Quando voltar a Brooklyn

O homem da lavandaria cobiçou-me o saco da roupa. Não o conteúdo. Era o mesmo o saco que eu arrastava naqueles cem metros entre casa e a casa das máquinas onde com moedas e espera os pacientes como santos lavavam e secavam o que não podiam lavar em casa, espaços exíguos onde há que escolher entre uma cómoda para guardar a roupa ou uma máquina para a lavar.

Eram mais ou menos assim os meus 40 metros quadrados a dividir por duas existências cada uma com as suas roupas. Um quartos onde cabia uma cama e a tal cómoda, um fogão encostado à porta da entrada, um frigorífico onde garrafas e latas viviam num equilíbrio precário. Era ali, na enorme mesa da sala, com um enorme sofá, as duas peças desmesuradas, passava a maior parte das minhas horas. Tirava um curso de mim. Estava onde queria, com quem queria, a fazer o que queria.

O pior era a roupa.  Multiplicava-se, ganhava vida própria, tomava conta do espaço e a minha maneira de a domesticar era carregá-la até à lavandaria do chinês que não sabia pronunciar o meu nome. Carregava-a mas não esperava. Luxo dos luxos. Por mais uns trocos eu não ficava a olhar para uma roleta de roupa molhada. Escolhia ir até ao café da esquina, um lugar com vontade de ar europeu, enfeitado com scones acabados de fazer, peças de mobiliário sem par recolhidas de algum armazém de velharias, louça de fim de fábrica, tudo num conjunto harmonioso que me acolhia da minha ligeira claustrofobia dos 40 metros quadrados de casa. Lavar a roupa era só o pretexto para umas boas horas de leitura a ver a chuva a cair e os pingos a escorregar pelas vidraças largas. A chuva decidira cair toda naquele mês.

Brooklyn à chuva. Pensei pôr uma cadeira na varanda que abanava a cada passo, um mini-terraço de onde se avistava o Chrysler, o mais bonito edifício de Nova Iorque, mas a chuva não dava tréguas. Gostava de ir lá à noite, com um capuz que o João me punha na cabeça enquanto ele fumava um cigarro. Fumar com vista para as luzes de Manhattan… Cada vez mais quando penso em Nova Iorque, quando digo que gosto de Nova Iorque, penso em Brooklyn como o meu sítio. De lá vê-se o céu, ainda que quase nunca as estrelas. Mesmo da varanda que abana, mesmo quando os 40 metros são claustrofóbicos, mesmo que não goste de carregar o saco de roupa para a lavandaria. Sei também que o chinês o vai guardar bem guardado, escondido de outros olhares que cobiçam não a roupa mas o saco que a carrega.
Subo as escadas, saco às costas, pouso-o no lugar mais próximo da janela e mesmo na hora de sair de Brooklyn penso que será hora de voltar.

Olho o relógio de um sítio bem longe e vejo o quanto estou atrasada.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s