A gargalhada de Edmund White

_by Ciberio11

Ele veio de chinelos e roupão. “O almoço vai ser servido junto à piscina”, disse depois de um “bom dia” entredentes. Havia ali um sotaque que não identifiquei logo, entremeado por um tossicar que era mais catarro de Primavera do que outra coisa. Britânico, irlandês, com contágios do mundo. Veio de dentro, de uma das salas da casa, desceu os degraus que davam para a biblioteca cheia de memórias de gente que por ali passou. Tanta gente. Da boa. Bruce Chatwin, Visconti, Orham Pamuk, tantos, tantos. Em fotografias, autógrafos, desenhos. E nós entre eles, em frente a computadores que tentavam combater os ponteiros de um dead-line longe dali, daquele sossego que se estava nas tintas para pressas distantes. Nós, a tentar resistir ao chamamento daquele sol que entrava na sala, aquecia a pedra e iluminava o tapete de um vermelho russo, de lã puída. Lá fora, a piscina e um almoço que era daí a pouco como avisara o homem de roupão sem perguntar quem éramos. Descabelado, óculos na ponta do nariz, jornal dobrado na mão e a outra num adeus que pareceu displicente. E nós a segui-lo com o olhar, com uma curiosidade distraída. Até que… Olhámos um para o outro e um disse: “aquele não é…?”; “É.” Claro que era. Edmund White, o escritor que aprendi a ler na sua ironia melancólica, o homossexual que sempre falou dos seus amores sem falsos pudores, o grande escritor que escreve porque o dinheiro lhe falta e se esvai nos vícios que não tem vergonha de confessar. Custam um livro por ano e ele tenta, tenta. Era mesmo ele, estava ali na sua forma mais íntima, como em casa, em casa, de roupão e chinelos, a partilhar o mesmo espaço numa Toscânia com verde e tantas cores quantas as das flores, a chamar para o almoço. E o dead-line ficou esquecido. E lá estava ele, agora de camisa clara e calças como se fossepara um safari, à beira da piscina a tomar conta da conversa à mesa. E nós a chegar, com a vergonha da consciência da arrogância, ousadia de ignorantes, de gente nova com muito que aprender. Já as gargalhadas iam a meio. White a brilhar equanto contador de histórias. Piadas picantes de que as senhoras se riam sem ter de fingir vergonha. E ele a dizer nomes e a contar como quem narra a melhor narrativa e a chamar para a conversa e nós a ir, a medo e depois já com menos medo a acrescentar notas e ele a picar. A rir, com o olhar marcado, vivido, magoado aqui e ali, curioso, atrevido. Edmund White apareceu-me assim na vida, qual benção e levou-me a uma conversa que guardo no gravador não vá apagar-se da memória. Ele quis que fosse gravada, falada num banco de pedra junto ao túmulo do dono daquela casa que hoje é um paraíso de escritores. Alguns têm a sorte de se poder recolher ali, durante umas semanas, e escrever como em casa, mas sem os incómodos de estar em casa. São hóspedes, convidados a nada mais que escrever ou pensar no que hão-de escrever e partilhar o dia-a-dia com a anfitriã, uma baronesa octogenária, ela sim, com muitos safáris em África na biografia e uma galeria de ate em Nova Iorque. Ela gosta de os ter ali e eles vão. White foi e falou das paixões, dos rapazes que iam com ele em viagens sem saberem bem quem ele era, como nós não soubéramos. Um, nos entretantos, soube que estava a ‘namorar’ com o homem sobre o qual fazia um doutoramento e a partir dali, tratou-o intimamente por ‘mestre’. Claro, deu em riso. Dele, que estava a escrever outro livro. “Tenho de pagar contas”, gargalhou. Penso em como estará agora, ainda a pagar contas, por certo, o homem que ri a bandeiras despregadas, humilde no modo como aceita encomendas de editores que sabem das necessidades de alguém que quase aos 70 anos não quer deixar os prazeres e por isso não deixa de lhes responder, ele, com estatuto para tanto mas marimbando-se para isso do estatuto. Aquelas gargalhadas de vez em quando ecoam e trazem o escritor que gosta mais da vida do que dos livros e por isso se ri assim. Porque está sol e há uma sombra e alguém para ouvir.

parte desta crónica foi publicada no Outlook do Diário Económico

2 responses to “A gargalhada de Edmund White

  1. Cheguei ao teu blogue pelo PRD. Ganhaste mais um leitor.

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