Monthly Archives: October 2011

O tempo e um rebuçado de mentol

“Sabes, uma vez passei três dias em cima de uma árvore e a boca sabia-me a sangue.”

Ele não tinha ideia de quantas vezes já me contara aquela história. Nem eu. Os anos passavam e escutava-a como se fosse nova. Falava e não desviava os olhos da televisão, mas duvido que soubesse quem marcara o golo pelo Sporting. Festejou, claro, mas essa alegria merecia castigo. Ele não podia ter a futilidade dos que vibram com a bola. Não ele que sabia o que era ter a boca a saber a sangue. Não pela fome, mas pela sede. Estar num equilíbrio difícil, silencioso, agarrado a uma arma como à vida, se se poder deixar vencer pelo sono, estômago dormente com falta de comida, força nos limites mínimos, concentração a raiar a loucura … “mas se tu soubesses o que é não ter água para beber… Morre-se mais depressa de sede do que de fome.”

Lá estava ele e uma das primeiras verdades que me ensinou quando eu ainda não tinha idade para perceber o que era morrer, quanto mais morrer de sede. Nem ele, quando estava em cima da árvore, uns vinte anos e a levarem-no de casa para o mato, quase uma criança na sua ingenuidade rural. Era assim que falava: do mato.

E era Natal por esses dias, mas nem a lembrança das filhoses da mãe, do perú que ele aprendera a embebedar antes de ser caçado para o forno. Se ao menos pudesse ele, ali em cima daquela árvore, embebedar-se com o whisky de quinta categoria que lhe ia chegando sempre, contrabandeado, para esquecer a sede e o amargo de boca. Quantas vezes despejara garrafas só para esquecer onde estava, o que fazia? Mas era com água que sonhava. Podia vir em latrinas sujas, podia vir dos rios infectados com doenças de que ele mesmo antes de saber o nome já perdera o medo. Medo de quê quando pode vir um tiro de qualquer lado e acabar com tudo? Ele não tinha medo mas precisava de whisky. Afinal não ter medo pode ser assustador e agora o que precisava era de água porque um soldado não pode simplesmente acabar caído de uma árvore que nem um tordo. Também nunca quis tanto uma caneta e aquele bloco de folhas de carta. Não há melhor maneira de escrever sobre uma alucinação a não ser no momento em que ela está ali a alucinar. Sabia que não iria esquecer aquela sede enquanto fosse vivo, mas tudo o que contasse ou lembrasse depois seria pouco diante daquela presença.

E talvez por isso contasse tanto, logo que desceu da árvore, não fosse aquela memória diluir-se. Há coisas que matam que não queremos matar.

Contraditório? Seja, mas é assim. E lá estava ele, tantos anos depois, comando da televisão na mão, pés cruzados no conforto do sofá, a não deixar apagar. E sempre a mesma interlocutora. Ela havia de reter essa guerra onde ele ainda vivia, apesar das rugas que vieram, dos cabelos que foram, do álcool que se acumulou e quase lhe tirou o fígado, apesar do medo que voltou porque o mato estava longe e já não havia tiros, mas a vida escoava, rotineira, sem história. O medo da sem-aventura é o pior por não ter razão de ser.

É o medo dos poucochinhos, esse lume brando em que só um cancro pode aparecer como grande papão. E apareceu e a guerra perdeu valor. Por isso lamenta-se: se ao menos pudesse ter escrito essa sede nas mesmas folhas que usava para mentir para casa sobre uma guerra que ele ficcionava e onde tudo corria bem e a boca não amargava. É que agora, depois do cancro, isso não tinha a mesma importância. Daí a repetição. Era preciso repetir para fixar. Tinha o comando na mão, mas mudou de canal e calou-se. Hão-de vir outros golos a pedir lágrimas para o ilibar da alegria e desviá-lo do facto desses dias de sede estarem a perder importância na sua biografia. Mesmo que ele não queira, mesmo que o passar do tempo se assemelhe a um rebuçado de mentol a matar maus hálitos.

A gargalhada

Uma imensa gargalhada. Gasta pelo tempo, pela fita magnética que foi perdendo o magnetismo de tanto roçar na cabeça do leitor.

É a gargalhada velha de uma criança. Uma gargalhada cheia de requebros e de cortes. Não me faz rir. Ainda não sei porquê. Há algo nela que me prende. Faço rewind. Volto a ouvir a fita fina até me reconhecer naquele riso. Olho para o meu tio. Ele sorri. Espera a minha reacção e eu não sei que reacção lhe dar. Um dia eu dei muitas gargalhadas e ele decidiu imortalizá-las ali ate ganhar coragem para o dia de hoje. Não que tenha pensado nisso quando quis mostrar as maravilhas da sobrinha mais velha aos amigos. E como ela ria… E lá atrás no som, sumida, a dele que ele não queria gravar mas que lhe saia. Tal como o choro, o riso contagia e ambos trazem lágrimas. Eram lágrimas o que havia agora nos meus olhos ao olhar os dele, a evitar os dele e ele também brilhante nos olhos. E a gargalhada a ecoar pela casa, a apanhar-me desprevenida. Há fotos de rostos, mas não havia muitas fotografias de sons, dos nossos.

Não sou uma bebé digital, nunca vi uma imagem minha em movimento quanto mais uma gargalhada, um som, uma palavra. E lá estava eu no meu contentamento gravado, imortal até que a fita fique tão fina que… pois, agora ela pode ser gravada e ficar outra vez imortal noutro registo que não o da fita. Promete sobreviver-me ainda que já não esteja completa, com os cortes, os soluços do atropelo do riso.

E os meus olhos a brilharem e os do meu tio que não tira o riso dos olhos dele. Ele era um puto a brincar com a sobrinha. Agora não. Mas é esse puto que ele revive e é a sobrinha que ele vê a rir até perder o fôlego em gargalhadas que para ele eram únicas e mereciam ficar para sempre. E para sempre é hoje. E eu e ele estamos lá, com a gargalhada a tocar até a fita partir, a rir e a chorar.

A chorar de rir

Basta

Não fez as malas porque não as tinha. Passou-se.

Um “basta” que a fez aproveitar a porta aberta para descer as escadas sem olhar para trás. Não iria ficar sozinha nem mais um dia. Cansara-se de mãos passadas pelo pêlo, de um “até já e porta-te bem”. Não se lembra do número de vezes em que assistiu à cena de abrir gavetas e portas de armários.
Primeira calava-se. Depois já não conseguia segurar os protestos. Em vão. A mala fechava-se, a correria atrás de chaves e de papéis repetia-se até a porta bater e ficar o silêncio.

Três anos de vida assim. Nunca lhe faltara nada, é certo. Comida e conforto. Chegou a ir. Ficar em casa de família, de amigos, sempre que o tempo de viagem era maior e a solidão podia pesar mais. Escusado dizer que não gostava. A família não era a dela, nem os amigos, embora depois de algum convívio ficasse também o afecto por mais alguém.
Dizem que é demasiado independente, mas só ela sabe que não é tanto assim.
Há uma imagem a preservar e não está disposta a sinais de fraqueza.

Pelo menos que a deixem por casa. Se quiserem que a visitem. Ela não agradece, mas sempre dá para distrair da comida requentada e das vistas que não mudam ainda que as janelas sejam muitas e dêem para vários lados. Nunca pensou em ter esta vida prisioneira. Acha mesmo que nunca tinha pensado. Não foi feita para isso. Se sentir já não é fácil, pensar então… Daí o grito do Ipiranga à enésima mala.

Desceu as escadas decidida. Era vingança. Era ameaça. Eram as duas coisas. Parece que os livros rasgados, as lombadas desfeitas, os fios cortados, a melhor comida irrecuperável, a roupa sem remendo possível, nada disso demovia estas escapadelas sem prazo nem aviso. E isso dava-lhe coragem.

Era agora. Que a agarrasse se pudesse. Ela sabia de fintas, subia paredes se preciso fosse, fugir era fácil. Mas não era bem isso que queria. Era dar o sinal, um basta, e mal sabia que estava quase a conseguir.
A outra olhava o relógio. Tentava seduzi-la, chamá-la à razão. Eram horas.
Ela aprendera a ler os sentimentos da outra, a tal, a que pensava que podia tudo. Via que estava nervosa. Ora bem. E continuava a andar em direcção à rua, à derradeira porta que a afastava de todo o conforto.
Olhou para trás. Não devia.
Ali estava a fraqueza, a dela. Agora sabia que estava nas mãos da todo-poderosa. Mesmo assim não subiu as escadas. Esperou.
Havia de ir ao colo. Sentiu o alívio da outra, a mão pelo pêlo.

Ela lambeu-lhe o rosto e deu-lhe aquele miau de resignação. Haveria de estar à porta quando a chave desse a volta uns dias depois, como sempre.

Mistérios de Lisboa

“Lisboa é grande?” Ela brincava com as peças do lego e não desviava os olhos da construção que já sabia de cor. Cotovelos apoiados na mesa, pés a balançar no ar. “Muito grande”, e a mãe sem tirar os olhos da revista. “Do tamanho de quê?”, a cabeça de lado, a mirar o já construído. “É grande, é uma cidade, a maior de Portugal, com muita gente a viver lá, e muitos carros, e prédios altos.” A mãe estava determinada a não deixar uma pergunta da filha sem resposta. “Mas grande como, maior que Torres?” E os olhos já não estavam o lego. Olhavam a mulher de quem esperava todas as respostas sobre o mundo. “Sim, muito maior que Torres.” Hmmm… o silêncio não era sinal de desistência, a mãe sabia. Ela sabia que a filha não estava esclarecida. Os pés a balançar, a distracção ensaiada, era sinal disso. “Maior que de Torres até lá?” Há um limite para paciência de mãe ou pelo menos um ponto em que a mãe sabe que não vai mais ter reposta para a filha de três anos que era eu. Ela queria saber da grandeza de uma cidade que aprendera como um sonho das histórias dos adultos, dos filmes, a cidade onde ia muitas vezes para ver um médico de bata branca. Gostava dele mas não gostava do cheiro. Disseram-lhe que era éter e ela passou a odiar éter. E só por chorar por causa do éter, levaram-na ao Jardim Zoológico e para que não pensasse que Lisboa era só feita de éter. Ela já desconfiava. Não devia ser por causa desse cheiro que a mãe queria ir viver lá apesar dos protestos do pai, que a avó dizia ter saudades da terra onde não havia só sirenes que haviam de levar alguém até ao éter. Por isso mostraram-lhe o rio, e as ruas e as pessoas e os cafés onde havia máquinas de davam ovos que davam brinquedos e ele aprendeu a dizer que um dia queria ir para lá. quando fosse grande queria ser de Lisboa. Quando fosse grande como Lisboa. A mãe haveria de gostar, Talvez fosse com ela. O pior era o pai que não queria ir. Um dia ela foi. Já era quase grande e ainda não fazia ideia do tamanho de Lisboa. Sabia só que era a terra da avó e por isso não acreditava quando lhe diziam que quem era de Lisboa não tinha terra. E fez bem. Hoje quando sai tem saudades de Lisboa como quem tem saudades da terra. Dos cheiros, das pessoas, do anonimato, da língua afiada da porteira. Dos becos com histórias expostas, dos bairros que são como aldeias ou dos vizinhos que não se querem falar porque não querem que seja como lá na aldeias de onde muitos vieram. Ela é das que gosta do anonimato, Do “Bom dia e um galão”, isso que poucos confessam mas que não quer dizer mais a não ser “Preservo-me”. Deve ser uma protecção, defesa, qualquer sinónimo associado ao pudor da não exibição da vida. A tal associação ao “cuidado” que lhe recomendaram quando saiu de casa. E depois de Lisboa vieram outras cidades ainda maiores, sempre com Lisboa a servir de escala de grandeza. Havia as mais pequenas, as mais cosmopolitas, as mais feias, as mais caóticas, as mais frias, as mais quentes. Lisboa o termo de comparação. Talvez o dobro do Porto, sem o charme de Paris, um encanto como o de Roma, mínima em relação a Tóquio, muito menos cosmopolita que Nova Iorque, mas nunca a digam menos bonita que… Diferente, é isso. “De que tamanho e Lisboa?” foi a primeira formulação de uma tentativa de entendimento de algo complexo. Seguiram-se outras. Mistérios desfeitos, mas o de Lisboa manteve-se. Apesar do mal que lhe vão fazendo, Lisboa sobrevive revelando uma enorme capacidade de regeneração. Já viram quantas feridas? É coisa viva. E tantos anos depois, adoptando a cidade como terra, posso andar por muitas, viver em tantas, mas continua sem resposta a pergunta feita à mãe, um dia, faz muito tempo. “Lisboa é do tamanho de quê?” Se isto fosse um filme agora entrava o silêncio e talvez o genérico.

Daqui, de Deauville

Os portões estão para trás, as grandes janelas abertas revelam interiores cheio de sofás, espreguiçadeiras saem para as varandas, carros entram e saem de jardins, ocupam as ruas estreitas. Cavalos e descapotáveis exibem-se em frente ao casino. Aqui, nesta que se diz a praia que inventou os banhos de mar, cidade de quatro mil moradores fixos que aumenta de população sabe-se lá quantas vezes sempre que faz sol ou é fim-de-semana em Paris. Estamos no litoral mais próximo da capital francesa. Com Cabourg, o must da costa da Normândia onde um dia desembarcou uma guerra muito antes de Marcel Proust, frequentador daquelas praias no início do século XX, as transportou para a sua obra maior. É a zona de banhos de Balbec que podemos ler em “La Recherche”, com o mesmo boardwalk onde ele esperou e desesperou pelo seu apaixonado numa história de amor só muito mais tarde contada. Parece que o aor anda sempre por aquelas paragens e torna-se sempre inspirador. veja-se o que aconteceu com Coco Channel que por aqui se apaixonou, desenhou chapéus e abriu a sua segunda loja depois de Paris, uma das primeiras casas de luxo Deauville que agora tem uma marca em cada esquina anunciando o dinheiro que por ali anda. Também Yves Saint-Laurent tinha aqui casa e Ian Fleming, ao inventor do 007, o espião de Sua Majestade, se inspirou no casino local para escrever Casino Royale. Claro que Deauville inspira. Areal imenso, mar com um cheiro que se reconheceria dos filmes se os filmes cheirassem. Talvez cheirem mesmo, ou então qual a razão que faz sentir familiar aquela maresia que não é a das minhas praias? São as primeiras impressões de alguém que chega e estranha a singular cumplicidade entre mar e flores e uma arquitectura que não cede a especulações.Nenhuma casa ali pode ser demolida. se é para construir de novo que seja longe do centro e de acordo com rígidas normas arquitectónicas. Uma cidade de moda e de artes, com dois festivais de cinema, capital de horse ball em França e muitas mais coisas que não sei ainda. Desço a estrada que me leva da colina do Hotel do Golf lamentando não ser tempo de praia, lamentando não ter mais tempo. O taxista olha pelo retrovisor e parece adivinhar o que por aqui vai. “Há-de voltar.”

Sem peso

Num dia de Outubro olhei o céu de frente e vi estrelas. Era noite.

A água da piscina estava morna. Com o corpo sem peso, senti-me uma meia existência, mas nem por isso menos completa. Só atenta ao essencial.

Um som uterino de ouvidos dentro de água, a cabeça a viajar por dentro dela, à aventura.

E acho que tudo por causa desse olhar de frente para o céu que não é natural aos humanos e também dessa perda de massa.

Sem peso parece que não há medo.

Gente muito pequena

Havia um exército de gente minúscula e a minha missão era descobrir como e quando ele aparecia. Eram homens e mulheres e crianças e cães e gatos, mais carros e bicicletas e cabiam no cabo de electricidade. Isso eu sabia. Depois transformavam-se em gente grande, em coisas e bichos de tamanhos normais. Eu via isso. Entravam pelo cabo que ia da tomada à televisão e lá dentro a luz fazia-os engordar, ter o tamanho das coisas normais.

Pequena espia, queria descobri-los na fila indiana da espera para entrar no tal fio branco, mais fino que um dedo, e então haveria de contar ao meu pai até o fazer acreditar naquilo que ele negava.

Tinha de ser à noite, quando tudo estava em silêncio menos um cão que ladrava sempre, ao longe e me dizia que o mundo continuava e eu não estava num sonho. 
Eu esperava que os meus pais fossem dormir.
Fingia um sono que não tinha depois do hino de fim e emissão.
Dava-lhes um tempo e ia até à porta do quarto.
O ressonar sossegava-me o bater do coração.

Então eu ia de cócoras até à sala e punha-me à espreita atrás da televisão. Ela estava em cima de uma mesa com rodas onde havia também um aparelho que o meu pai me disse que servia para que a electricidade não viesse com mais força do que devia e rebentasse a televisão. Era um objecto feio e chamava-se estabilizador.

Passei noites assim, alerta máximo até a minha mãe me encontrar a dormir na sala. Ela achava que eu era meio sonâmbula e até me levou ao médico. Eu odiava médicos. Eles vinham com seringas e apertavam-me a barriga. Não aquele o sono que só me mandava desenhar e isso eu não me importava. Era o meu segredo. Nunca falei a ninguém. Temia que os homens pequeninos fugissem com medo e eu queria saber tudo sobre aquele exército de vida que entrava diariamente na minha televisão e sabia sempre onde eu estava. Esse sim era o grande mistério.

Cada homem ou mulher que falava na televisão falava para mim. Eu bem me escondia debaixo da mesa, atrás do sofá, mas quando pensava que os tinha despistado, lá estavam eles, de olhos fixos em mim. Como é que eles sabiam sempre onde eu estava? Isso ainda fui capaz de perguntar ao meu pai que me explicou mas eu não entendi bem. Para mim era daqueles mistérios iguais aos que faziam com que os adultos soubessem sempre em que loja se comprar o quê. Se eu queria um lápis de cor, a minha mãe sabia onde o arranjar. Mais difícil ainda: ela sabia onde comprar a caderneta de cromos da Heidy e os lenços de pano do meu avô. Ela dizia-me que quando eu crescesse também iria saber isso. Mas o que ela não sabia é que eu andava à cata do tal exército de gente minúscula e que era por isso que eu às vezes era meio estranha.

Mas eu sabia que os homens muito pequeninos que depois engordavam existiam. Só não sabia a que horas entravam e a culpa era do sono que me fazia adormecer quando estava quase quase na hora.

“O Brasil é um país vira-lata”

Foi há um ano que conversei pela segunda vez com Laurentino Gomes, o escritor que acaba de vencer o Prémio Jabuti para a categoria de reportagem com o livro 1822. Fica um resumo dessa conversa, publicada em Setembro de 2010 no Diário Económico.

APÓS O SUCESSO QUE FOI “1808”, LAURENTINO GOMES VOLTA À HISTÓRIA DO BRASIL COM UM LIVRO QUE É UMA PROVOCAÇÃO PARA A IDENTIDADE BRASILEIRA. CHAMA-SE ” 1822 ” E É UMA REPORTAGEM SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Laurentino Gomes não esconde a ansiedade. Depois do sucesso que foi “1808”, o livro onde o ex-jornalista da Abril narra a ida da família real portuguesa para o Brasil, espera o que poderá acontecer com este recentíssimo ” 1822 “, outra reportagem, como gosta de lhe chamar, desta vez sobre a independência da ex-colónia. “É uma ansiedade que vem da responsabilidade”, refere numa conversa com vista para o Douro, uma paisagem que compara com aquela onde se refugia para escrever. Desta vez foram seis meses de solidão no interior de S. Paulo. Uma rotina de um capítulo por semana, depois de três anos de pesquisa, de viagens, de leituras, muitas das quais vindas de uma bibliografia já usada no livro anterior. “O primeiro livro foi uma surpresa para todo o mundo. Agora, ao segundo, o autor fica mais exigente, o leitor tem expectativas altas, quer que a leitura continue prazeirosa”, continua, insistindo que este livro assenta numa pesquisa profunda. “É assim que me protejo”. Desta vez, escritor a tempo inteiro, teve todo o tempo para perceber os sítios, as motivações, chegar a revelações. Como esta, a de que “o Brasil é uma construção completa de Portugal”.

Assume que para muitos brasileiros isso pode soar a provocação. Mesmo assim insiste em dizer que ao contrário da maioria dos estados americanos, onde houve heróis nacionais da independência, no Brasil eles não existiram. “O grande responsável pela independência do Brasil foi D. Pedro, um português. Se a corte portuguesa não estivesse naquele momento instalada no Brasil, hoje o Brasil estaria desintegrado em vários estados. Ele foi o responsável, pelo seu carisma, pela unidade do Brasil enquanto nação. Impôs a integridade nacional sempre q ela esteve ameaçada.” E essa falta de heróis gerou uma identidade e uma condição com a qual o povo brasileiro não convive bem. Para Laurentino Gomes , explica também aquilo que considera ser o problema de auto-estima que existe”. Porquê? Porque ser “um país vira-lata com uma história vira-lata”.

Provocação ou não o facto é que duas semanas após estar à venda no Brasil, o livro já está em primeiro lugar nos tops de vendas e chaga a Portugal com a herança do anterior. Cerca de 600 mil unidades vendidas nos dois países, em várias edições. Um número pouco comum, mas que 1822 quer ultrapassar. Como o anterior sairá em vários suportes. Papel e e-book (este já disponível no Brasil). Falta um terceiro para completar o que pretende ser a narrativa das três datas mais emblemáticas da independência e consolidação do Estado Brasileiro. Será outro número, “1889”, a data da implementação da República no Brasil.

Um homem e uma mulher

Um homem e uma mulher refugiam-se numa praia depois de terem perdido a sua mulher e o seu homem. Um e outro não se conhecem. Um e outro têm filhos e encontram-se num areal, pontualmente, primeiro, regularmente, depois. Ela era para ir embora antes, mas o imprevisto fê-la ficar no único sítio possível. Em casa dele, por uma noite. Ele e ela atraíram-se. Ela culpou-se no fim… Um filme que ficou para a história do cinema Um Homem e uma Mulher, de Claude Lelouch, com Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e uma banda sonora com Vinicius de Moraes, Francis Lai e Baden Powell. Ganhou mais de 40 prémios em festivais de cinema, entre eles Cannes.  Não sou muito destas coisas, mas gostei de ter pisado o chão que eles pisaram, em Deauville. Isso e uma vontade enorme de rever o filme e ouvir esta “un homme et une femme

Quando voltar a Brooklyn

O homem da lavandaria cobiçou-me o saco da roupa. Não o conteúdo. Era o mesmo o saco que eu arrastava naqueles cem metros entre casa e a casa das máquinas onde com moedas e espera os pacientes como santos lavavam e secavam o que não podiam lavar em casa, espaços exíguos onde há que escolher entre uma cómoda para guardar a roupa ou uma máquina para a lavar.

Eram mais ou menos assim os meus 40 metros quadrados a dividir por duas existências cada uma com as suas roupas. Um quartos onde cabia uma cama e a tal cómoda, um fogão encostado à porta da entrada, um frigorífico onde garrafas e latas viviam num equilíbrio precário. Era ali, na enorme mesa da sala, com um enorme sofá, as duas peças desmesuradas, passava a maior parte das minhas horas. Tirava um curso de mim. Estava onde queria, com quem queria, a fazer o que queria.

O pior era a roupa.  Multiplicava-se, ganhava vida própria, tomava conta do espaço e a minha maneira de a domesticar era carregá-la até à lavandaria do chinês que não sabia pronunciar o meu nome. Carregava-a mas não esperava. Luxo dos luxos. Por mais uns trocos eu não ficava a olhar para uma roleta de roupa molhada. Escolhia ir até ao café da esquina, um lugar com vontade de ar europeu, enfeitado com scones acabados de fazer, peças de mobiliário sem par recolhidas de algum armazém de velharias, louça de fim de fábrica, tudo num conjunto harmonioso que me acolhia da minha ligeira claustrofobia dos 40 metros quadrados de casa. Lavar a roupa era só o pretexto para umas boas horas de leitura a ver a chuva a cair e os pingos a escorregar pelas vidraças largas. A chuva decidira cair toda naquele mês.

Brooklyn à chuva. Pensei pôr uma cadeira na varanda que abanava a cada passo, um mini-terraço de onde se avistava o Chrysler, o mais bonito edifício de Nova Iorque, mas a chuva não dava tréguas. Gostava de ir lá à noite, com um capuz que o João me punha na cabeça enquanto ele fumava um cigarro. Fumar com vista para as luzes de Manhattan… Cada vez mais quando penso em Nova Iorque, quando digo que gosto de Nova Iorque, penso em Brooklyn como o meu sítio. De lá vê-se o céu, ainda que quase nunca as estrelas. Mesmo da varanda que abana, mesmo quando os 40 metros são claustrofóbicos, mesmo que não goste de carregar o saco de roupa para a lavandaria. Sei também que o chinês o vai guardar bem guardado, escondido de outros olhares que cobiçam não a roupa mas o saco que a carrega.
Subo as escadas, saco às costas, pouso-o no lugar mais próximo da janela e mesmo na hora de sair de Brooklyn penso que será hora de voltar.

Olho o relógio de um sítio bem longe e vejo o quanto estou atrasada.