Bellow a propósito de “Ravelstein”

É curioso que os beneméritos da humanidade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também de o entreter. Durante a Guerra Civil, as pessoas queixavam-se das anedotas de Lincoln. Talvez ele pressentisse que a seriedade estreita era bastante mais perigosa do que qualquer piada. Mas os críticos consideravam-no um frívolo e o seu próprio Secretário de Estado o achava um Brutamontes.

Fala-se muitas vezes de grandes aberturas de romances. Acho que esta pode entrar no top.  É o arranque de “Ravelstein”, livro sobre um homem que escrevia e privava com poderosos, e um obra emblemática de Saul Bellow, agora reeditada pela Quetzal.

Voltei a reler páginas, ao calhas e lembrei um texto que uma vez escrevi sobre o escritor, natural do Quebeque, onde nasceu em 1915 e Nobel em 1976.
Foi quando ele morreu, em 2005. Coube-me “enterrá-lo”, como se dizia na gíria dos jornais. Não em achei à altura de tal tarefa, mas lá fui.

Foi ele que disse um dia que “a ficção é a maior das autobiografias”, para dizer também o mesmo que só saber escrever sobre a realidade que o cercava: “Não posso exceder o que vejo (…) Estou limitado (…) pela situação em que vivo”. E a um eventual biógrafo terá respondido: “Que pode você revelar sobre mim que eu não tenha revelado já?” A vasta obra deste homem, cujo nome integra um dos grupos literários mais brilhantes do século XX, o dos romancistas norte-americanos de origem judia, onde se incluem nomes como Bernard Malamud ou Philip Roth (e no qual não gostava que o colocassem, alegando independência criativa), contém muitas marcas de uma vida que terá começado para as letras aos oito anos, quando leu “A Cabana do Pai Tomás,” de Harriet Beecher Stowe – livro que marcou a luta contra a escravatura. Com isto, abandonava o projecto da mãe que sonhava para o filho mais novo um destino de rabi ou violinista. Não foi. A sua missão foi outra. Renovar o romance, diz-se. Mas o mundo não parecia pelos ajustes para quem estava a começar no género.

Muitos profetizavam o fim do romance. Provou o contrário. Através de personagens de enorme densidade física e psicológica, muitas com características biográficas, criou um universo erudito onde cruza a experiência com a introspecção, indo ao fundo de cada um dos seus heróis para, através deles, reflectir sobre o mundo. O britânico Martin Amis, seguidor confesso de Bellow, e que agora também está aí com “O Segundo Avião”, também da Quetzal, escreveu na sua biografia “Experiência” (Teorema), que “Saul Bellow, muito graças ao seu isolamento espiritual, escreve sobre o eu da perspectiva da alma, da alma permanente.” E sempre com enormes doses de ironia e acidez.

Aplaudido pela crítica e com um enorme séquito de leitores fiéis, tomou, por vezes, posições polémicas que lhe valeram o epíteto de chauvinista por parte dos movimentos feministas ou de conservador pela ala mais esquerda da sociedade. Nada que lhe beliscasse o talento ou lhe apagasse o sorriso irónico por baixo do chapéu à Humphrey Bogart, acessório inseparável do fato de corte sempre impecável, que faziam da sua imagem pouco dada a excessos, algo fora do estereótipo do escritor maldito dos anos 50 e 60.

Além do Nobel da Literatura, em 1976, Bellow  foi o único escritor três vezes distinguido com o National Book Award e ganhou o Pulitzer.  
A revelação para as letras deu-se em 1953, com “As Aventuras de Augie March”, que lhe valeu o primeiro National Book Award e é ainda considerado pela crítica norte-americana como um dos livros mais marcantes da revolucionária (para o romance) década de 50, a par, por exemplo, de “Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac. Antes já publicara “A Vítima” e “Agarra o Dia”. Também com Augie March, surgem heróis cuja existência parece suplantar a ficção. Casos de Moses Herzog, herói de “Herzog” (1964), obra vencedora do National Book Award, ou Von Humboldt, em “Humboldt’s Gift”, ganhador do Pulitzer. Personagens às quais se aplica a interrogação do próprio Bellow acerca dos heróis criados pelos romancistas que não se cansava de ler, como Shakespeare, Dostoiesvky ou Flaubert “Pode alguma coisa tão viva como as personagens dos seus livros alguma vez morrer?” Ele morreu em 2005. Mas Ravelstein” está aí com tudo o que ele deixou.

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