O ciúme

Ele bateu com a porta.

Disse “até logo e um beijo” e ela teve um calafrio.

Dos romances, associou o eriçar do couro cabeludo, o frio no estômago, a água a chegar aos olhos até os turvar àquilo a que chamam ciúme. Sim ela ficou enciumada só com aquele “até logo e um beijo”. Medo de perder. Raiva irracional contra o mundo. Afinal anda alguém danadinho para lhe levar o objecto amado. Objecto amado? A expressão não soou bem, mas deixou-se ir na espiral. Sim, porque a ameaça anda lá fora e foi para lá que ele foi, e ela ali, sem poder fazer nada contra o mundo que continua a girar com a mesma indiferença. Sim, anda alguém a atacar a presa para a levar para bem longe e, ainda por cima, por vontade dela, da presa, que há-de ser seduzida por um sorriso, uma mini-saia, um decote.

Agrr…  É preciso defender-se, mas de quem? De todas. Não há historial de traição. E então? Então como explicar o arrepio sempre que pensava nele sozinho, a ir sabe-se lá para que sítios que ela não conhecia e com gente de que só ouvira falar por ele?

Claro que ela nunca confessaria. O ciúme era para os fracos, os inseguros e ela e era uma mulher segura. Sempre fora, mas e agora? Estava a roer as unhas. Nunca roía as unhas e nem gostava daquele sabor a pele e verniz.

Era preciso estratégia. “Um ciumento deve ter estratégia”, e o raciocínio era tão contorcionista quanto as voltas que dava às mãos para chegar ao melhor ângulo da última unha. Não se avisa: “cuidado, que eu tenho ciúmes!” Como era de gargalhada pensar nas perguntas que poderiam dar respostas de alerta ou sossego. Um ciumento não quer propriamente sossego para o ciúme, parece mais esperar um motivo para dizer: “Vês, vês”; “gotcha”. E seguia-se o “não mereço” do costume. Porque para o ciumento ninguém é tão capaz de amar como ele e aí entra a variável mérito. Não há mais ninguém com a mesma capacidade de amar, e o rival não passa de um canalha cujo fim é “dar cabo de nós”. E são olhinhos e avanços vindos de todo o lado, flechas de falsos cupidos, disparadas sem tréguas. Santa imaginação, maldita imaginação. É dela que vem o cíume? Então o ciúme é dos criativos?! Hummm…
Agora dava jeito outra unha para roer.

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