O Ano do Dilúvio

Um dia um poeta canadiano prometeu-me uma entrevista com ela. Era sua amiga e seria tão fácil.

Foi em Itália. Ele estava lá para a entrega de um prémio e eu a assistir. E assim me vi a entrevistar Margaret Atwood, uma das minhas escritoras de eleição. O prémio foi entregue. Vieram buscar-me e eu nunca mais vi o poeta e lá se foi a entrevista. Até hoje. Desde aí, cada vez que abro um novo livro da poeta, ensaísta, crítica literária, intelectual com uma imaginação prodigiosa, activista política qb e imensa romancista dá-me nó na garganta por essa oportunidade perdida. Não sei se ela era ou não mesmo amiga do tal poeta. Não sei se ela me daria a antevista, mas ficou e foi com esse “se” que o li “O Ano do Dilúvio”, leitura que aguenta uma viagem longa sem que a atenção se canse ou os olhos se desviem, mesmo quando a intriga entra numa espiral por vezes a roçar o alucinante. Não quero dizer confuso, embora tivesse por vezes de recuar na página. Claro que a capa prometia este mundo e o outro. “Na voltará a ser como antes depois de ler este livro.” É bom que não, penso eu. Afinal são 473 páginas e raramente me atiro a um livro que espero me deixe exactamente na mesma. Não é a frase para vender que me convence, mas o nome e a qualidade da vasta obra, tantas vezes premiada desta autora natural do Otawa, onde nasceu em 1939 e uma das muitas a ser apontada como candidata ao Nobel. Já apanhei algumas desilusões, apesar de tudo. Acontece. Afinal são mais de 50 títulos os que já publicou. Neste livro A trama recupera alguns dos despojos do livros anterior, Orix e Crax, também editado em Portugal pela Bertrand, e acompanha uma pequena seita saída dessa catástrofe. O resto é a capacidade narrativa de Atwood e a sua argúcia para detectar os pequenos/grandes nós da humanidade e disso de se ser humano que, nos seu caso, nunca é muito separável do animal e muito menos da paisagem. “De manhã cedo, Toby sobe ao terraço para ver o nascer do Sol. Usa um cabo de esfregona para se equilibrar – o elevador deixou de funcionar há algum tempo e as escadas das traseiras estão escorregadias de humidade, pelo que, se ela escorregar e cair, não vai haver ninguém para a levantar.
“À primeira vaga de calor, levanta-se neblina no meio do abate de árvores entre ela e a cidade em ruínas. O ar cheira levemente a queimado, um cheiro a caramelo e alcatrão e churrascos rançosos, e ao odor bolorento, mas gorduroso de um fogo de lixeira depois de ter estado a chover. Ao longe, as torres abandonadas são como o coral de um antigo recife – carcomidas e incolores, desprovidas de vida.”
E Ren há-devir juntar-se a Toby num livro que muito boa gente considerou por vezes caótico na organização. Acho que Atwood gosta disso, de lançar a confusão nas cabeças. Justamente quando este livro foi publicado em língua inglesa, em 2009, os editores sugeriram-lhe que criasse uma conta no Twitter para promover a obra. Atwood estava longe de saber o que era ou como usar essa ferramenta ‘promocional’- Numa entrevista disse que pensava que era coisa de crianças. Hoje tem quase cem mil seguidores, entre ele, e não são poucas as tiradas humorísticas, provocatórias, políticas, desta senhora de 71 anos que não evita uma boa polémica.

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