nascer, crescer e viver com Jardim no poder


Esta reportagem tem quase cinco anos. Pura coincidência?

Um rapaz empurra um carro de mão sem se desviar do seu percurso. Segue linhas paralelas sulcadas na terra castanha. Para cima e depois para baixo. Sempre assim, conforme a geometria de uma sementeira sem sobressaltos. E a camisola verde que veste é só o que o distingue, ao longe, naquela marcha rotineira, um sobe e desce que é o único movimento a não quebrar as regras de um dia de semana. Fosse aquela uma segunda-feira igual a tantas outras e uma saca de batatas cortadas a jeito de semear não teria ficado abandonada mesmo a meio de outro terreno, mais perto da festa, na aldeia de Lamaceiros, concelho de Porto Moniz, no lado norte da ilha. Fica a uns 60 quilómetros do Funchal percorridos hoje em 45 minutos, quando antes de todos os túneis a demora era de cerca de três horas .

Está para chegar Alberto João Jardim mas aos ouvidos do rapaz de camisola verde não chegam os acordes da fanfarra de poucos músicos que ensaia o hino da Região Autónoma da Madeira. “Do vale à montanha e do mar à serra/ Teu povo humilde, estóico/ e valente,/ entre rocha dura te / lavrou a terra / para lançar do pão a semente / herói do trabalho / na montanha agreste / que se fez ao mar / em vagas procelosas, / os louros da vitória /em tuas mãos calosas / foram a herança / que a teus filhos deste.” Música para palavras de Ornelas Teixeira, que ali ninguém canta, de um lado como do outro da rua principal, enquanto se espera.

Estão lá os da aldeia e alguns de fora, “mesmo do Continente”, “os primos”, e só têm olhos para a tal chegada do presidente, que tarda em chegar. Há os engravatados da comitiva oficial e no passeio oposto, mulheres de lenços de flores na cabeça e botas coloridas, ao lado de homens de fato completo e, no cabelo, ainda a marca do boné que nunca tiram mas que hoje ficou em casa. O dia é de chapéu e ouro ao peito, mas só para os mais velhos. Os novos esperam, como os outros, mas entre piadas e uma curiosidade que substituiu aos poucos a reverência. Discute-se a bola. Pode ser que o Benfica fique a quatro pontos do Porto e o Nacional ganhe ao Leiria no “caldeirão” dos Barreiros. Seja como for, uns como os outros estão ali para ver Jardim e não há quem repare no rapaz que vai empurrando o carro de mão, de olhos postos na terra. O tal que não passa de um ponto verde ao longe, em tarde cinzenta com ameaça de chuva.

É água que vem “abençoar” a inauguração, pressagia uma mulher de manta pelos joelhos ao lado de outra, de roupão vermelho, sentada numa cadeira de rodas. Água miudinha que não faz ninguém desistir da espera nem chega a avivar flores murchas de tão recém-plantadas em canteiros ainda a cheirar a terra mexida. O presidente do Governo Regional aparece meia hora depois das cinco, atraso aceitável para a inauguração do arranjo urbanístico dos Lamaceiros, que inclui a recuperação de toda a área envolvente da igreja. Cumprimenta cada uma das pessoas que o aguardam debaixo de uma cacimba que molha e arrefece, mas não afasta quem foi para a visita mais importante da aldeia nos últimos anos e dá direito a beberete de luxo oferecido ao povo pela empresa que construiu a obra.

O “gajo do apito”

A fanfarra toca o hino e ninguém o canta. Perto dos músicos, há poses em sentido de Estado. Cá atrás, ouvem-se “bocas”. “Ai, que a banda não tem força para o sopro”, diz um rapaz de mãos nos bolsos dos jeans e sem tirar o cigarro na boca. O hino acaba mas a banda toca e a marcha segue atrás de Jardim rumo ao adro da igreja. O padre Afonso reza. Bênção à obra. E fumam-se mais cigarros durante a oração, num convívio sem conflito entre fé e vício.

O presidente da Câmara de Porto Moniz fala de ventos adversos que sopram do Continente e ameaçam a “prossecução” de obras como aquela. O povo aplaude. Está dado o mote para o discurso de Alberto João Jardim. Saúda a gente de Lameiros. Ouvem-se risos, trocam-se olhares cúmplices por uma gaffe logo emendada. É Lamaceiros! Que lhe perdoem o engano. A cabeça anda a ferro e fogo. Jardim ri e todos riem já depois dos foguetes que abafaram conversas. É um discurso feito para dentro. Jardim fala usando palavras que todos entendem. Justifica a demissão, a convocação de eleições, a sua decisão de se recandidatar, não por estar “agarrado ao poder”, mas para defender os madeirenses de uma lei que lhes vai retirar dinheiro e impedi-lo de seguir com a obra prometida. É a Lei das Finanças Regionais aprovada pelo “engenheiro Sócrates”, com a cumplicidade de quem votou nele e “no árbitro, o gajo do apito”. Mensagem para dentro, mais uma vez, mas que pode levar a equívocos a quem o escuta de fora. Que árbitro será este? Os da terra sabem que Jardim fala do homem do PS de Porto Moniz, um árbitro de futebol, os de fora, poucos e que nada sabem de política tão local, podem ser induzidos a pensar na arbitragem que levou à promulgação da tal lei. É que o discurso é mesmo feito para dentro, não se vá pensar que “o gajo do apito” seja alguém do Continente.

Longe, no Funchal, Tiago Seixas não sabe do que falou Alberto João Jardim no dia anterior, em Lamaceiro, nem da comparação que fez entre um “arranjo urbanístico” que não envergonharia as grandes cidades da Europa que Jardim conhece. É Jardim a pôr Lamaceiros na Europa, para orgulho dos que o ouvem. Tiago não ouviu nem sabe que palavras empregou para justificar uma decisão que este estudante do 3.º ano de Gestão da Universidade da Madeira apoia sem reservas. Tal como o rapaz de camisola verde que empurrava o carro de mão, Tiago não ouviu Jardim.

Tem 22 anos. Já esteve em Lisboa, viveu “lá” dos 4 aos 14 anos, haveria de voltar aos 18 para estudar no ISEG, mas decidiu regressar à Madeira. Tem uma cara de anjo que uns óculos de aros finos ajudam a dar seriedade. Ele quer parecer sério, mas denuncia-se no sorriso. É curioso. Acerca do que vem de fora e do que esse “lá fora” pode pensar do “ali dentro” que para Tiago é a sua ilha. Uma ilha que apresenta como transformada para o bem “pelo doutor Alberto João”; uma ilha onde algumas fronteiras físicas se quebraram e que a Internet, acessível nos lugares mais recônditos, ajudou a tirar do isolamento. Por isso, Tiago diz que “sair da Madeira era o sonho de uma geração que não é a sua”. O seu é “sair da casa dos pais, viver por conta própria.” Afinal, nada que espante um jovem do Continente, questiona com um encolher de ombros. Ele tem uma vantagem: maior qualidade de vida e mais uma hora de sol por dia.

Publicado no DN de Março de 2007

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