concerto desafinado

Quatro da tarde. Mais minuto menos minuto, o chão tremia. Ou era o tecto. As paredes eram de certeza.
Começava o concerto no andar de cima, um ensaio desafinado e pontual que salvava da solidão mais absoluta as minhas tardes em Brooklyn.
Nunca soube da cara do tocador de bateria. Sabia que era dono de um daqueles passos que aprendi a distinguir pelo ritmo e peso do pisar, pelo poder de fazer ranger as escadas. E havia os mais e os menos poderosos nesse campo. Por exemplo, a menina do andar de baixo fazia tremer os degraus sem destoar o tremor das velhas paredes e do soalho de madeira da sua cantilena que tanto poderia ser de encantar como servir de banda sonora a um filme de terror, tal a cadência, a repetição melódica e de palavras e até de horário: todos os dias a partir das cinco da tarde e sem pausas ao fim de semana. Não. Ela só se fazia notar.
Em cima não. Era físico, pesado. Bateria para botas de fazer tremer o prédio de um castanho gasto pela neve e pelo sol. Talvez o tocador fosse um daqueles rapazes que encontrava à entrada, com um cão pela trela para o passeio diário.
Mas não. Esse descobri depois que morava ao lado da menina, em baixo, o que fazia bifes para jantar. O aroma a carne frita e alho não enganava ninguém, muito menos a um estrangeiro que sabe o que é o cheiro a bife com batatas fritas ao subir as escadas no fim de um dia de trabalho. Pois, não enganava o bife, como não enganava a toada forte da bateria.
Também não era o que vinha todas as manhãs com pão fresco para o pequeno almoço. Esse nunca subia as escadas. Morava em baixo e punha todos os sapatos à porta, não sei se por excesso de higiene ou falta de espaço no interior.
Também não era a rapariga que empurrava o carrinho de bebé até ao canto mais afastado das escadas antes de as subir com a criança ao colo. Nunca soube onde morava. Uma vez, ia eu a sair com o saco da roupa para a lavandaria, e pediu-me para lhe abrir a porta, que se esquecera da chave da rua. Não me deu para desconfiar, não sei porquê, afinal nunca a vira antes e ela bem podia estar a enganar-me, como me avisara o meu namorado irritado com a minha credulidade lisboeta. Estava ou não estava em Nova Iorque, a cidade onde o crime espreita? Pois, mas havia qualquer coisa na cara dela, talvez o modo expedito como pediu, um pouco envergonhado mas sem desculpas demais ou sequer toques de uma gaguez comprometida. Nada. Directa ao assunto, mas frágil como não podiam ser os braços do tocador de bateria que todas as tardes ensaiava no numero trezentos e tal da Clinton Avenue, mesmo no cruzar com a Washington. Aparecia e desaparecia, pontual.
Passos para cima, um concerto desafinado, passos para baixo e até amanhã.

Nunca me deu para ir espreitar. Nunca quis ver o rosto daquele que produzia ruído para os meus ouvidos mas me fazia querer fazer coisas, também eu, ainda que desafinadas. Ele ensaiava em cima. Eu, em baixo, só queria criar uma qualquer harmonia.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s