O arroz-doce do Micajó

Todas as semanas, às sextas, o forno acendia-se.
Era o dia de amassar pão para pôr na arca e alimentar uma casa de muita gente durante uma semana. Era assim em casa da minha avó, que já fora da avó dela e agora está lá, sem ninguém, portas fechadas, erva a crescer.
Quando passo, lembro os dias em que o forno se acendia mais do que às sextas. Era quando havia festa e havia labaredas naquela pequena nave de tijolos com uma porta que se fechava com um ferrolho onde era “proibido” tocar. Havia sempre muita gente e tractores carregados de cepas velhas das vinhas e as vizinhas colocavam-se em fila ao longo das mesas grandes improvisadas no pátio, mesmo no centro da aldeia. Mesas para moldar ferraduras de massa de manteiga, broas de milho, e para bater o pão-de-ló. Ali sabiam-se as novidades da terra. Era “O jornal”, como ironizava o meu avô, mais dado ao sossego e às poucas falas. Claro que os netos, pequenos, iam todos. Tinham idades em escadinha e eu era a mais velha. Eles só atrapalhavam, mas a minha avó ria com aquele riso inteiro, lenço na cabeça cheio de farinha que eu dizia estar sempre mal atado. Ela respondia que ali não era para se estar bonito e eu caladinha lá moldava a minha ferradura e quando já não havia mais ferraduras para o forno ela fazia arroz doce.
Um tacho enorme, ingredientes medidos a olho que era a medida mais certa. “Sai sempre bem”, dizia. E saia.
Depois era uma taça para cada neto e em cada uma a inicial do nome de cada um. Oito, mais os primos dos primos que apareciam. Os pratos desses ficam sem letras para serem baptizados na hora.
O meu tinha um I, desenhado como se ensinava antes na escola, cheio de curvas, um I desenhado a canela no amarelo do arroz. E enquanto ela ia desenhando as letras eu ia por trás e sublinhava-as com um pouco mais daquele pó castanho que se pegava aos dedos e que eu lambia. “Não ponhas mais canela que faz mal”, ralhava.
Depois da escrita era esperar que arrefecesse. Nós, quietos, a ver se o quente passava para não fazer mal à barriga e eu sempre indecisa, sem saber se o meu I era o J do meu primo. Que querem? As curvas eram parecidas.

Era o Jota de Jorge. A minha avó chamava-o assim porque não sabia dizer o primeiro nome dele. Amílcar. Era preciso dar muitas voltas à língua e ela não estava para isso. Então chamava-lhe Jorge, ou Micajó, quando queria ser mais carinhosa.

E o Micajó nunca a largava. Com os caracóis loiros e uns óculos sempre na ponta do nariz, andava de mão dada com ela para todo o lado. Era o terceiro na escadinha de idades, o que lhe dava aí uns quatro anos. Sempre de calções, sempre curioso, a olhar o mundo com a cabeça de lado, porque assim parecia que os óculos não caiam.
O Micajó chegava com a minha avó a Lisboa e num café do campo Grande pedia-lhe sempre a mesma coisa. “Vó, quero um iogurte.” Tinha sempre a mesma reposta. “O quê filho? A avó não sabe dizer isso.” Ele insistia. Ela ria. E pedia ao balcão : “É um iocurto para o meu Jorge.”

One response to “O arroz-doce do Micajó

  1. Gostei muito do artigo! Obrigado por Partilha.

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