Daily Archives: September 14, 2011

Na curva

Como eu odiava a pasta castanha às costas. Os fechos laranja florescentes para alertar carros. E odiava ainda mais a bata branca com o nome bordado no bols,o que me apertava no pescoço e me enchouriçava por cima da roupa de lã.  Eu bem que tentava alargar a gola dando-lhe puxões com os dedos, esticando o pescoço, mas qual quê. Equipada, lá bebia de uma virada o leite com chocolate e segurava na fatia de pão com manteiga enquanto a minha mãe me compunha e passava para a mão o cesto de lanche e ainda mais um casaco não fosse arrefecer. E eu sem dar uma dentada no pão. E ela: “come”. E a prima mais nova já esperava, inquieta, irrequieta, tagarela tão chouriça quanto eu. Minto: mais porque eu era lingrinhas. Ela não e para ela era o primeiro dia na escola e sentia-se muito crescida e eu já na segunda classe portava-me como uma pedante. Fingia que não a via. E a minha mãe a dar-me um beijinho como se eu fosse para longe e a ver-me descer a ladeira, coisa que eu fazia  à pressa. Quase corria, fazendo jogos de apanhada e a sentir os lápis a bater contra as canetas, o chocalho da lapiseira no meio de livros e cadernos.  Passada a curva, olhava para trás. Estava fora de vista da mãe que me acompanhava com o olhar até me perder o vulto naqueles cem metros que a mim me pareciam muito mais. A salvo, dava então um beijinho no pão, só levemente trincado e deitava-o às ervas de modo a que ficasse bem escondido, não fosse a minha mãe passar e descobrir o meu pecado. Eu sabia que não era bem pecado. Pelo menos era o que a minha avó dizia. “Se não quiseres mais dá um beijinho no pão e depois podes deitar fora.” Era o que eu fazia e sentia-me ilibada.

Consenso francês

O parisiense David Foenkinos viu o seu romance “A Delicadeza” ser nomeado para todos os grandes prémios literários do seu país Renaudot, Femina, Interallié e Goncourt. Está na capa. Já agora aproveito para dizer que não era preciso e embirro que estas parangonas promocionais venham logo ali, na capa. Adiante. Foenkinos conseguiu um feito com o livro. De desconfiar tanto consenso? Lets read it.

Então começa assim:

 “Natalie era sobretudo discreta (uma espécie de feminilidade suíça). Tinha atravessado a adolescência sem incidentes, respeitando as passagens de peões. Aos vinte anos, via o futuro como uma promessa. Gostava de rir, gostava de ler. Duas ocupações raramente simultâneas, porque preferia histórias tristes. Não sendo a via literária suficientemente concreta para o seu gosto, tinha decidido seguir economia. Sob os seus ares de sonhadora, pouco lugar deixava à imprecisão. Passava horas a observar as curvas da evolução do PIB na Estónia, com um sorriso enigmático nos lábios. No momento em que se anunciava a vida adulta, acontecia-lhe por vezes relembrar a infância. Instantes de felicidade colhidos numa mão-cheia de episódios, que eram sempre os mesmos. Ela a correr na praia, a subir para um avião, a dormir nos braços do pai. Mas não sentia a mais pálida nostalgia, nunca. Coisa rara numa Natalie.”

Aguardela

Vi-os um ano antes deste espectáculo no Pavilhão Carlos Lopes. Foi numa festa num bar da cidade universitária, em 1992. Éramos muito poucos. A figura de João Aguardela já se distinguia dos outros Sitiados. Ele morreu muito cedo e agora está aí o livro do jornalista Ricardo Alexandre para contar como foram os 39 anos de Aguardela. Chama-se “João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro” e foi editado pela QuidNovi.