Gente muito pequena

Havia um exército de gente minúscula e a minha missão era descobrir como e quando ele aparecia. Eram homens e mulheres e crianças e cães e gatos, mais carros e bicicletas e cabiam no cabo de electricidade. Isso eu sabia. Depois transformavam-se em gente grande, em coisas e bichos de tamanhos normais. Eu via isso. Entravam pelo cabo que ia da tomada à televisão e lá dentro a luz fazia-os engordar, ter o tamanho das coisas normais.

Pequena espia, queria descobri-los na fila indiana da espera para entrar no tal fio branco, mais fino que um dedo, e então haveria de contar ao meu pai até o fazer acreditar naquilo que ele negava.

Tinha de ser à noite, quando tudo estava em silêncio menos um cão que ladrava sempre, ao longe e me dizia que o mundo continuava e eu não estava num sonho. 
Eu esperava que os meus pais fossem dormir.
Fingia um sono que não tinha depois do hino de fim e emissão.
Dava-lhes um tempo e ia até à porta do quarto.
O ressonar sossegava-me o bater do coração.

Então eu ia de cócoras até à sala e punha-me à espreita atrás da televisão. Ela estava em cima de uma mesa com rodas onde havia também um aparelho que o meu pai me disse que servia para que a electricidade não viesse com mais força do que devia e rebentasse a televisão. Era um objecto feio e chamava-se estabilizador.

Passei noites assim, alerta máximo até a minha mãe me encontrar a dormir na sala. Ela achava que eu era meio sonâmbula e até me levou ao médico. Eu odiava médicos. Eles vinham com seringas e apertavam-me a barriga. Não aquele o sono que só me mandava desenhar e isso eu não me importava. Era o meu segredo. Nunca falei a ninguém. Temia que os homens pequeninos fugissem com medo e eu queria saber tudo sobre aquele exército de vida que entrava diariamente na minha televisão e sabia sempre onde eu estava. Esse sim era o grande mistério.

Cada homem ou mulher que falava na televisão falava para mim. Eu bem me escondia debaixo da mesa, atrás do sofá, mas quando pensava que os tinha despistado, lá estavam eles, de olhos fixos em mim. Como é que eles sabiam sempre onde eu estava? Isso ainda fui capaz de perguntar ao meu pai que me explicou mas eu não entendi bem. Para mim era daqueles mistérios iguais aos que faziam com que os adultos soubessem sempre em que loja se comprar o quê. Se eu queria um lápis de cor, a minha mãe sabia onde o arranjar. Mais difícil ainda: ela sabia onde comprar a caderneta de cromos da Heidy e os lenços de pano do meu avô. Ela dizia-me que quando eu crescesse também iria saber isso. Mas o que ela não sabia é que eu andava à cata do tal exército de gente minúscula e que era por isso que eu às vezes era meio estranha.

Mas eu sabia que os homens muito pequeninos que depois engordavam existiam. Só não sabia a que horas entravam e a culpa era do sono que me fazia adormecer quando estava quase quase na hora.

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