Daily Archives: October 22, 2011

Mistérios de Lisboa

“Lisboa é grande?” Ela brincava com as peças do lego e não desviava os olhos da construção que já sabia de cor. Cotovelos apoiados na mesa, pés a balançar no ar. “Muito grande”, e a mãe sem tirar os olhos da revista. “Do tamanho de quê?”, a cabeça de lado, a mirar o já construído. “É grande, é uma cidade, a maior de Portugal, com muita gente a viver lá, e muitos carros, e prédios altos.” A mãe estava determinada a não deixar uma pergunta da filha sem resposta. “Mas grande como, maior que Torres?” E os olhos já não estavam o lego. Olhavam a mulher de quem esperava todas as respostas sobre o mundo. “Sim, muito maior que Torres.” Hmmm… o silêncio não era sinal de desistência, a mãe sabia. Ela sabia que a filha não estava esclarecida. Os pés a balançar, a distracção ensaiada, era sinal disso. “Maior que de Torres até lá?” Há um limite para paciência de mãe ou pelo menos um ponto em que a mãe sabe que não vai mais ter reposta para a filha de três anos que era eu. Ela queria saber da grandeza de uma cidade que aprendera como um sonho das histórias dos adultos, dos filmes, a cidade onde ia muitas vezes para ver um médico de bata branca. Gostava dele mas não gostava do cheiro. Disseram-lhe que era éter e ela passou a odiar éter. E só por chorar por causa do éter, levaram-na ao Jardim Zoológico e para que não pensasse que Lisboa era só feita de éter. Ela já desconfiava. Não devia ser por causa desse cheiro que a mãe queria ir viver lá apesar dos protestos do pai, que a avó dizia ter saudades da terra onde não havia só sirenes que haviam de levar alguém até ao éter. Por isso mostraram-lhe o rio, e as ruas e as pessoas e os cafés onde havia máquinas de davam ovos que davam brinquedos e ele aprendeu a dizer que um dia queria ir para lá. quando fosse grande queria ser de Lisboa. Quando fosse grande como Lisboa. A mãe haveria de gostar, Talvez fosse com ela. O pior era o pai que não queria ir. Um dia ela foi. Já era quase grande e ainda não fazia ideia do tamanho de Lisboa. Sabia só que era a terra da avó e por isso não acreditava quando lhe diziam que quem era de Lisboa não tinha terra. E fez bem. Hoje quando sai tem saudades de Lisboa como quem tem saudades da terra. Dos cheiros, das pessoas, do anonimato, da língua afiada da porteira. Dos becos com histórias expostas, dos bairros que são como aldeias ou dos vizinhos que não se querem falar porque não querem que seja como lá na aldeias de onde muitos vieram. Ela é das que gosta do anonimato, Do “Bom dia e um galão”, isso que poucos confessam mas que não quer dizer mais a não ser “Preservo-me”. Deve ser uma protecção, defesa, qualquer sinónimo associado ao pudor da não exibição da vida. A tal associação ao “cuidado” que lhe recomendaram quando saiu de casa. E depois de Lisboa vieram outras cidades ainda maiores, sempre com Lisboa a servir de escala de grandeza. Havia as mais pequenas, as mais cosmopolitas, as mais feias, as mais caóticas, as mais frias, as mais quentes. Lisboa o termo de comparação. Talvez o dobro do Porto, sem o charme de Paris, um encanto como o de Roma, mínima em relação a Tóquio, muito menos cosmopolita que Nova Iorque, mas nunca a digam menos bonita que… Diferente, é isso. “De que tamanho e Lisboa?” foi a primeira formulação de uma tentativa de entendimento de algo complexo. Seguiram-se outras. Mistérios desfeitos, mas o de Lisboa manteve-se. Apesar do mal que lhe vão fazendo, Lisboa sobrevive revelando uma enorme capacidade de regeneração. Já viram quantas feridas? É coisa viva. E tantos anos depois, adoptando a cidade como terra, posso andar por muitas, viver em tantas, mas continua sem resposta a pergunta feita à mãe, um dia, faz muito tempo. “Lisboa é do tamanho de quê?” Se isto fosse um filme agora entrava o silêncio e talvez o genérico.

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Daqui, de Deauville

Os portões estão para trás, as grandes janelas abertas revelam interiores cheio de sofás, espreguiçadeiras saem para as varandas, carros entram e saem de jardins, ocupam as ruas estreitas. Cavalos e descapotáveis exibem-se em frente ao casino. Aqui, nesta que se diz a praia que inventou os banhos de mar, cidade de quatro mil moradores fixos que aumenta de população sabe-se lá quantas vezes sempre que faz sol ou é fim-de-semana em Paris. Estamos no litoral mais próximo da capital francesa. Com Cabourg, o must da costa da Normândia onde um dia desembarcou uma guerra muito antes de Marcel Proust, frequentador daquelas praias no início do século XX, as transportou para a sua obra maior. É a zona de banhos de Balbec que podemos ler em “La Recherche”, com o mesmo boardwalk onde ele esperou e desesperou pelo seu apaixonado numa história de amor só muito mais tarde contada. Parece que o aor anda sempre por aquelas paragens e torna-se sempre inspirador. veja-se o que aconteceu com Coco Channel que por aqui se apaixonou, desenhou chapéus e abriu a sua segunda loja depois de Paris, uma das primeiras casas de luxo Deauville que agora tem uma marca em cada esquina anunciando o dinheiro que por ali anda. Também Yves Saint-Laurent tinha aqui casa e Ian Fleming, ao inventor do 007, o espião de Sua Majestade, se inspirou no casino local para escrever Casino Royale. Claro que Deauville inspira. Areal imenso, mar com um cheiro que se reconheceria dos filmes se os filmes cheirassem. Talvez cheirem mesmo, ou então qual a razão que faz sentir familiar aquela maresia que não é a das minhas praias? São as primeiras impressões de alguém que chega e estranha a singular cumplicidade entre mar e flores e uma arquitectura que não cede a especulações.Nenhuma casa ali pode ser demolida. se é para construir de novo que seja longe do centro e de acordo com rígidas normas arquitectónicas. Uma cidade de moda e de artes, com dois festivais de cinema, capital de horse ball em França e muitas mais coisas que não sei ainda. Desço a estrada que me leva da colina do Hotel do Golf lamentando não ser tempo de praia, lamentando não ter mais tempo. O taxista olha pelo retrovisor e parece adivinhar o que por aqui vai. “Há-de voltar.”