Boémia ou bohemia?

Tudo grita. “Olha”, “Entra”, “Compra”, “Come”, “Joga”, “Bebe”, imperativos até perderes a consciência de que és gente grande. E quem não faz o que é que faz em Las Vegas? Toca a ceder aos apelos, ir no espalhafato, cantarolar junto dos altifalantes que mandam música para a rua e não se sinta a diferença entre estar dentro do casino ou na rua de todos os casinos. É uma banda sonora para que ninguém se distraia da festa permanente.

Ser estridente é que é. Tudo é um looping e a vertigem é quem comanda os dias que dão a volta ao relógio sem paragens. Quem quer saber das horas quando está num imenso playground onde é bom que haja dinheiro ou o sonho corre o risco de se transformar num enorme pesadelo? Quem vai já sabe, ou devia. E a mulher, grande, imensa, cinquentona com ar de um destroço, uma máscara arrastando uma bolsa pelo chão, maquilhagem a cair no rosto como lágrimas borradas. Não se sabe que noite transporta na mala quando carrega no elevador para regressar ao mundo de onde saiu horas antes. Há outra, espécie de boneca Cindy, vestida de cor de rosa justo, de um louro platinado que fica bem com os sapatos. Essa desce e junta-se ao grupo dos que bebem vestidos de romanos. São seis da manhã e o póquer está a dar.
Vale tudo, ainda mais quando o bar é aberto. Roleta russa onde se perde mais do que se ganha, mas nestes ganhar e perder a contabilidade é a da aposta e não perde muito quem aposta pouco. Apostam-se noutras salas. A do cabeleireiro que à tarde, antes de uma das dezenas de galas, estava cheia e cada penteado uma fortuna. Joga-se o quê aí? Oh, é tanto o jogo. Das cartas ou da sedução ou os dois num. Pelo menos é jogo assumido. Trocam-se fichas por notas, vidas por outras. O sonho, sempre.

Casados de fresco tiram fotos com a tal mesa de póquer como background. Luas de mel em Las Vegas e tantas tantas fitas na memória. Haverá cenário mais filmado? Oceans Eleven, One from de Heart, Viver em Morrer em Las Vegas… e lá estava ela, muitos anos depois, a protagonista, Elizabeth Sue, num dos palcos a angariar dinheiro para uma escola. Verdade verdadinha. Depois há outras verdades mais fantasiosas. Eduardo Mãos de Tesoura a assustar quem passa, os dedos em forma de lâmina a pedir uma gorjeta por foto. Só não assusta o homem do chapéu de palha que passa como quem não vê.  Segue pelo Boulevard, à volta do qual tudo se passa e que todos conhecem como Strip. É lá que estão o Belaggio, o Ceasers Pallace, o Excalibur, o Treasure Island, Madala Bay, Wynn e o novo hot spot, o Cosmopolitan. Hotéis que são casinos que são mundos.

Mas o homem do chapéu de palha quer saber do rodeo da noite anterior que trouxe à cidade do mafioso Bugsie mais cowboys do que é costume e parece não querer saber mesmo nada de quem foi Smokey Robinson. Não sabe quem foi. Nem ele nem o judeu de Telavive, dono de uma relojoaria em Amesterdão. No palco, aquele que foi com The Miracles, um dos classicos da Motown tenta ser ícone em Las vegas. E é dose vê-lo para quem o ouviu sempre. Não há expressão. Apenas a recusa em envelhecer num sorriso também ele de plástico. Tantos anos a ouvir falar de Smokey, a ouvir Smokey, e ali está ele feito de botox, vítima de promessas de elixires de juventude. Vive-se e não se morre em Las Vegas. Ou não se sabe morrer ainda que a morte ande pelas ruas em vésperas de Halloween. Encontra um Elvis decrépito pelo caminho e mulheres sem idade em vestidos de noite.

Vegas, a cidade que nasceu num vale no deserto do Nevada, como que plantada, onde se chega de avião e o aeroporto já é um imenso casino. A cidade de Andre Agassi, dos The Killers, de mais gente pobre do que rica, longe do grito, mas apanhando-lhe o eco.
Dias depois, parece que foram meses, e há quem fale do tempo do relógio, de como ele engana por ali. Qual sono? Esse é outro para ir enganando até dar. Seis das manhã? Parece que sim. Há que apanhar o avião de regresso. Cinco horas até Nova Iorque sem comes nem bebes a não ser que se leve marmita. Onde está o luxo de há tão pouco? Vai nas malas, escondido nas olheiras dos que só querem uma cadeira para dormir. Não interessa se foram dois dias, se uma semana.

Encostada à janela, olho a planície semeada por arranha-céus. Parece o futuro ali no meio de nada. Ao meu lado, um cowboy come um croissant e bebe café com leite por uma palhinha. Adormece no ombro do namorado. Não viu o deserto cá em baixo, nem Salt Lake, nem o que me manteve desperta. Horas depois, acorda. Abre um saco de onde tira uma caixa com duas pernas de frango e um tacho com arroz branco. Serve-se a ele e ao amigo e os dois comem com uma colher com a mesma destreza que se vê num um western. Voo Las vegas/Nova Iorque. Outra vertigem.

As luzes ainda piscam, os sons ainda se ouvem. Mas parece que a boémia acabou aqui. Ou não?

Há sempre um voo de regresso.

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