Monthly Archives: September 2011

O arroz-doce do Micajó

Todas as semanas, às sextas, o forno acendia-se.
Era o dia de amassar pão para pôr na arca e alimentar uma casa de muita gente durante uma semana. Era assim em casa da minha avó, que já fora da avó dela e agora está lá, sem ninguém, portas fechadas, erva a crescer.
Quando passo, lembro os dias em que o forno se acendia mais do que às sextas. Era quando havia festa e havia labaredas naquela pequena nave de tijolos com uma porta que se fechava com um ferrolho onde era “proibido” tocar. Havia sempre muita gente e tractores carregados de cepas velhas das vinhas e as vizinhas colocavam-se em fila ao longo das mesas grandes improvisadas no pátio, mesmo no centro da aldeia. Mesas para moldar ferraduras de massa de manteiga, broas de milho, e para bater o pão-de-ló. Ali sabiam-se as novidades da terra. Era “O jornal”, como ironizava o meu avô, mais dado ao sossego e às poucas falas. Claro que os netos, pequenos, iam todos. Tinham idades em escadinha e eu era a mais velha. Eles só atrapalhavam, mas a minha avó ria com aquele riso inteiro, lenço na cabeça cheio de farinha que eu dizia estar sempre mal atado. Ela respondia que ali não era para se estar bonito e eu caladinha lá moldava a minha ferradura e quando já não havia mais ferraduras para o forno ela fazia arroz doce.
Um tacho enorme, ingredientes medidos a olho que era a medida mais certa. “Sai sempre bem”, dizia. E saia.
Depois era uma taça para cada neto e em cada uma a inicial do nome de cada um. Oito, mais os primos dos primos que apareciam. Os pratos desses ficam sem letras para serem baptizados na hora.
O meu tinha um I, desenhado como se ensinava antes na escola, cheio de curvas, um I desenhado a canela no amarelo do arroz. E enquanto ela ia desenhando as letras eu ia por trás e sublinhava-as com um pouco mais daquele pó castanho que se pegava aos dedos e que eu lambia. “Não ponhas mais canela que faz mal”, ralhava.
Depois da escrita era esperar que arrefecesse. Nós, quietos, a ver se o quente passava para não fazer mal à barriga e eu sempre indecisa, sem saber se o meu I era o J do meu primo. Que querem? As curvas eram parecidas.

Era o Jota de Jorge. A minha avó chamava-o assim porque não sabia dizer o primeiro nome dele. Amílcar. Era preciso dar muitas voltas à língua e ela não estava para isso. Então chamava-lhe Jorge, ou Micajó, quando queria ser mais carinhosa.

E o Micajó nunca a largava. Com os caracóis loiros e uns óculos sempre na ponta do nariz, andava de mão dada com ela para todo o lado. Era o terceiro na escadinha de idades, o que lhe dava aí uns quatro anos. Sempre de calções, sempre curioso, a olhar o mundo com a cabeça de lado, porque assim parecia que os óculos não caiam.
O Micajó chegava com a minha avó a Lisboa e num café do campo Grande pedia-lhe sempre a mesma coisa. “Vó, quero um iogurte.” Tinha sempre a mesma reposta. “O quê filho? A avó não sabe dizer isso.” Ele insistia. Ela ria. E pedia ao balcão : “É um iocurto para o meu Jorge.”

Ah se eu pudesse…

Se eu pudesse entrevistava a autora, como não posso, aqui fica uma das mais recentes.
Os senhores entrevistadores falam um pouco demais para o meu gosto, mas …

Um grande livro, este “Room” que está aí para ler com o título “O Quarto de Jack”, “lets luk ate de traila”

Uma das músicas da minha vida

Já a ouvi triste e já a ouvi alegre, nostálgica, serena, como fundo e sem mais nada. Como vai melhor é mesmo sem acompanhamento, o que não quer dizer sem companhia. Fica bem com o mar, fica bem em viagem, ouve-se como água num dia de chuva. Nunca o ouvi na praia. Nunca consegui que fosse banda sonora de uma leitura. Sempre foi pura, e aparece sempre de improviso como quando Keith Jarrett a gravou em 1975. De longe, de muito longe, alguém me pergunta porque me lembrei dela. Porque é bonita. Porque fica bem com a saudade que sinto, com o silêncio da casa, porque faz parte da minha discoteca mental. Vem, desaparece por uns tempos, mas volta sempre. É uma das músicas da minha vida. É o concerto de Colónia, que às vezes me aborreço de ver tão tocado e ouvido e repetido. Dá raiva. Como um segredo que pensamos só nosso, mas que as comadres já espalharam, No caso que ricas comadres. Um dos discos a solo de piano mais vendidos de sempre. Pois, mas não esquecer que é música gourmet…

Esquecer um café em Manhattan

Eu só queria um café.

De chávena pequena, com uma ligeira espuma por cima. Bebi-o em dois três goles até ficar com aquele amargo na boca por uns bons minutos. E isso seria bom. Mas onde?
E não queria só isso. Queria as cadeiras e as mesas onde pousasse a tralha, abrisse um livro, folheasse o jornal ou olhasse em volta, com a cabeça segura na mão. Mas onde?

Manhãs de arranha-céus são manhãs de sombra ou então de jogo de cabra-cega com o sol que quando aparece encandeia. Era de uma esplanada que eu falava. Como as da Europa, sempre postas. Chuva ou sol.

Naquela manhã de luz a magoar os olhos, fiz disso missão. Um café à europeia. Boa?
Corria seca e meca nesta teimosia. Carregava livros, computador, casaco, encontrões a joggers irritantes com a mania da saúde a inspirar tubos de escape, quando tudo ainda vai baixo, e não me refiro só à luz.
Mais veloz passa um rapaz equilibrado num skate. Não havia T-shirt nem calções.
E eu estanquei no passeio largo, a ser lavado por mexicanos de esfregona na mão. E ele no meio da avenida larga, indiferente e mais rápido do que o trânsito que àquela hora da manhã começava a encher a Lexington. Bip-bip, penso escutar. Passa por mim e por todos os carros. E eu sigo-o, atenção já desviada do café, centrada naquele ponto cada vez mais pequeno e negro que ora se agacha ora levanta como numa prancha de surf, num movimento para cortar o vento, ganhar velocidade até se perder, lá ao fundo. Ia na faixa dele, não o vi parar em semáforos, mas presumo que o tenha feito. Até porque parecia ser um ‘passageiro’ frequente daquele skate numa Manhattan em hora de ponta, fato e gravata, mala a tiracolo. Um executivo sem paciência para o metro e com um copo de café na mão para beber com uma palhinha.

Do que é que eu estava mesmo à procura?

Um caso de polícia

 

Fim de ciclo. Respirar fundo, rumar a Sul, deixar para trás a cidade mesmo que nos digam que o Verão acabou. Who cares? O telemóvel toca e há inversão de marcha. A carteira perdida fora encontrada. Estava numa das esquadras centrais da PSP de Lisboa e só eu a poderia levantar. Pareceu-me sensato. “A qualquer hora do dia ou da noite”, informou o agente Mestre. “Fique descansada, minha senhora, ela daqui não sai.” Fui na hora.

Esquadra com mais agentes do que queixosos. Apenas um casal de espanhóis vítima de fraude com um cartão de crédito. Chegou a minha vez. O mais graduado, à frente do computador, manda-me entrar na espécie de aquário. Pergunta ao que venho. Explico que apenas levantar uma carteira que tinha sido encontrada sabia lá eu onde. “Apenas”, era o que eu pensava. Santa ingenuidade. “Carteira ou mala?”, pergunta o agente. Chamemos-lhe Mota, porque é bom que a personagem tenha um nome e como são sempre apelidos, cá vai de Mota. Não estive para grandes explicações sobre a diferença entre uma carteira e uma mala. O agente abre uma gaveta. Tira vários modelos de pastas, carteiras,  porta-moedas, malas, maletas. Não, nada disso. “Só me arranjam problemas. Quando é que a avisaram?”; “Há pouco”, respondo com uma paciência que fui buscar ao fundo da mala que ainda tinha naquele final de tarde de sexta-feira, quando só me apetecia era abalar. Ir sem olhar para trás. “Ora esta”. Só visto. Arranjam-me cada uma”, continuava o graduado numa busca que foi dar a um envelope branco com o meu nome escrito em letras que desafiavam as maiores dioptrias. “Não deve ser isto. O que é isto?”: A minha carteira”. Abre então o envelope como mesmo cuidado de quem desactiva uma bomba e pergunta sobre a origem de cada papel, factura, cartão, de cada objecto. Dou por mim a decidir se me vou irritar. Opto por puxar uma cadeira. A conversa ia ser longa e eu estava há muito tempo de pé. Percebi isso ao olhar para o auto que tinha de ser preenchido pelo bronzeado e musculado agente Mota. Ele acabava de me informar que a carteira não me podia entregar a carteira porque a carteira já me tinha sido entregue. Pois. Era o que dizia no computador. Calei o que me ia pela cabeça e só disse: “como vê não foi.” Ele pareceu convencido. “Pois não.” O facto levou-o a um série de telefonemas para não sei quantos agentes a quem ia inquirindo sobre a palavra “entregue” escrita na folha de serviço. Entre chamadas, resmungava: “cambada de lorpas; querem apresentar serviço e depois  está aqui o Mota para fazer o trabalhinho.” E teclava, anotava no computador cada objecto com a respectiva descrição. O cartão de cliente da Fnac é designado como “cartão de cliente da cadeia de lojas denominada Fnac e por aí fora. Depois de escrever o nome do meu pai, da minha mãe, se sou ou não casada, pergunta-me a profissão. “Jornalista”. Levanta os olhos: “No activo?”… E entra um graduado ainda mais graduado e o agente Mota conta-lhe a história como se fosse a mais intrigante da sua semana de polícia. O outro abana a cabeça, incrédulo. Pergunta-me a seguir há quando tempo estou ali. “Há muito”; “Uns três quartos de hora”, quer certificar-se. E já o ouvia sem o escutar até me levantar, já com a carteira da mão e ele me ter interpelado: “Desculpa, falta uma coisa, qual é a marca?”… “da carteira”.

publicada em parte no suplemento Outlook do Diário Economico

O verão acaba aqui


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.

Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves – só
alma e brancura.

Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.

Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro (1961)

mini-policial burlesco-ortográfico e de rutura


O fato cor de quivi que o detetive levou à receção foi o objeto exato de uma coleção de ações de flart por parte dos espetadores um pouco exóticos daquela platéia. A turné do travésti, suspeito de estupro e venda de estupefacientes começara, mas o artista esquecera o sutiã e os colãns no tabliê do jipe, o que o fez voltar atrás, dando tempo ao tal do detetive, cuja missão era dar o flagra no criminoso, para mais um drinque e um respirar fundo. Não era para ele a passarela e aquele esmogue tornava-o mais ridículo que se fosse em toplesse. Sentiu a rutura do raciocínio. De fato, se fosse essa a demarche, passaria por mais um entre aquele deboche. Olhou a foto da vampe. Era tirada de um escâner, parecia ter um pírcing e uma tatuagem de um aligator, daquelas que podia sair com uma ducha. João Esperto fez a subtração dos artefatos, sentiu que não tinha proteção, o revólver ficara junto com o pulóver na pizaria. O travésti chegou de surpresa, apanhou-o desprevenido e nem lhe deu tempo nem para a oração e acabou ali com a matiné.

nascer, crescer e viver com Jardim no poder


Esta reportagem tem quase cinco anos. Pura coincidência?

Um rapaz empurra um carro de mão sem se desviar do seu percurso. Segue linhas paralelas sulcadas na terra castanha. Para cima e depois para baixo. Sempre assim, conforme a geometria de uma sementeira sem sobressaltos. E a camisola verde que veste é só o que o distingue, ao longe, naquela marcha rotineira, um sobe e desce que é o único movimento a não quebrar as regras de um dia de semana. Fosse aquela uma segunda-feira igual a tantas outras e uma saca de batatas cortadas a jeito de semear não teria ficado abandonada mesmo a meio de outro terreno, mais perto da festa, na aldeia de Lamaceiros, concelho de Porto Moniz, no lado norte da ilha. Fica a uns 60 quilómetros do Funchal percorridos hoje em 45 minutos, quando antes de todos os túneis a demora era de cerca de três horas .

Está para chegar Alberto João Jardim mas aos ouvidos do rapaz de camisola verde não chegam os acordes da fanfarra de poucos músicos que ensaia o hino da Região Autónoma da Madeira. “Do vale à montanha e do mar à serra/ Teu povo humilde, estóico/ e valente,/ entre rocha dura te / lavrou a terra / para lançar do pão a semente / herói do trabalho / na montanha agreste / que se fez ao mar / em vagas procelosas, / os louros da vitória /em tuas mãos calosas / foram a herança / que a teus filhos deste.” Música para palavras de Ornelas Teixeira, que ali ninguém canta, de um lado como do outro da rua principal, enquanto se espera.

Estão lá os da aldeia e alguns de fora, “mesmo do Continente”, “os primos”, e só têm olhos para a tal chegada do presidente, que tarda em chegar. Há os engravatados da comitiva oficial e no passeio oposto, mulheres de lenços de flores na cabeça e botas coloridas, ao lado de homens de fato completo e, no cabelo, ainda a marca do boné que nunca tiram mas que hoje ficou em casa. O dia é de chapéu e ouro ao peito, mas só para os mais velhos. Os novos esperam, como os outros, mas entre piadas e uma curiosidade que substituiu aos poucos a reverência. Discute-se a bola. Pode ser que o Benfica fique a quatro pontos do Porto e o Nacional ganhe ao Leiria no “caldeirão” dos Barreiros. Seja como for, uns como os outros estão ali para ver Jardim e não há quem repare no rapaz que vai empurrando o carro de mão, de olhos postos na terra. O tal que não passa de um ponto verde ao longe, em tarde cinzenta com ameaça de chuva.

É água que vem “abençoar” a inauguração, pressagia uma mulher de manta pelos joelhos ao lado de outra, de roupão vermelho, sentada numa cadeira de rodas. Água miudinha que não faz ninguém desistir da espera nem chega a avivar flores murchas de tão recém-plantadas em canteiros ainda a cheirar a terra mexida. O presidente do Governo Regional aparece meia hora depois das cinco, atraso aceitável para a inauguração do arranjo urbanístico dos Lamaceiros, que inclui a recuperação de toda a área envolvente da igreja. Cumprimenta cada uma das pessoas que o aguardam debaixo de uma cacimba que molha e arrefece, mas não afasta quem foi para a visita mais importante da aldeia nos últimos anos e dá direito a beberete de luxo oferecido ao povo pela empresa que construiu a obra.

O “gajo do apito”

A fanfarra toca o hino e ninguém o canta. Perto dos músicos, há poses em sentido de Estado. Cá atrás, ouvem-se “bocas”. “Ai, que a banda não tem força para o sopro”, diz um rapaz de mãos nos bolsos dos jeans e sem tirar o cigarro na boca. O hino acaba mas a banda toca e a marcha segue atrás de Jardim rumo ao adro da igreja. O padre Afonso reza. Bênção à obra. E fumam-se mais cigarros durante a oração, num convívio sem conflito entre fé e vício.

O presidente da Câmara de Porto Moniz fala de ventos adversos que sopram do Continente e ameaçam a “prossecução” de obras como aquela. O povo aplaude. Está dado o mote para o discurso de Alberto João Jardim. Saúda a gente de Lameiros. Ouvem-se risos, trocam-se olhares cúmplices por uma gaffe logo emendada. É Lamaceiros! Que lhe perdoem o engano. A cabeça anda a ferro e fogo. Jardim ri e todos riem já depois dos foguetes que abafaram conversas. É um discurso feito para dentro. Jardim fala usando palavras que todos entendem. Justifica a demissão, a convocação de eleições, a sua decisão de se recandidatar, não por estar “agarrado ao poder”, mas para defender os madeirenses de uma lei que lhes vai retirar dinheiro e impedi-lo de seguir com a obra prometida. É a Lei das Finanças Regionais aprovada pelo “engenheiro Sócrates”, com a cumplicidade de quem votou nele e “no árbitro, o gajo do apito”. Mensagem para dentro, mais uma vez, mas que pode levar a equívocos a quem o escuta de fora. Que árbitro será este? Os da terra sabem que Jardim fala do homem do PS de Porto Moniz, um árbitro de futebol, os de fora, poucos e que nada sabem de política tão local, podem ser induzidos a pensar na arbitragem que levou à promulgação da tal lei. É que o discurso é mesmo feito para dentro, não se vá pensar que “o gajo do apito” seja alguém do Continente.

Longe, no Funchal, Tiago Seixas não sabe do que falou Alberto João Jardim no dia anterior, em Lamaceiro, nem da comparação que fez entre um “arranjo urbanístico” que não envergonharia as grandes cidades da Europa que Jardim conhece. É Jardim a pôr Lamaceiros na Europa, para orgulho dos que o ouvem. Tiago não ouviu nem sabe que palavras empregou para justificar uma decisão que este estudante do 3.º ano de Gestão da Universidade da Madeira apoia sem reservas. Tal como o rapaz de camisola verde que empurrava o carro de mão, Tiago não ouviu Jardim.

Tem 22 anos. Já esteve em Lisboa, viveu “lá” dos 4 aos 14 anos, haveria de voltar aos 18 para estudar no ISEG, mas decidiu regressar à Madeira. Tem uma cara de anjo que uns óculos de aros finos ajudam a dar seriedade. Ele quer parecer sério, mas denuncia-se no sorriso. É curioso. Acerca do que vem de fora e do que esse “lá fora” pode pensar do “ali dentro” que para Tiago é a sua ilha. Uma ilha que apresenta como transformada para o bem “pelo doutor Alberto João”; uma ilha onde algumas fronteiras físicas se quebraram e que a Internet, acessível nos lugares mais recônditos, ajudou a tirar do isolamento. Por isso, Tiago diz que “sair da Madeira era o sonho de uma geração que não é a sua”. O seu é “sair da casa dos pais, viver por conta própria.” Afinal, nada que espante um jovem do Continente, questiona com um encolher de ombros. Ele tem uma vantagem: maior qualidade de vida e mais uma hora de sol por dia.

Publicado no DN de Março de 2007

Júlio Resende 1917 – 2011

Acho que foram as cores. Eu não sabia nada de pintura mas dizia que gostava daquele pintor. Uma vez vi-lhe o rosto e fiquei a gostar ainda mais porque se parecia com o meu avô e contava histórias e parcia que elas estavam nos quadros. Sim, talvez as cores e as possibilidades que eles lhes atribuia. Havia um rosto que era sugestão de um rosto, e os corpos nas suas pinceladas sem contornos definidos e as paisagens que se pareciam com as que via nos desenhos de crianças. Acho que foi por isso que muito antes de saber sequer escrever o seu nome já o dizia, dizendo que gostava de Júlio Resende, e foi através dele também que vi pela primeira vez o Porto e gostei do que vi. Hoje, o pintor de quem gostei antes de todos, morreu.

O ciúme

Ele bateu com a porta.

Disse “até logo e um beijo” e ela teve um calafrio.

Dos romances, associou o eriçar do couro cabeludo, o frio no estômago, a água a chegar aos olhos até os turvar àquilo a que chamam ciúme. Sim ela ficou enciumada só com aquele “até logo e um beijo”. Medo de perder. Raiva irracional contra o mundo. Afinal anda alguém danadinho para lhe levar o objecto amado. Objecto amado? A expressão não soou bem, mas deixou-se ir na espiral. Sim, porque a ameaça anda lá fora e foi para lá que ele foi, e ela ali, sem poder fazer nada contra o mundo que continua a girar com a mesma indiferença. Sim, anda alguém a atacar a presa para a levar para bem longe e, ainda por cima, por vontade dela, da presa, que há-de ser seduzida por um sorriso, uma mini-saia, um decote.

Agrr…  É preciso defender-se, mas de quem? De todas. Não há historial de traição. E então? Então como explicar o arrepio sempre que pensava nele sozinho, a ir sabe-se lá para que sítios que ela não conhecia e com gente de que só ouvira falar por ele?

Claro que ela nunca confessaria. O ciúme era para os fracos, os inseguros e ela e era uma mulher segura. Sempre fora, mas e agora? Estava a roer as unhas. Nunca roía as unhas e nem gostava daquele sabor a pele e verniz.

Era preciso estratégia. “Um ciumento deve ter estratégia”, e o raciocínio era tão contorcionista quanto as voltas que dava às mãos para chegar ao melhor ângulo da última unha. Não se avisa: “cuidado, que eu tenho ciúmes!” Como era de gargalhada pensar nas perguntas que poderiam dar respostas de alerta ou sossego. Um ciumento não quer propriamente sossego para o ciúme, parece mais esperar um motivo para dizer: “Vês, vês”; “gotcha”. E seguia-se o “não mereço” do costume. Porque para o ciumento ninguém é tão capaz de amar como ele e aí entra a variável mérito. Não há mais ninguém com a mesma capacidade de amar, e o rival não passa de um canalha cujo fim é “dar cabo de nós”. E são olhinhos e avanços vindos de todo o lado, flechas de falsos cupidos, disparadas sem tréguas. Santa imaginação, maldita imaginação. É dela que vem o cíume? Então o ciúme é dos criativos?! Hummm…
Agora dava jeito outra unha para roer.