Monthly Archives: November 2011

A dúvida

Ela nunca acreditou. Ficava em silêncio, a mão no queixo com o olhar longe, os dedos inquietos. De vez em quando uma pergunta. “Como é se pode tirar uma costela a um homem e daí fazer uma mulher?”, e os olhos continuavam a ver se viam esse momento que lhe tinham dito estar no princípio de tudo.  Só depois olhava para mim. Esperava uma resposta. Eu olhava para cima, pescoço o mais para trás que podia, pequena demais para responder a alguém que me ensinava quase tudo. Dela eu não esperava perguntas, não a mim. Mas ela não tinha medo daquela exposição. Não se via sábia. Como podia? Não sabia uma letra a não ser o seu A do nome que aprendeu a assinar há muito tempo quando era baby-sitter numa família rica de judeus que fugiram da II Guerra. Trocaram Paris por Lisboa quando as meninas das aldeias iam para a cidade “servir”.

Era assim que dizia. Que tinha “servido”. Filha única de um pai que tinha sido menino rico e a quem uma madrasta má tirara tudo. Contava numa sequência que eu conhecia de cor. Vinha então a história da mãe que não a tinha deixado ir à escola porque uma menina não andava sozinha na rua, na macholice com os rapazes e então a menina em vez de aprender a ler foi para Lisboa tomar conta de crianças mais pequenas do que ela e foi uma dessas crianças, a Mané, quem a ensinou a “assinar”. Ela aprendeu a desenhar essas letras e a falar francês. Duas ou três frases que repetia para mostrar que era verdade o que dizia.

Mas estava a servir e não esquecia essa condição de humildade, servil aos que não se cansavam de lhe elogiar a beleza, a elegância, os modos e a desafiavam para ser mais do que ser mais do que a rapariga de avental branco com folhos. Ela baixava a cabeça. Era aquela que não sabia ler nem escrever e estava ali para “servir” e isso só a a podia fazer baixar os olhos, ela, naturalmente altiva, de uma altivez que se tem ou não se tem. Não se ensina. Baixava os olhos, esperava, recuava, tinha medo de ser gozada e quis alguém da sua condição em vez do oficial da Marinha que lhe propusera casamento. “A mim! Eu que nem sabia ler! Comigo não gozam.” Disse não, mandou-o à vida, sabia qual era o seu lugar. Gostava da cidade mas via no campo a protecção contra o que chamava “a sua ignorância”. Ia voltar ainda que isso a fizesse chorar.

“E dizem que o homem foi à Lua. Inventam cada uma. E depois há quem acredite. Mas também não admira, agora fazem tudo!”, continuava no seu monólogo desafiante. A neta que sabia ler, só tinha de lhe saber explicar. Era essa a sua obrigação ainda que tivesse uma boneca na mão com uns cabelos para pentear. Para ela, a avó, Deus e a Lua estavam no mesmo patamar. Questão de fé. E ela tinha fé e ai de quem duvidasse disso. Tinham-lhe dito que era assim e acreditava. Menos quando estava com a neta. Aí lançava as suas dúvidas à espera de uma explicação mas sem a pedir. E a neta ouvia-a, como a ouvira ensinar-lhe a contar as horas conforme o movimento dos ponteiros do relógio-despertador no quarto do avô, mesmo ao lado do chapeleiro, na mesma mesa de tampo de mármore branco onde apoiava o corpo pequeno, encavalitado numa perna e a outra a abanar no ar, suspensa da cadeira, enquanto a avó lhe ditava cartas para a família em Lisboa.  – “Como estás? Espero que de saúde que nós por cá vamos andando…” Dizia isto com a mesma expressão com que interrogava o mundo, intrigada com o mecanismo que fazia a neta pequena escrever, sem perceber como aquelas letras formavam um sentido numa folha de papel de linhas na letra desalinhada de quem ainda não foi à escola mas já sabe o que ela nunca soube.

“Tu, que sabes ler podes saber tudo”, afirmava. “Diz lá, será possível fazer uma mulher da costela de um homem?” Aí, o olhar já se fixava em mim, inquiridor, impaciente. Afinal, eu que sabia ler não sabia isso? “Toca a aprender”, mandava.  E seguia, com o olhar a duvidar do que afirmava em frente a todos, ser uma certeza. “Como não?”

Menos à neta a quem ensinou o que era a dúvida.

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Os cafés, a Europa e um dia a morrer de frio

Salvaram-me os cafés de Viena.

Os mesmos agora classificados como Património da Humanidade pela Unesco, e onde além de mim num dia de gelo, se sentaram Sigmund Freud, Thomas Bernhard ou Romy Shneider, a alemã que fixou no cinema o rosto da Imperatriz Sissi.

Calhou-me fazer uma reportagem de rua num dia de vinte graus negativos e a cada meia hora lá estava eu a pedir um ‘brauner’, que é como quem diz um café com leite, e a sentir o degelo no nariz, nos pés, em tudo o que era osso. Bastavam dez minutos. Saboreava cada gole, distraída com as conversas dos outros de que não entendia metade, folheando os jornais presos naquelas molas de madeira como quase já não há, via passar o carrinho dos bolos que pela primeira vez ultrapassavam a minha imaginação que vinha dos livros ilustrados de infância. Aquela madeira, o tinir da campainha na entrada, o cheiro a mocha, as mulheres de longas luvas que mesmo no frio não perdiam a elegância… Sentia-me num romance do início de século. Mesmo por dez minutos que repeti as vezes que pude com a desculpa de não congelar. Sobrevivi graças aos cafés de Viena que procuro em cada cidade europeia ou não, que fiquei feliz de descobrir em Nova Iorque, onde vou sempre que posso em Lisboa. Mas só em Viena são como os de Viena. Mais de mil pequenos territórios a preservar contra a onda do snack que foi praga em Lisboa ou as pastelarias de néons.

Pensei nesse dia e num livro, pequena preciosidade, editada em Portugal em 2005, pela Gradiva. Nele George Steiner discute a ideia de Europa. Uma recorrência cada vez mais urgente de definir como a identidade europeia num momento em que muitos dos seus valores parecem estar em agonia. O desafio é dar respostas, recorrendo o menos possível à abstracção. E George Steiner começou pelas cafetarias e cafés. Onde se incluem as de Viena, as de Lisboa, as de Paris.

É isso que George Steiner faz em A Ideia de Europa, livro que recupera o texto – e o título – de uma palestra que o escritor proferiu no Nexus instituut de Amesterdão, durante a presidência holandesa da União Europeia, em 2004. “Enquanto existirem cafetarias, a ‘ideia de Europa’ terá conteúdo”, escreve um dos homens que mais têm reflectido sobre a cultura europeia e que aponta o café como o primeiro substantivo a associar à ideia de Europa.

A cafetaria com todo o seu peso literário é início de um ensaio que faz a exaltação da cultura e da memória enquanto legado. “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (…). Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘Ideia de Europa'”.

É o primeiro dos cinco axiomas apresentados por Steiner para definir a “ideia de Europa”. “Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino”.

O segundo é a relação entre os europeus e a geografia que habitam, uma relação que encontra nas figuras do pedinte ou do peregrino a sua materialização, metáforas da caminhada que confere uma cadência propícia à teorização. “A Europa foi e é percorrida a pé”, escreve Steiner, aludindo às longas marchas de que é feita a História da Europa e acrescentando “As belezas da Europa são inextricavelmente inseparáveis da pátina do tempo humanizado”. Um “tempo” que remete para a lembrança, terceiro axioma europeu. O passado tornado sempre presente e gravado nas pedras que dão nomes de pessoas a ruas e praças.

Mas é na síntese de duas culturas, a de Atenas e a de Jerusalém, que Steiner encontra a singularidade da cultura europeia. “Muito frequentemente, o humanismo europeu, de Erasmo a Hegel, procura diversas formas de compromisso entre ideais áticos e hebraicos.” E conclui “A ‘ideia de Europa’ é (…) um ‘conto de duas cidades’.”

Há, por fim, a “consciência escatológica” – o “pânico do ano mil” -, que, no entender de Steiner, é exclusiva do modo de ser europeu, “como se a Europa (..) tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História”.

Doseando um desencanto actual com algum optimismo futuro, George Steiner – judeu nascido em Paris em 1938- revela, por vezes, algum ressentimento face ao cristianismo. Um azedume pontual, antes de indicar um caminho para a Europa o do “humanismo secular”.

E tudo isto a propósito de uma memória de um dia em que eu ia morrendo de frio, não fossem os cafés de Viena.

Uma comédia social

De onde vem aquela voz? “Neste momento acho que a Inglaterra está muito contente por não fazer parte da zona euro.” O tom aristocrata, o sotaque cerrado, colocação teatral, timbre de tenor, o silenciar das vogais a remeter para outro tempo, para um cenário vitoriano, precisamente aquele que começa por retratar e questionar no seu mais recente romance, “O Filho do Desconhecido” (D. Quixote) candidato a muitos prémios, entre eles, o Booker, vencedor de uns quantos, aplaudido pela crítica, celebrado pela imprensa mundial. Um livro que tem quase a duração do século XX, vai de antes da I Guerra à década de oitenta. “Se tivesse de o classificar diria que é uma comédia social feita a partir da hipocrisia e da afectação das classes mais altas.”

Alan Hollinghurst , 57 anos, escritor lento, de quatro romances em duas décadas, considerado um dos mais exímios manipuladores da língua inglesa, homem cheio de referências literárias que transporta para os seus romances, alguém que gosta de pegar numa certa realidade e ser cínico com ela, já pôs Margaret Thatcher a dançar numa das suas ficções, justamente em “A Linha da Beleza” com o qual conquistou o Booker em 2004. Aí havia o retrato de uma época de excessos. Agora, em “O Filho do Desconhecido”, há um fresco sobre o escondido, o jogo de segredos em que vive essa mesma aristocracia.

O livro está pousado em cima da mesa ao lado do bule com o chá da tarde. Não o dispensa. E os olhos distraem-se por momentos nos ecrãs de televisão colocados na parede. Interroga-se sobre se é verdadeiro o bigode do entrevistado num dos canais. É José Mário Branco na RTP Memória. Não se fixa no futebol, volta à economia. “Nós não estamos bem, mas vejo uma Europa ainda mais aflita”, comenta este observador de costumes, com a tal voz que parece um ensaio, retirada de uma das personagens dos seus romances. “Como é que os portugueses estão a viver tudo isto?”. Ele é um espectador. Está na posse da informação, mas não do quotidiano, e enquanto escritor é o detalhe que lhe interessa. Descreve-o como poucos. Tanto o detalhe de carácter como o pormenor da arquitectura. Acredita que os ambientes determinam os comportamentos e não foi por acaso que escolheu uma casa e uma família da aristocracia rural dos arredores de Londres para escrever sobre como se derrubam e recuperam costumes, para falar da ambiguidade e questionar o difícil que é saber a verdade sobre uma pessoa. “Se no início do século XX ninguém estava interessado na vida sexual de alguém, no final do século é só isso que se quer saber, e ao mínimo detalhe”.

É a última entrevista em três dias em Lisboa. Dentro de pouco tempo irá apanhar o avião de regresso a Londres. Já perdeu conta às vezes em que falou sobre o que quis quando escolheu para personagem central do livro Cecil Valance, um poeta que vive no ambiente de Cambridge, herdeiro rico, fisicamente perfeito, adorado por homens e mulheres, sedutor, sexualmente ambíguo, que morre na I Guerra aos 25 anos e deixou uma lenda. Matéria para a interrogação que se segue e percorre o resto do livro: “Quem é Cecil?”, o homem que está na capela da casa de família, num túmulo com a sua figura esculpida. “Interessava-me ver o que acontece ao longo do tempo com a reputação de alguém que morre cedo”. Acontece que ela se altera, não apenas no tempo, mas nas interrogações individuais acerca dela. Cada um está na posse de uma verdade. Um monstro ou o homem perfeito? Um ‘gay’ que parece ser um bi-sexual, um artista com poucos princípios. Nenhuma personagem tem a informação toda. Nem o leitor.

Hollinghurst gostou de jogar esse jogo. Por isso fechou portas, conteve-se nas cenas de sexo que eram comuns e bastante explícitas nos livros anteriores. “Se calhar deixei muita gente frustrada, mas não tinha a ver com este livro, nem quis correr o risco de me repetir”, declara o escritor que parece ter-se libertado de vez do rótulo de autor ‘gay’. Não é só isso. É muito mais do que isso. Quanto mais? “Nada de muito interessante”, ri. Se alguém um dia quiser fazer a sua biografia irá aborrecer-se de morte, avisa. “Não há nada de muito excitante.” Segredos? A dificuldade que é sempre reconstituir a vida de alguém, porque há sempre coisas que se calam, como calaram os que conheciam e se envolveram, com Cecil, quando interrogados pelo seu biógrafo. A mentira, a perda da memória, a memória que se reconstrói, a si própria, o ego, os silêncios, o passa-a-palavra. É mais o que se cala do que o que se diz em relação a Cecil. E Hollighurst? Ele que gosta de espreitar os ‘ateliers’ de escrita dos outros escritores nunca revelou o seu. “É um lugar sagrado. Uma espécie de superstição”, ri. Dá um bombom: há uma pilha de CDs, mas quando escreve exige silêncio total. “Jamais conseguiria escrever algo a ouvir REM”.

Passaram sete anos desde que venceu o Booker e sabia que os olhos estavam postos nele. A expectativa era alta. Havia apostas no mundo literário em como ele iria bisar, mas garante que o fantasma do Booker anterior nunca interferiu na escrita deste “O Filho do Desconhecido”. No início, o prémio serviu como estímulo, depois esqueceu-o. O objectivo não deixou de ser o de sempre: escrever um bom livro. Quando saiu houve barulho, foi seleccionado, mas não chegou à ‘shortlist’. Garante que não se incomodou com isso, mas o ponto final da frase é um riso irónico. Leu o romance do vencedor, “O Sentido do Fim” (agora publicado em Portugal pela Quetzal) e gostou. “Merecia estar na ‘shortlist'”. E o seu? “Não vou dizer isso, mas vou dizer que o livro de Edward St. Aubin, ‘At Last’, deveria lá estar, como o de Ali Smith, ‘There but for The’. “E diz também que este ano a ideia era premiar uma literatura mais popular. “A presidente do júri não era propriamente conhecida pelas suas capacidades literárias”. Ponto final parágrafo com uma gargalhada.

Publicado no Diário Económico de 18/10

Guiador de comida

A minha mãe passou a enorme fila de clientes e pediu por tudo que a deixassem telefonar. “Se quiser fique com o meu relógio”, disse. Era a única coisa que tinha depois da porta de casa se ter fechado, deixando-a trancada na rua. Do outro lado do balcão, a mulher com ar de sargento perdeu a fúria, adoçou-se depois do silêncio do desconcerto. E quem conhece, sabe que essa doçura não é fácil. “Fica mas é cá a senhora a lavar pratos”, foi o mais açucarado que lhe saiu.

Os frequentadores sabem dos riscos de furar aquela fila, sobretudo aos sábados de manhã. O Espigasol faz parte da minha vida em Lisboa. Comprar os caseirinhos para o lanche, as areias para ir debicando. Todos os dias, paragem obrigatória a caminho de casa. Era assim e agora vejo-a no “Lisboa à Mesa” e é como ver revelado um segredo à cidade, coisa pessoal.

É assim o guia de que se fala, revelador de intimidades urbanas descobertas ao ritmo de passeios a pé.  Restaurantes, tascas, mercearias e mercados, lojas gourmet e uma drogaria como só aquela, lá para Santos. É o essencial guia para foodies. Gente que gosta de comida, de passeios pela cidade e de se rever nas palavras desse caminhante citadino que o Miguel Pires é e que passou agora para o papel. 50 lugares favoritos onde comer, 25 lugares favoritos onde comprar, 280 entradas escolhidas segundo um critério pessoal, sempre que possível com um factor distintivo face ao resto, o tal factor ‘X’, como lhe chama o autor. Lugares únicos onde comer, onde encher o cesto ou fazer o gosto à gula. não, um, mas antes O petisco, ou pitéu… de se comer.

O meu guia já tem uma nódoa. Sorry. Sinal de uso em sítios de comer. Anda comigo pela cozinha. É onde gosto mais de o consultar. E onde está a nódoa? No Espigasol, mesmo ali no factor X: “se tiver dúvidas, faça uma ou outra pergunta, mas não abuse. Em caso de desespero, peça o mesmo que o cliente anterior. Acima de tudo, não quebre o ritmo do atendimento. A gerência agradece.”

Este guia de Lisboa, agora publicado pela Planeta, e assinado pelo Miguel Pires, estava longe de ser editado quando a minha mãe quase hipotecou o relógio por um telefonema. Por essa altura o Miguel andava pelo mundo da publicidade e comia nas horas vagas. Agora é um dos nomes mais respeitados a escrever sobre lugares de comida e um dos três fundadores do blogue Mesa Marcada, com o Duarte Calvão e o Rui Falcão.

Fez um guia de escolhas. Notam-se faltas. É natural. A ideia não era ser exaustivo. Era seleccionar. E não contempla alguns dos espaços que abriram nos últimos dois meses por razões de produção editorial. O “Lisboa à Mesa” é lançado hoje, na Livraria Ler Devagar da LX Factory, mas já está disponível.

Destaque ainda para o trabalho gráfico de Luís Alvoeiro Quaresma e para as ilustrações de Tiago Albuquerque.

Só a imagem

As palavras são as de Herberto Helder, num foco tão próximo que lhes altera o sentido dado pelo poeta.

É outra leitura, outra história, uma coisa e as suas vastas possibilidades. Isso, que o fotógrafo Paulo Alexandrino, quis contar, ou melhor, dar a contar, numa exposição com 13 peças. Nove individuais e quatro díptícos para os quais não quer encontrar uma ordem, alinhar o caos. Nada disso. São olhares, os dele, sobre situações, sítios, coisas.  Elas estão ali e quem quiser que lhes encontre um sentido.

“Os rios correm para o mar”, como o pneu que rola na areia e dá nome à mostra. O que fazem então estas palavras aqui, incompletas, retiradas de contexto, ao lado de uma sala de autópsia? Incomodam? “Eu nunca durmo.” É a única frase completa que pode ler-se. E ao lado uma cama vazia. Noutro contexto, noutro ambiente, noutra foto, mas que o fotógrafo quis casar. Talvez então se possa dizer que este é o olhar do fotógrafo quando o fotógrafo experienta olhar para o lado e se fixa em algo que lhe interessa e não na encomenda.

Foi com o Paulo que eu aprendi a olhar a realidade através da lente. A realidade que eu queria reportar. Foi ele quem me perguntou pela primeira vez: “É isto?”, apontado para uma imagem. E eu sem saber muito bem se era aquilo. Ele sabe narrar, reportar, contar uma história com imagens. Estas não são imediatas, repito. “Os Rios Correm para o Mar” são esse olhar despretencioso. Um história que pode ser outra qualquer.

“A exposição convida o espectador a fazer a sua própria ficção sobre cada imagem e a construir uma narrativa pessoal sobre a unidade do conjunto”, escreve na apresentação.

Pode ser vista a partir de hoje e até dia 2 de Dezembro no Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados.

Cozinha do forno

“És um pisco”, dizia-lhe de passagem entre a mesa e a chaminé.

Mais uns passos num chão de terra que de tão pisado estava polido, direito. Podia ser varrido, quase lavado. Não saia um grão daquele pó com séculos de pisadelas. E não era só entre a chaminé e a mesa. Era à volta da mesa, entre a mesa e o louceiro, debaixo da mesa quando a mesa era arredada. Chamavam-lhe a cozinha do forno e tinha um entrada independente da casa. Era lá que ele se sentava a comer as batatas com bacalhau, almoço de todos os dias. Não gostava de variar na ementa. À noite haveria de ser uma sopa de feijão com hortaliça. E comia lento, como uma mão a segurar o rosto não fosse ele cair de tédio. Não havia entusiasmo no mastigar. Tinha de ser e era mais um pretexto para o cigarro e mais um pisar, agora entre a mesa e a porta para mandar baforadas lentas no pátio.

Ele era o único que só entrava para se sentar à mesa e quase nunca para falar. Todos os outros, pequenos e grandes, eles e elas, faziam daquele espaço o mais partilhado da casa. Ouvia as conversas, assistia sem interesse ao amassar do pão, ao tender da massa, às netas com os cadernos das cópias que se faziam distraídas naquele vaivém. Com a minha letra desalinhada, aproveitava para assinar com o meu nome todos os livros e ainda desenhava casinhas com fumo a sair da chaminé nas costas da capa. Também calhava copiar receitas, sempre que uma velha — e velha para mim era qualquer uma — pedia. E passa a limpo as novas, que chegavam em papel pardo, sobras de papeluços de colorau, e andavam soltas na terrina da entrada. A cozinha era o lugar onde tudo acontecia.

O centro da casa e quando mais velha e gasta, melhor, menos a cerimónia e maior a correria e as línguas das outras a soltarem-se. Havia bancos encostados às paredes se houvesse dúvidas de que aquele era um lugar para estar. E se nada havia para dizer velava-se o forno como se velava um morto. Era o que me parecia. Diziam-me que não, que isso não se dizia, que o pão era uma dádiva e lá benziam as minhas palavras aziagas até que havia pão quente acabado de sair do forno, temperado com azeite e alho ou açúcar para os mais pequenos. Era antes de ir para a arca na cozinha de dentro, a melhor, onde se entrava nos almoços e jantares de família, com a comida a chegar da outra em tachos e panelas mascarradas, que o fogão a gás só era usado numa emergência. E lá dentro era outra coisa. Tudo novo, uma cozinha equipada, mas as mãos e os sentidos queriam a outra, onde tudo se podia sujar já que o velho de velho não passa. E ele passava de uma à outra conforme lhe diziam, samarra pelos ombros, cigarro na boca, quase uma esfinge.

À sala nunca ia, nem no natal quando os cristais saiam dos armários e o serviço de porcelana ia à mesa. Não esperava pela ceia. Dizia que era tarde. Comia o bacalhau com batatas à noite e tirava uma filhós para festejar. Depois ia para a cama. Um beijo em cada neto que disputavam o melhor lugar no sofá, distraídos da televisão que tocava sozinha na cozinha, lá dentro. O que eles queriam eram sentir o cheiro da sala nunca aberta, olhar o armário grande de parede, o quadro da senhora que não sabiam se ria ou chorava. Isso apagava qualquer desenho animado, punha-os nervosos. E ele, na cama, no quarto ouvia-os, aninhado. Sozinho, não tinha pudor em deixar cair uma lágrima de contentamento na almofada enquanto a mulher não lhe levava uma caneca de chá, adivinhando-lhe as horas do sono que vinha pesado.

O Ano do Dilúvio

Um dia um poeta canadiano prometeu-me uma entrevista com ela. Era sua amiga e seria tão fácil.

Foi em Itália. Ele estava lá para a entrega de um prémio e eu a assistir. E assim me vi a entrevistar Margaret Atwood, uma das minhas escritoras de eleição. O prémio foi entregue. Vieram buscar-me e eu nunca mais vi o poeta e lá se foi a entrevista. Até hoje. Desde aí, cada vez que abro um novo livro da poeta, ensaísta, crítica literária, intelectual com uma imaginação prodigiosa, activista política qb e imensa romancista dá-me nó na garganta por essa oportunidade perdida. Não sei se ela era ou não mesmo amiga do tal poeta. Não sei se ela me daria a antevista, mas ficou e foi com esse “se” que o li “O Ano do Dilúvio”, leitura que aguenta uma viagem longa sem que a atenção se canse ou os olhos se desviem, mesmo quando a intriga entra numa espiral por vezes a roçar o alucinante. Não quero dizer confuso, embora tivesse por vezes de recuar na página. Claro que a capa prometia este mundo e o outro. “Na voltará a ser como antes depois de ler este livro.” É bom que não, penso eu. Afinal são 473 páginas e raramente me atiro a um livro que espero me deixe exactamente na mesma. Não é a frase para vender que me convence, mas o nome e a qualidade da vasta obra, tantas vezes premiada desta autora natural do Otawa, onde nasceu em 1939 e uma das muitas a ser apontada como candidata ao Nobel. Já apanhei algumas desilusões, apesar de tudo. Acontece. Afinal são mais de 50 títulos os que já publicou. Neste livro A trama recupera alguns dos despojos do livros anterior, Orix e Crax, também editado em Portugal pela Bertrand, e acompanha uma pequena seita saída dessa catástrofe. O resto é a capacidade narrativa de Atwood e a sua argúcia para detectar os pequenos/grandes nós da humanidade e disso de se ser humano que, nos seu caso, nunca é muito separável do animal e muito menos da paisagem. “De manhã cedo, Toby sobe ao terraço para ver o nascer do Sol. Usa um cabo de esfregona para se equilibrar – o elevador deixou de funcionar há algum tempo e as escadas das traseiras estão escorregadias de humidade, pelo que, se ela escorregar e cair, não vai haver ninguém para a levantar.
“À primeira vaga de calor, levanta-se neblina no meio do abate de árvores entre ela e a cidade em ruínas. O ar cheira levemente a queimado, um cheiro a caramelo e alcatrão e churrascos rançosos, e ao odor bolorento, mas gorduroso de um fogo de lixeira depois de ter estado a chover. Ao longe, as torres abandonadas são como o coral de um antigo recife – carcomidas e incolores, desprovidas de vida.”
E Ren há-devir juntar-se a Toby num livro que muito boa gente considerou por vezes caótico na organização. Acho que Atwood gosta disso, de lançar a confusão nas cabeças. Justamente quando este livro foi publicado em língua inglesa, em 2009, os editores sugeriram-lhe que criasse uma conta no Twitter para promover a obra. Atwood estava longe de saber o que era ou como usar essa ferramenta ‘promocional’- Numa entrevista disse que pensava que era coisa de crianças. Hoje tem quase cem mil seguidores, entre ele, e não são poucas as tiradas humorísticas, provocatórias, políticas, desta senhora de 71 anos que não evita uma boa polémica.

Passageiro do fim do dia

Pedro apanha o autocarro ao fim do dia e vai do centro da cidade para a periferia, um bairro chamado Tirol, visitar a namorada, Rosane. É hora de ponta e a viagem demora. Há tempo para ler um dos livros de Charles Darwin sobre as suas viagens ao Brasil e também tempo para deixar correr os pensamentos, entrar em reflexões . Resumindo, esta é a trama que valeu ao brasileiro Rubens Figueiredo o Prémio Portugal Telecom de Literatura com o livro “Passageiro do Fim do Dia”, editado no Brasil pela Companhia das Letras, e já vencedor do Prémio São Paulo de Literatura que elege o melhor livro do ano publicado no Brasil. O português Gonçalo M. Tavares ficou em segundo lugar com o romance “Uma Viagem à Índia”, que lhe valeu cerca de 14 mil euros.
Rubens Figueiredo, professor de português e de tradução na PUC do Rio de Janeiro, sucede ao mediático Chico Buarque que em 2010 ganhou os cem mil reais do prémio (41,7mil euros) não sem alguma polémica. Então, não faltou em considerasse que a decisão tinha sido puramente mediática e não teve em com a qualidade literária dos outros concorrentes. Desta vez, quando foi anunciada a lista dos dez finalistas de um total de 380 concorrentes, os mais ortodoxos não se manifestaram quanto à qualidade das obras a concurso onde estavam dois livros de dois autores portugueses: “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M.Tavares; “As Três Vidas”, de João Tordo.
“Fico muito feliz e só consigo dizer isso. Me desculpem o mau jeito”, disse o autor na cerimónia de entrega do prémio, no passado dia 8, em São Paulo, na Casa Fassano. Mais tarde, ao jornal ‘Público’, o escritor foi mais longe e falou do processo criativo que o levou ao que muitos críticos consideram ser o romance que o afirma como uma das vozes mais sólidas da altura literatura brasileira: “como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus’, especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus’ para ir e dois ‘ônibus’ para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano”.

A negação da banalidade
A atenção ao pormenor, aos pequenos detalhes que ocorrem em situações rotineiras são o ponto alto de um narrativa que vive disso mesmo: da negação da banalização do quotidiano, mesmo que ele seja opressivo, como é qualquer viagem de autocarro de uma centralidade onde tudo acontece para uma periferia onde acontece o que “não deve” ou o que é varrido desse centro. São histórias de violência, de exclusão nas quais Rubens pega com conhecimento de causa. Ou seja, enquanto passageiro frequente de autocarros entre o centro e a periferia. Mas como ele sublinha, esta não é a sua história, nem de um lugar concreto. É a história de Pedro, um rapaz ficcionado, e das suas cogitações e recordações e preocupações. Do ambiente que o envolve enquanto viaja num autocarro. “No quotidiano se concentram os processos mais importantes da dominação social. É onde as relações sociais se produzem, se reproduzem, se justificam e são esquecidas. E também é onde eles mais se empenham em se manter ocultos”, declarou numa entrevista recente, ainda antes de saber que viria a ganha o prémio PT.

O Booker português?
Bastante popular no Brasil, onde tem um prestígio que ainda não atingiu em Portugal, o Prémio PTde Literatura, distingues livros em português publicados no Brasil. E vale quase tudo: poesia, ficção, biografia, dramaturgia ou crónica.
Criado em 2003 com o objectivo de contribuir para a promoção da língua portuguesa, “ainda não é o Man Booker ou o Pulitzer ou o Goncourt português. Mas um dia será. Não desistimos dessa ambição”, disse Henrique Granadeiro, o presidente da PT, durante a cerimónia de entrega de um galardão que tem a ambição de estimular e encorajar “os melhores talentos”. Ao fim de nove edições já premiou nomes como Bernado de Carvalho, Milton Hatoum ou português Gonçalo M. Tavares (em 2007, com “Jerusalém”). Desta vez foi para um romance que pretende ser uma crítica às desiguladades sociais na cidade do Rio de Janeiro onde Rubens Figueiredo nasceu em 1956 e onde vive. Foi lá também que se formou em letras e é lá que ensina.

Duplo Jabuti
Escritor nas horas vagas, como se define, escreveu o seu primeiro livro há 23 anos. Em 1998 venceu o prémio Jabuti, um dos mais prestigiados para autores brasileiros, com o livro de contos “As Palavras Secretas”. Repete o feito em 2002, desta vez com um romance, “Barco a Seco”. Nesseano, fazia um balanço sobre a sua obra: “Os três primeiros romances que escrevi são francamente humorísticos e debochados consigo mesmos. Os três livros seguintes têm outro tom. A mudança não se limita ao desvio do humor. Cada pessoa escreve como pode, à luz do que consegue pensar no momento. O humor, aliás, costuma ser uma defesa que se faz passar por um ataque. Um floreio da mão direita, que desvia nossa atenção daquilo que a mão esquerda está fazendo ou deixando de fazer.”
Não se deslumbrava com a consagração. Perguntava pelos livros esquecidos depois de lidos e premiados. E aí colocava os seus. Quem se lembrava deles? Talvez por isso tenha abandonado o trabalho de tradutor. A qualidade e a profundidade da escrita de Rubens Figueiredo não é decerto alheia ao modo como pratica a tradução. Envolve-se o mais que pode com os autores, do ponto de vista criativo. Quer perceber o processo e a sua perspectiva é a de que o tradutor é também um autor quando passa uma obra de uma língua para a outra. “Traduzir é escrever – em termos concretos, mecânicos e intelectuais, pois transpomos ideias e sentimentos de um idioma para o outro. Mas também vale o oposto: escrever é traduzir, pois transpomos”, diria sobre o assunto depois de ter traduzido Anna Karenina.
O seu percurso conta com mais de 40 livros traduzidos, com destaque para a literatura russa, e concilia isso com as aulas de português. Daí a escrita pertencer às horas vagas e ter começado em 1986. E logo com um romance: “O Mistério da Samambaia Bailarina”. Não demorou até ao segundo título, “Essa Maldita Farinha. Foi no anos seguinte, em 1987. Em 1990 publica “A Festa do Milênio” e em 1999, “O Livro dos Lobos”, que relançaria quase dez anos depois, totalmente reescrito. Pelo meio ficou “Contos de Pedro” e com o mais recente livro foi o que se viu. “Pensei que seria possível questionar, investigar e conhecer aspectos importantes do quadro histórico atual por meio dos recursos oferecidos por um romance. Tomei o cuidado de não mencionar datas nem nomes de lugares reais. Não porque eu pretendesse conferir um cunho universal ao livro. Ao contrário: eu queria que os aspectos concretos e particulares pudessem ser percebidos como partes de uma experiência familiar, vivida e bastante generalizada, mas não universal, nem fora de um tempo. A saber: a experiência de estarmos submetidos a um processo social que precisa a todo custo manter-se oculto.”

Artigo publicado na edição de 11.11.11 do Diário Económico

A harpa

“Quando é que ouvi falar pela primeira vez da harpa de ervas? Muito antes do outono que passámos na amargoseira; num outono anterior, portanto; e, como não podia deixar de ser, foi Dolly que me contou, pois mais ninguém se lembraria de lhe chamar isso, uma harpa de ervas.”

É Truman Capote num dos seus mais belos livros, “A Harpa de Ervas”, que a Sextante reedita em português. Que bom que é reler este Capote. Junte-se as palavras à foto, em cima, de Cartier Bresson, e temos um raro momento de beleza

Boémia ou bohemia?

Tudo grita. “Olha”, “Entra”, “Compra”, “Come”, “Joga”, “Bebe”, imperativos até perderes a consciência de que és gente grande. E quem não faz o que é que faz em Las Vegas? Toca a ceder aos apelos, ir no espalhafato, cantarolar junto dos altifalantes que mandam música para a rua e não se sinta a diferença entre estar dentro do casino ou na rua de todos os casinos. É uma banda sonora para que ninguém se distraia da festa permanente.

Ser estridente é que é. Tudo é um looping e a vertigem é quem comanda os dias que dão a volta ao relógio sem paragens. Quem quer saber das horas quando está num imenso playground onde é bom que haja dinheiro ou o sonho corre o risco de se transformar num enorme pesadelo? Quem vai já sabe, ou devia. E a mulher, grande, imensa, cinquentona com ar de um destroço, uma máscara arrastando uma bolsa pelo chão, maquilhagem a cair no rosto como lágrimas borradas. Não se sabe que noite transporta na mala quando carrega no elevador para regressar ao mundo de onde saiu horas antes. Há outra, espécie de boneca Cindy, vestida de cor de rosa justo, de um louro platinado que fica bem com os sapatos. Essa desce e junta-se ao grupo dos que bebem vestidos de romanos. São seis da manhã e o póquer está a dar.
Vale tudo, ainda mais quando o bar é aberto. Roleta russa onde se perde mais do que se ganha, mas nestes ganhar e perder a contabilidade é a da aposta e não perde muito quem aposta pouco. Apostam-se noutras salas. A do cabeleireiro que à tarde, antes de uma das dezenas de galas, estava cheia e cada penteado uma fortuna. Joga-se o quê aí? Oh, é tanto o jogo. Das cartas ou da sedução ou os dois num. Pelo menos é jogo assumido. Trocam-se fichas por notas, vidas por outras. O sonho, sempre.

Casados de fresco tiram fotos com a tal mesa de póquer como background. Luas de mel em Las Vegas e tantas tantas fitas na memória. Haverá cenário mais filmado? Oceans Eleven, One from de Heart, Viver em Morrer em Las Vegas… e lá estava ela, muitos anos depois, a protagonista, Elizabeth Sue, num dos palcos a angariar dinheiro para uma escola. Verdade verdadinha. Depois há outras verdades mais fantasiosas. Eduardo Mãos de Tesoura a assustar quem passa, os dedos em forma de lâmina a pedir uma gorjeta por foto. Só não assusta o homem do chapéu de palha que passa como quem não vê.  Segue pelo Boulevard, à volta do qual tudo se passa e que todos conhecem como Strip. É lá que estão o Belaggio, o Ceasers Pallace, o Excalibur, o Treasure Island, Madala Bay, Wynn e o novo hot spot, o Cosmopolitan. Hotéis que são casinos que são mundos.

Mas o homem do chapéu de palha quer saber do rodeo da noite anterior que trouxe à cidade do mafioso Bugsie mais cowboys do que é costume e parece não querer saber mesmo nada de quem foi Smokey Robinson. Não sabe quem foi. Nem ele nem o judeu de Telavive, dono de uma relojoaria em Amesterdão. No palco, aquele que foi com The Miracles, um dos classicos da Motown tenta ser ícone em Las vegas. E é dose vê-lo para quem o ouviu sempre. Não há expressão. Apenas a recusa em envelhecer num sorriso também ele de plástico. Tantos anos a ouvir falar de Smokey, a ouvir Smokey, e ali está ele feito de botox, vítima de promessas de elixires de juventude. Vive-se e não se morre em Las Vegas. Ou não se sabe morrer ainda que a morte ande pelas ruas em vésperas de Halloween. Encontra um Elvis decrépito pelo caminho e mulheres sem idade em vestidos de noite.

Vegas, a cidade que nasceu num vale no deserto do Nevada, como que plantada, onde se chega de avião e o aeroporto já é um imenso casino. A cidade de Andre Agassi, dos The Killers, de mais gente pobre do que rica, longe do grito, mas apanhando-lhe o eco.
Dias depois, parece que foram meses, e há quem fale do tempo do relógio, de como ele engana por ali. Qual sono? Esse é outro para ir enganando até dar. Seis das manhã? Parece que sim. Há que apanhar o avião de regresso. Cinco horas até Nova Iorque sem comes nem bebes a não ser que se leve marmita. Onde está o luxo de há tão pouco? Vai nas malas, escondido nas olheiras dos que só querem uma cadeira para dormir. Não interessa se foram dois dias, se uma semana.

Encostada à janela, olho a planície semeada por arranha-céus. Parece o futuro ali no meio de nada. Ao meu lado, um cowboy come um croissant e bebe café com leite por uma palhinha. Adormece no ombro do namorado. Não viu o deserto cá em baixo, nem Salt Lake, nem o que me manteve desperta. Horas depois, acorda. Abre um saco de onde tira uma caixa com duas pernas de frango e um tacho com arroz branco. Serve-se a ele e ao amigo e os dois comem com uma colher com a mesma destreza que se vê num um western. Voo Las vegas/Nova Iorque. Outra vertigem.

As luzes ainda piscam, os sons ainda se ouvem. Mas parece que a boémia acabou aqui. Ou não?

Há sempre um voo de regresso.