“O Brasil é um país vira-lata”

Foi há um ano que conversei pela segunda vez com Laurentino Gomes, o escritor que acaba de vencer o Prémio Jabuti para a categoria de reportagem com o livro 1822. Fica um resumo dessa conversa, publicada em Setembro de 2010 no Diário Económico.

APÓS O SUCESSO QUE FOI “1808”, LAURENTINO GOMES VOLTA À HISTÓRIA DO BRASIL COM UM LIVRO QUE É UMA PROVOCAÇÃO PARA A IDENTIDADE BRASILEIRA. CHAMA-SE ” 1822 ” E É UMA REPORTAGEM SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Laurentino Gomes não esconde a ansiedade. Depois do sucesso que foi “1808”, o livro onde o ex-jornalista da Abril narra a ida da família real portuguesa para o Brasil, espera o que poderá acontecer com este recentíssimo ” 1822 “, outra reportagem, como gosta de lhe chamar, desta vez sobre a independência da ex-colónia. “É uma ansiedade que vem da responsabilidade”, refere numa conversa com vista para o Douro, uma paisagem que compara com aquela onde se refugia para escrever. Desta vez foram seis meses de solidão no interior de S. Paulo. Uma rotina de um capítulo por semana, depois de três anos de pesquisa, de viagens, de leituras, muitas das quais vindas de uma bibliografia já usada no livro anterior. “O primeiro livro foi uma surpresa para todo o mundo. Agora, ao segundo, o autor fica mais exigente, o leitor tem expectativas altas, quer que a leitura continue prazeirosa”, continua, insistindo que este livro assenta numa pesquisa profunda. “É assim que me protejo”. Desta vez, escritor a tempo inteiro, teve todo o tempo para perceber os sítios, as motivações, chegar a revelações. Como esta, a de que “o Brasil é uma construção completa de Portugal”.

Assume que para muitos brasileiros isso pode soar a provocação. Mesmo assim insiste em dizer que ao contrário da maioria dos estados americanos, onde houve heróis nacionais da independência, no Brasil eles não existiram. “O grande responsável pela independência do Brasil foi D. Pedro, um português. Se a corte portuguesa não estivesse naquele momento instalada no Brasil, hoje o Brasil estaria desintegrado em vários estados. Ele foi o responsável, pelo seu carisma, pela unidade do Brasil enquanto nação. Impôs a integridade nacional sempre q ela esteve ameaçada.” E essa falta de heróis gerou uma identidade e uma condição com a qual o povo brasileiro não convive bem. Para Laurentino Gomes , explica também aquilo que considera ser o problema de auto-estima que existe”. Porquê? Porque ser “um país vira-lata com uma história vira-lata”.

Provocação ou não o facto é que duas semanas após estar à venda no Brasil, o livro já está em primeiro lugar nos tops de vendas e chaga a Portugal com a herança do anterior. Cerca de 600 mil unidades vendidas nos dois países, em várias edições. Um número pouco comum, mas que 1822 quer ultrapassar. Como o anterior sairá em vários suportes. Papel e e-book (este já disponível no Brasil). Falta um terceiro para completar o que pretende ser a narrativa das três datas mais emblemáticas da independência e consolidação do Estado Brasileiro. Será outro número, “1889”, a data da implementação da República no Brasil.

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