headphones

De auscultadores nos ouvidos, fugia às pingas que caiam dos toldos.
A chuva era miúda mas persistia há horas e chegava para arrepiar as costas quando uma gota entrava por onde não devia.
Não costumava andar assim na rua, de orelhas moucas para o que lhe chegava. Surda dos sons do dia, os sentidos ficavam menos apurados. Acontecia tropeçar, não reparar na cor do sinal para peões.
Coisas não só do ouvir mas também do ver. E parecia também que até os cheiros chegavam mais fracos e àquela hora da manhã havia café e pão quente e waffles ainda sem gordura saturada. Tudo intenso. Mas o que ela gostava mesmo era das conversas que lhe iam chegando aos pedaços, sem um princípio e sem um fim, ou então só com o fim, ou apanhadas num princípio tão bom que então, aí sim, punha os auscultadores e fingia ouvir música quando a atenção se prendia ao desenrolar de uma história que não tinha vergonha de perseguir. Como o descaramento de olhar para o interior de uma casa à noite. As vidas dos outros interessavam-lhe e não era cuscuvelhice. Ou pelo menos ela assim não achava. Era uma maneira de se situar no mundo.
Com as orelhas tapadas pela música sentia-se mais indefesa, menos preparada para enfrentar surpresas, e ouvir ou não ouvir uma conversa podia fazer toda a diferença. Sobretudo naquelas manhãs de minutos contados onde cada coisa, cada acto tinha a sua função precisa. Daí as conversas dos outros terem a função da ficção, mas com o desconcerto do real. E os phones ficam na mala mais a música que era suposto ouvir… Mas não na rua. Só que naquele dia ela estava virada para dentro, ensimesmada, e por isso não ouviu o homem na esquina anunciar o bilhete que tinha a sorte grande. Ele não era um banal vendedor de lotaria. Era o adivinho de Tiziano Terzani, o jornalista italiano que não andava de “headphones” nas orelhas

One response to “headphones

  1. “o que ela gosta mesmo era das conversas que lhe iam chegando aos pedaços, sem um princípio e sem um fim, ou então só com o fim, ou apanhadas num princípio tão bom que então, aí sim, punha os auscultadores e fingia estar a ouvir música quando a atenção se prendia ao desenrolar de uma história”

    Agora que penso no assunto, faço exactamente o mesmo!

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