Perdição


Era Abril em Nova Iorque.
Abri o livro na página em que ela, a Patty, foi violada e sentei-me num bendito lugar na carruagem do E, a linha que faz ligação para a Lexington Avenue. Tudo vai fresco na cabeça.
O biergarten onde no sábado comi umas salsichas alemãs dera lugar a um kindergarten e era ver as criancinhas a correr e a gatinhar por entres as mesas e as cadeiras. Elas e as educadoras olharam para mim, não com tanta curiosidade e surpresa quanto eu olhei para elas. Como era possível? Era.
A prova estava naquela menina de uns dois anos que ria e dizia adeus pela janela enquanto eu colava o nariz no vidro não fosse andar a ver coisas.
Entrei na livraria umas portas abaixo e perdi-me. Nos títulos, nas capas e quando olhei tinha uma braçada de livros, mais olhos que barriga, mas um pouco de bom-senso lá moderou a conta para números menos proibitivos. Gula.

Uma hora depois voltava à chuva miudinha e o kindergarten voltava a ser biergarten. Já passava das seis e o cheiro a talco ainda persistia quando pedi o lanche.
O caminho não era aquele. Foi um atalho que saiu longo e levou uns trocos da carteira. São as coisas de andar perdida numa cidade por querer perder-me numa cidade. Como eu, tantos.

Aquela mulher que parece saída de New Orleans veio contra mim e deixou cair as compras quando não tirava os olhos da página do jornal que noticiava mais um crime do serial killer de Nova Iorque que andava por ali. “I’m sorry.” Ia eu a caminho de me perder no metro por achar pouco razoáveis as indicações do mapa. “Não duvides, menina. Põe questões”, lembrava-me eu do tal padre David.
E talvez por tudo isto quando me sentei no ‘E’ e li as passagens que contavam a violação tudo me pareceu real. A ficção de Jonathan Franzen, o menino bonito das letras norte-americanas que a Europa não se cansa de mimar, era demasiado real e não descolei os olhos.
A cidade agora estava no livro. Naquele “Freedom” que pressupõe que todos são o que são porque escolheram ser assim, mas que não é bem assim porque todos são as suas circunstâncias e as suas hipocrisias e os seus medos. A inocência não se ganha, perde-se. E lembro o sorriso da menina e o cheiro a pó-de-talco, longe da preocupação da mulher que foge do serial killer e se esquece das compras e do resto. Porque é ali. Tudo é ali.
São flashes de realidade numa ficção que parece bem mais contida e não conta a conversa dos rapazes que por sua vez contam ao cameraman italiano a dança na rua e o dinheiro que levam para casa numa linguagem mais de rua do que a dança.

E o italiano filma o inusitado. Eles sentados ou meio deitados no chão. Ele, como eu, vinha no metro. Queria realidade a cheirar a ficção e ela andava ali à mão de semear. Invejei-o na sua missão. Também eu quis ter a minha. Uma desculpa para questionar, um pretexto, qualquer coisa que me fizesse sair do silêncio da banalidade e me desse uma função, uma identidade, me tirasse daquele limbo em que para tentar entender a realidade vou à ficção e não sei onde pertenço.
Nem que fosse só a perguntadora.. Mas aqui é fácil ser simplesmente a que passa, banal para ser questionada, interpelada, nem por alguém que quer saber para onde vai aquele metro, que afinal não era o ‘E’. Como eu não quis saber julgando que sabia. Eu e o silêncio que saía de mim. Por isso tudo o resto ecoava, como no vazio. E foi o eco que me trouxe uma voz: “What’re you reading?”, e alguém me olhava e ao livro e esperava um resposta, de mim. A realidade chamava-me à ficção. Olhei num sentido e noutro e apontei a ficção à realidade quando dobrei o livro para revelar a capa sem sair do meu silêncio.

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