Da raiva

E de repente tudo faz sentido.
Dois dias a ler “A Ilha de Sukkwan”, é sentir um murro no estômago à moda de Cormac McCarthy ou William Faulkner e tentar perceber o porquê.
Porque ninguém escreve um livro assim sem uma boa razão e aí tem de haver uma dose de verdade.
David Vann, o autor, afinal acredita nisso, que a ficção tem de ser verdade. Isto soa melhor dito pela escritora Grace Page: “Fiction must Allways be true”. É que quando se escreve com a intensidade e a simplicidade de Vann não pode haver mentira. Há sim trocas de personagens, mas isso é outra coisa.
Muita coisa de “A Ilha de Sukkwan” se explica depois de saber um pouco da biografia deste escritor nascido em 1966 no Alasca, que esperou uns bons anos até ver publicada e reconhecida a sua escrita. Tantos anos que ele diz que deixou de se importar muito com ela, ou melhor, com o que dela se poderia dizer. E foi escrevendo e dando aulas até que… concorreu ao prémio de short-stories e ganhou… Foi quando perdeu a vergonha de dizer o motivo da morte do pai: suicídio.
Durante dois anos, a raiva fê-lo dizer que fora de cancro. Um tiro na cabeça, estava no escritório, foi-se a vida ficou um bilhete para a mulher, madrasta de Vann. Amo-te, não consigo viver sem ti.
No caso, nem sem porque antes fora ela a tentar acabar com tudo. Vann tinha 13 anos e não é difícil descobri-lo em Roy, o protagonista de A Ilha de Sukkwan, o rapaz adolescente, de 13 anos como ele, que embarca com o pai, um dentista como o pai de David, para viver uma aventura numa ilha inóspita no Alasca.
Que rapaz não gostaria de uma aventura assim. Pois.
Roy foi, acompanhou o pai e às noites ouvia-lhe o choro e de dia a frustração de ter falhado o casamento com a segunda mulher, a confissão de que não conseguia viver só, a traição à mãe. A primeira, a segunda, tantas infidelidades.
E a tentativa, mais do que uma, de pôr fim à vida, quando caiu de uma falésia. Roy, nas suas saudades de casa, suspeitou que não fora bem assim. Quando viu o pai quase a morrer achou que fora de propósito. Nunca lhe disse, como não disse nada no dia em que o foi encontrar com uma pistola pontada à cabeça ao lado do rádio onde comunicava com Rhoda, a ex-mulher, depois desta lhe ter cortado qualquer possibilidade de uma reconciliação.
O pai de Roy, ao contrário do pai de David não atirou. Na sua eterna cobardia baixou a arma e entregou-a ao filho e então começa quase tudo, uma vida de falhanços, de tiros lado, da derradeira falha.

Ler “A Ilha de Sukkwan” é saber da relação entre homens e mulheres, entre pais e filhos, do egoísmo e da tentativa de emendar um erro com outro erro. Para chegar onde? David Vann agora já diz de que morreu o pai, e como muitos outros escritores fala da escrita como salvadora. Salvou-lhe a vida, o trauma que não o deixara dormir durante 15 anos. Agora escreve e muita gente quer saber disso. Ganhou um prémio com esta história. O Medicis, em França. E continua a escrever.

Em Outubro haverá mais.

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