Na linha de Hollinghurst

 

Comecei hoje bem pela fresca a ler o último romance do britânico Alan Hollinghurst, “O Filho do Desconhecido“. Apontado como um dos favoritos a vencer o Booker Prize, acabaria por perder para outro grande da literatura inglesa, Julian Barnes. Se acontecesse vencer, seria a segunda vez para Hollinghurst. Já o tinha ganho em 2004 com “A Linha da Beleza“. Uns meses depois conversei com ele e parte dessa conversa foi publicada num texto no DN. Recupero-o agora enquanto já estou agarrada a este novo livro

Aventuras no país do luxo e da extravagância
10 Julho 2005

“- Primeira-ministra, quer dar-me a honra de uma dança? – Sabe, aí está uma coisa de que eu gostaria muito – disse a primeira-ministra, com os seus tons de peito, o contralto da convicção. À volta dela, os homens trocavam risinhos desdenhosos e horrorizavam-se perante uma audácia que os ultrapassara. Nick ouvia todo o episódio acumulando já o seu comentário, a sua história, enquanto saía da sala com ela no meio de esgares de surpresa, da súbita mudança do centro de gravidade, um efeito que nenhum deles poderia ter causado e a que nenhum deles era capaz de resistir. Quanto à reacção dele, traduzia-se por um sorriso, a cabeça um nada baixa, um nada de lado; ignorava todos os presentes, intimamente preso ao que a primeira-ministra lhe dizia e à brilhante ousadia das suas réplicas. (…) Não é todos os dias que se é convidado para dançar por um professor universitário – disse a primeira-ministra.”
Nick Guest é o protagonista do romance, um jovem homossexual movido pela ambição e influenciado pelo ambiente londrino onde se instala. A primeira-ministra é Margaret Thatcher, a imagem da Inglaterra dos anos 80 que Alan Hollinghurst não resistiu em transpor para a ficção. São eles o par desta dança improvável, metáfora irónica da década que glorificou o dinheiro, o poder e a ambição e fez dos excessos um modelo de vida. Excesso de droga, de sexo, de ostentação. Um país das maravilhas do luxo e da extravagância, ou da “desimportância”, para usar uma expressão de um outro país com outras aventuras de outras maravilhas, o de Alice inventado por Lewis Carrol e que serve de epígrafe a este romance.
Feito na perspectiva dos ricos e dos poderosos, A Linha da Beleza (Asa) reconstitui a atmosfera e os comportamentos de um tempo marcado pelo money-making. “Não pretendi que o livro fosse um retrato compreensivo ou profundo desses anos, mas que desse o background ou a atmosfera através da qual um jovem, Nick Guest, chegou à maioridade”, declarou ao DN, Alan Hollinghurst. Disse ainda que, tal como a maioria das pessoas que o viveram, também ele pensou que esse momento da história fosse apenas simbólico. Haveria, no entanto, de revelar-se um tempo marcante. “Esses anos prolongam-se até hoje”, afirmou a propósito, remetendo para uma tirada de Catherine, a rapariga problemática do romance, filha de Gerald, o deputado tory em casa de quem Nick se aloja nos seus primeiros anos de Londres, e irmã de Toby, a grande paixão do protagonista. É ela quem diz que os anos 80 vão durar para sempre.
Não há aqui análise sociológica, moralidade ou julgamentos de qualquer espécie. Nesse retrato feito de impressões – falas, comportamentos, gostos, paisagens – o autor revela a sua intenção “mostrar a aceleração da ganância e que havia um preço a pagar por isso. Não quis escrever um livro que fosse povoado de estereótipos, mas que revelasse um pouco da complexidade do ser humano.” São esses os aspectos centrais do livro, trabalhados durante quase seis anos, de forma regular, numa rotina diária “das oito às seis, com uma interrupção de duas horas para sesta”. “Acho que a disciplina estimula a imaginação”, justifica. “Quero mergulhar no hábito de produzir até a escrita se tornar mais fácil. Gosto de emergir no universo do livro e estar continuamente a pensar nele.”
Daí o isolamento que escolhe para a escrita. Desde o primeiro romance, The Swimming-Pool Library (1988). Então, ainda editor no Times Literary Supplement. Com The Folding Star (1993), esteve na shortlist do Prémio Booker . O terceiro, The Spell (1998), foi mal recebido pelo maioria dos críticos britânicos. A Linha da Beleza (2004) encerra este quarteto de romances sobre a experiência da homossexualidade e foi um dos mais polémicos vencedores do Booker, mesmo que a crítica o tivesse aplaudido alguns meses antes.
Quatro romances em 15 anos é um score que dá a Alan Hollinghurst o estatuto de escritor lento. Ele assume esse olhar demora- do para a escrita, a dificuldade em avançar para o texto sem um guião traçado e a paragem após A Linha da Beleza. O que se segue? Não sabe. “Talvez um livro de contos.”

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