quase como em hollywood, mas com supermercado

Gostava de andar de descapotável. Punha um lenço na cabeça, como via nos filmes e lhe ensinavam as revistas de moda que mandava vir de fora. Dizia-se que ao jeito de Hollywood. Depois era deixava-se ver, de óculos escuros e cara sempre fechada porque rico não dá confiança. Ela nunca deu. Filha única de uma família única, ela cultivava a exclusividade, e de tal modo que lhe chamariam  excêntrica, se a maioria das pessoas da pequena cidade assim soubessem chamar. Quando a viam de boquilha na mão, mini-saia e uns decotes que desafiavam a beatice empedernida da mãe e das tias, diziam que ela se iria perder para a vida. Era o melhor que se aproximava daquela rebeldia burguesa, de costas largas, mas apoiada pelo gosto de quem se podia apurar em Biarritz ou na costa brava espanhola. Não havia verão que não fosse. E ia de descapotável. Primeiro com o namorado e a companhia da velha  que lhe dera biberões era paga para lhe aturar os caprichos, pouco depois com o marido que gostava de exibir a mulher como quem mostra um novo diamante. E ele estava habituado a isso. Lidava com ouro, jóias, negócio herdado dos pais, mas do que gostava mesmo era de pintar e por isso um dia levou-a a Itália. Roma, Florença, Veneza. Papou todos os museus, e ela a falar-lhe de Dante e de um “Inferno” literário e sempre com “A Morte em Veneza”, de Mann, na mão. Se lhe desse para outras artes que não as de vestir, seria escritora. Nunca escreveu. Havia uma boa dose de preguiça aliada à falta de ter de… Ela nunca teve de… Ela sempre quis e… Um dia, muitos anos mais tarde, teve de… porque havia um neto que se sentava ao lado da cama e lhe perguntava porque tinha de ir à escola. Então, ela, que sempre se passeara de descapotável e só saia à rua às quatro da tarde quando estava imaculadamente arranjada para ir dar o passeio higiénico pelas montras sem nunca entrar nos cafés onde estavam as que a viam, ela teve de  dizer que tinha de ser porque também ela, afinal, todos os dias tinha de fazer a lista de compras para a Maria e que a vida não era fácil. Nada fácil mesmo.

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