela, Grossman confessa que fez algumas alterações à história que aqui conta, também ela dolorosa, também ela de vida e morte.”…j’ai continué à écrire pendant un an et demi après ce qui se passé. Et à chaque foi que j’écris une nouvelle version – j’en écris une nouvelle version — e change, je change. Il ne s’agit pas de copier/coller sur le ordinateur. Je réécris entièrement. Chaque mot. J’y gagne la sensation de comprendre soudainement chaque scène ou chaque personnage sous un nouvel angle…” Quem conhece a escrita de Grossman, a sua atenção a todos os aspectos humanos, sabe que não podia ser diferente. O livro chama-se “A Mulher que Foge”, já está disponível em português desde 2009… no Brasil, pela Companhia das Letras. Quem já teve o privilégio de o ler entende bem esta conversa onde o escritor fala da escrita como salvação da própria vida. Quem ainda não leu o livro, que comece já agora pela entrevista.

Namoro

“Costumas contar aos teus namorados que tens herpes?”
Estavam em frente um do outro. Ele e ela fumavam cada um um cigarro tirado do mesmo maço, em cima da mesa.
Ele de óculos escuros e T-shirt amarela. Ela de óculos um pouco menos escuros e um top castanho que revelava dias e dias de sol e praia.
A pergunta foi feita assim, directa. A resposta veio do mesmo modo, sem  demonstrar o mínimo incómodo, mal-estar ou outros desconcertos.
“Claro que digo, tás parvo!” Ele pareceu esclarecido e calou-se enquanto a ouvia explicar a sintomatologia e os meios de propagação daquele “vírus”, dizia ela, que já a mãe tinha, e muitas das suas amigas e que não era assim tão mau, apenas chato e “dava bué mau aspecto”. Não era sem orgulho que afirmava nunca ter contagiado ninguém. Ele ouvia.
Um e outro, ele e ela, estavam de férias à espera que a universidade revelasse o seu grau de clausura para que um e outro, ele e ela, ficassem a saber se este seria um ano diferente. Ja era, de facto.
Falavam de uma nova fase nas suas vidas. Tinham vindo de férias. Ela, sempre a gesticular, contava da dificuldade do pai em fazer caber a prancha de surf no carro.
Ele mostrava-lhe moedas. “Quanto vale?”, perguntava ela. “5oo rupias são aí uns dez cêntimos. Guarda como recordação.” Ela virava a moeda na mão. “Ih, ih, ih, estou rica. Sabes que agora tenho a mania de rir assim, ih, ih, ih. Até escrevo nas mensagens. Estou farta do lol. Ih, ih, ih. E ele já ia noutras conversas.
Contava que estava no aeroporto a ouvir a histeria sobre o Irene. “Não me f……, aquilo foi bullshit.” Ela acendia outro cigarro e, revelando o azul claro das unhas, replicava que tinha tido alguma  gravidade, afinal morreram pessoas e sabes que lá “as casas deles são feitas de madeira ou lá o que é; não são como as nossas, de cimento e tijolo.” Ele não se deixou comover com o abalo. Nem com o dela nem com o da Irene que afinal nem foi uma tempestade mas um furacão; não foi uma ela, mas um ele mariquinhas, até que ela, a rapariga em frente, se queixou do sol que queimava naquela esplanada à beira-rio e pediu para mudarem de mesa.

À sombra, ela sentou-se ao lado dele. Pôs-lhe a mão na perna, por debaixo da mesa; com outro cigarro na mão, assegurou-lhe que o herpes só era contagioso numa determinada fase e não deixando que se fizesse algum silêncio constrangedor, começou a beijá-lo, primeiro na orelha e segundos depois já estava na boca. Ele não negou o beijo e também não deixou que houvesse silêncio.

Agora era o telemóvel dela que tinha desaparecido. Sim “aquele vermelho, o último que saiu.
Mais um beijo, mais um cigarro, mais conversa até que ela: “e se fossemos pagar e dar uma volta?” Ele não pareceu perceber à primeira aquela retórica, mas momentos depois já a acompanhava ao balcão, pagaram e ela seguiu à frente dele, a rolar a rupia na mão.

o canto do mundo

Na jarra, flores de plástico amareleciam e a televisão estava coberta com um daqueles filtros que azulava qualquer imagem. Diziam que era para proteger os olhos de quem passava muito tempo a olhar o ecrã. Ela acreditava nisso e deixava-se recostar no sofá de napa que fazia barulho cada vez que ajeitava nele o corpo pesado.

A máquina de costura, ao lado, há muito que não tinha pés nos pedais. Só os das netas num equilibrismo pouco costureiro.
E a luz entrava pela janela de cortinas brancas, arredadas para melhor deixar entrar a luz do jardim que dava para o poço.
Levantava-se para aquecer a sopa, fazer o café ou quando uma vizinha chamava, da porta sempre aberta. Tirando isso, só desviava a atenção do aparelho colocado num dos cantos da sala para enxotar uma mosca ou quando o sono a vencia. Dizia que aquilo lhe trouxera o mundo a casa. Pena que só depois de velha, lamentava-se enquanto limpava as lentes dos óculos à bata que trazia sempre vestida por cima de uma saia e de uma blusa sem história.

Ela não sabia ler e por isso não havia nem um livro lá em casa. Era o seu maior desgosto. Nas prateleiras, cristais velhos cristalizava-se. Nas mesas, molduras de quando era nova ou dos novos que eram cada vez mais. O pai não a deixara aprender porque não a queria na “macholice”, dizia sempre como que para justificar uma ignorância de que se envergonhava mas da qual não se sentia culpada. Eram outros tempos, adiantava. Mas garantia que entendia tudo de um filme “estrangeiro”. Não precisava das legendas para nada. Não acreditam? Então que lhe peçam para contar a história do último que viu! Nunca lhe pediram, mas mesmo assim ela contava a quem se sentava ao lado para dois dedos de conversa. Este era sobre um rapaz que perdeu os pais e foi correr mundo à procura de fortuna. Encontrou uma rapariga rica, mas a família dela não o aceitou. Ela fugiu com ele, a pobre, e agora está a saber o que custa a vida.” Para ela as histórias não acabavam quando as letras “The End” surgiam no ecrã. Ela sabia o que queriam dizer tantas vezes as vira, mas depois continuava a pensar nas personagens que conhecera. “Que seria delas agora?” Calhava a ser uma neta a ouvir isto e encolhia os ombros não se atrevendo a questionar a avó. Elas sabiam que era assim, que não valia a pena cortar a fantasia àquela mulher. Era a ela que recorriam sempre que se queriam refugiar do mundo real.

A avó sabia dar a ficção necessária para que a realidade fizesse sentido, e tudo sem nunca ter lido um livro. Às vezes pedia que lhe lessem e punha um ar solene, uma mão a segurar o queixo enquanto o polegar massajava o rosto e o olhar se perdia lá para longe, para o mesmo sítio onde estava a televisão. Era daquele canto que lhe vinha o mundo.

Procura-se

Procuro a casa.

Queria que estivesse agarrada à terra e que quando acordasse de manhã pudesse por os pés na rua sem sair dela.

De preferência com uma cozinha onde se pudessem juntar todos pela manhã, com o cheiro a café e a torradas.

Tinha de ter um fogão grande e um alpendre para as leituras e ver passar.

Pronto, concedo, uma varanda onde pudesse espreguiçar o sono da manhã e com vista para mais que não o vizinho da frente.

Não faz mal se se ouvir um sino. Pode ser na cidade, mas não faz mal se tiver mar à vista. Ou um bosque. Cheiro a jasmim nas noites de verão era bom.

E sítio para o cão correr e para a gata dormir sestas e um baloiço a dar par um poço rodeado de violetas. Ok, exagero talvez. Mas sabia bem ter uma janela grande para as tardes de chuva e uma lareira para aquecer e porque gosto do cheiro a madeira queimada.

Um sótão era bom. Mania de guardar tudo, que se há-de fazer. Já não peço pé direito alto para as estantes. Seria demasiada exigência e também requeria escadotes. Encolhem-se as estantes, curvam-se as costas se for preciso. É o menos.

O facto é que procuro a casa.

Nela tem de caber quem amo ou então não cabe ninguém. Quem souber desta casa que mande dizer.

concerto desafinado

Quatro da tarde. Mais minuto menos minuto, o chão tremia. Ou era o tecto. As paredes eram de certeza.
Começava o concerto no andar de cima, um ensaio desafinado e pontual que salvava da solidão mais absoluta as minhas tardes em Brooklyn.
Nunca soube da cara do tocador de bateria. Sabia que era dono de um daqueles passos que aprendi a distinguir pelo ritmo e peso do pisar, pelo poder de fazer ranger as escadas. E havia os mais e os menos poderosos nesse campo. Por exemplo, a menina do andar de baixo fazia tremer os degraus sem destoar o tremor das velhas paredes e do soalho de madeira da sua cantilena que tanto poderia ser de encantar como servir de banda sonora a um filme de terror, tal a cadência, a repetição melódica e de palavras e até de horário: todos os dias a partir das cinco da tarde e sem pausas ao fim de semana. Não. Ela só se fazia notar.
Em cima não. Era físico, pesado. Bateria para botas de fazer tremer o prédio de um castanho gasto pela neve e pelo sol. Talvez o tocador fosse um daqueles rapazes que encontrava à entrada, com um cão pela trela para o passeio diário.
Mas não. Esse descobri depois que morava ao lado da menina, em baixo, o que fazia bifes para jantar. O aroma a carne frita e alho não enganava ninguém, muito menos a um estrangeiro que sabe o que é o cheiro a bife com batatas fritas ao subir as escadas no fim de um dia de trabalho. Pois, não enganava o bife, como não enganava a toada forte da bateria.
Também não era o que vinha todas as manhãs com pão fresco para o pequeno almoço. Esse nunca subia as escadas. Morava em baixo e punha todos os sapatos à porta, não sei se por excesso de higiene ou falta de espaço no interior.
Também não era a rapariga que empurrava o carrinho de bebé até ao canto mais afastado das escadas antes de as subir com a criança ao colo. Nunca soube onde morava. Uma vez, ia eu a sair com o saco da roupa para a lavandaria, e pediu-me para lhe abrir a porta, que se esquecera da chave da rua. Não me deu para desconfiar, não sei porquê, afinal nunca a vira antes e ela bem podia estar a enganar-me, como me avisara o meu namorado irritado com a minha credulidade lisboeta. Estava ou não estava em Nova Iorque, a cidade onde o crime espreita? Pois, mas havia qualquer coisa na cara dela, talvez o modo expedito como pediu, um pouco envergonhado mas sem desculpas demais ou sequer toques de uma gaguez comprometida. Nada. Directa ao assunto, mas frágil como não podiam ser os braços do tocador de bateria que todas as tardes ensaiava no numero trezentos e tal da Clinton Avenue, mesmo no cruzar com a Washington. Aparecia e desaparecia, pontual.
Passos para cima, um concerto desafinado, passos para baixo e até amanhã.

Nunca me deu para ir espreitar. Nunca quis ver o rosto daquele que produzia ruído para os meus ouvidos mas me fazia querer fazer coisas, também eu, ainda que desafinadas. Ele ensaiava em cima. Eu, em baixo, só queria criar uma qualquer harmonia.

secretária nova

É hoje.
Tenho uma secretária nova e vou desatar a escrever.
Melhor: começar a desatar a escrever.
Estava à espera dela para isso. Sentada no sofá, a passar paginas de um livro, enquanto perdia os olhos na televisão que dava as últimas do coronel libanês.
Foram meses.
Com secretária nova é que era, acabavam-se as desculpas, os momentos mortos, os procrastinanços.
Sem secretária nada acontece.
Eu sabia disso. Precisava dela mais do que de papel e caneta. Seria o princípio.
Nunca mais chega a secretária, pensava eu quando me dava a vontade mas me faltava a inspiração ou vice-versa.

A secretária chegou numa manhã triste. Cinzenta, de más notícias.
Ela era o sinal de que nem tudo é mau e, claro, agora é que haviam de sair coisas boas.
Tentar não custa quando se tem uma secretária em condições.

Lá está. Tampo liso, da cor que escolhi, da madeira que escolhi, grande para poder espalhar nela todos os livros, todos os papéis, todas as coisas úteis e inúteis que servem para escrever, ou não. Seria agora, mais uma mão pelo tampo, como que a testá-la, a domá-la. Não me dome eu a mim… e já estão as canetas e o tapete e a cadeira que era do meu avô e fica ali mesmo a matar. E se não ficar, melhor que fique porque as economias foram para a secretária, ela que tem a capacidade de mudar vidas. Que mude então a minha, que foi para isso que esperei por ela, por esta manhã em que dois rapazes rasparam a parede para a pôr no lugar.

Cá está a secretária nova. Vazia. Olho para ela e para todas as possibilidades e fico presa nisso.
E agora o que falta mesmo é um armário para arrumar as tralhas. E pendurar os quadros e as fotos que vão fazer a diferença. Afinal, uma secretária sozinha não faz milagres, descobri agora, mãos em cima do tampo, janela aberta para a varanda, o sol a entrar no tapete vermelho.

Já tenho uma secretária nova, posso começar. Não posso? Então porque não começo?

De volta a Conrad

Volto a Joseph Conrad e a “Nostromo”, um autor que me faz sempre viajar para os sítios que quero, mesmo quando não são os melhores, e da forma que desejei mas nunca consegui, e a um livro que mais do que todos os outros de Conrad me liga ao mar, o meu elemento desejado. Gostava de ser do mar.

Não sou marinheira, e lembro-me de o meu pai me dizer, na choradeira de fim de férias, que se eu quisesse ficar os doze meses por ano de toda a minha vida ao pé do no mar ou casava com um pescador ou com um homem rico. Passaram-se muitos anos desde esse conselho; não vivo os 12 meses do meu ano junto ao mar, e o homem que melhor consegue essa aproximação continua a ser Joseph Conrad, o escritor que nasceu Józef Teodor Konrad Korzenieowski, em 1857, na Polónia, e que em 1904 publicou este “Nostromo”.

Só o conheci anos depois da famosa tirada paterna que me deixou a pensar, talvez pela primeira vez, no lado interesseiro de concretizar o sonho. Não fosse isso e teria atirado com “Nostromo” para os braços do meu pai.

Conheci-o pouco depois da faculdade, num Verão como tantos outros, cheio de ruído onde encontrava o meu silêncio nas páginas que guardava cheias de grãos de areia. No fim, entretinha-me a abrir página a página a correr com eles, ao sopro ou com as pontas dos dedos, uma sensação semelhante à de cortar as páginas coladas dos livros com as velhas facas. Manias.

Hoje voltei a Nostromo, uma edição nova, limpa de areia e não quis deixar de assinalar este dia.  Agora vou-me a ele. Sem a surpresa da primeira vez, mas com a mesma emoção de quem se senta numa esplanada a sentir a maresia, haja sol, ou uma manta nos joelhos.

“No tempo do domínio espanhol, e ainda por muitos anos, a cidade de Sulaco, cuja beleza luxuriante dos laranjais dá testemunho da sua antiguidade, não passava de uma cidade portuária…” e lá vou eu, por Costaguana, um lugar que só existiu na imaginação de Conrad, na costa ocidental da América Latina, entre a prata da mina de San Tomé e os seus efeitos nas vidas dos que lá moram. Para já, os outros livros que esperem. Apeteceu-me mais deste.