O casaco

Na gola, no atilho para pendurar no bengaleiro, lia-se um 9 e um 5. Os outros dois algarismos, primeiro e último, estavam sumidos mas não era difícil presumir o primeiro. Seria uma data.

No meio daquela feira a céu aberto onde toda a quinquilharia era superinflacionada aquele casaco chamou-me a atenção quando já dava a minha ronda por encerrada sem lamentar não ter trazido os óculos de ouro só com uma haste, nem o baú a que faltava quase tudo, ou os vinis rombos. A dona da barraca arrumava-o e no justo momento em que pegou no cabide que o segurava pedi-lhe para ver. “Sure.” Estava um daqueles dias de sol e chuva, ora calor ou um vento que gelava. Fim de tarde em fim de primavera a pedir sobretudo e cachecol. “Experimenta”, incentivou-me o João, esquecido da frustração de não encontrar por ali as tais das botas, aquelas, “que raio”… Olhei para os números, no papel pardo e imaginei quem se teria dado ao trabalho de escrever ali uma data. Qual a razão? Comecei a inventar uma história para aquele casaco de pêlo curto preto forrado a seda. “Assenta que nem uma luva”, disse a vendedora, mulher com ar de inglesa, robusta, e sotaque a remeter para o outro lado do Atlântico, um “it fits you very well” que soou a música para os meus ouvidos. E o casaco ia ganhando mais história. Agora pertencia a Inglaterra e sabe-se lá como teria ido parar a Brooklyn, a um feira de bric-a-brac. Cintado, pelo joelho, gola levantada, botões  a tapar as molas que o apertavam. Olhei à procura de um olhar cúmplice e encontrei-o. O sorriso estava lá. Eu, que tudo o que não precisava era de mais um casaco. Mas aquele não era só mais um casaco. Tinha pertencido a uma lady que se viu obrigada a seguir o marido para Nova Iorque no pós-guerra. Não era inglesa, era alemã, apesar do ar Notting Hill do casaco. Chamavam-lhe lady porque ela queria fugir ao estigma. Não uma frau e por isso adoçava os rrr quando falava. Trouxe o que pode e foi vendendo aos poucos o que tinha numa fuga que terminara ali. O casaco foi um dos último objectos. A história era agora contada pela vendedora, demasiado cinematográfica para ser verdadeira. Mas dei um rosto à tal da lady, dramatizei-a, encarnei a personagem e já não vesti o casaco que trazia. Fixei o vintage Borella estilizado por Fairmoor nos anos 50, e saí da feira vestida de lady numa tarde a pedir chá com bolos. E tudo por 50 dólares.

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