Cozinha do forno

“És um pisco”, dizia-lhe de passagem entre a mesa e a chaminé.

Mais uns passos num chão de terra que de tão pisado estava polido, direito. Podia ser varrido, quase lavado. Não saia um grão daquele pó com séculos de pisadelas. E não era só entre a chaminé e a mesa. Era à volta da mesa, entre a mesa e o louceiro, debaixo da mesa quando a mesa era arredada. Chamavam-lhe a cozinha do forno e tinha um entrada independente da casa. Era lá que ele se sentava a comer as batatas com bacalhau, almoço de todos os dias. Não gostava de variar na ementa. À noite haveria de ser uma sopa de feijão com hortaliça. E comia lento, como uma mão a segurar o rosto não fosse ele cair de tédio. Não havia entusiasmo no mastigar. Tinha de ser e era mais um pretexto para o cigarro e mais um pisar, agora entre a mesa e a porta para mandar baforadas lentas no pátio.

Ele era o único que só entrava para se sentar à mesa e quase nunca para falar. Todos os outros, pequenos e grandes, eles e elas, faziam daquele espaço o mais partilhado da casa. Ouvia as conversas, assistia sem interesse ao amassar do pão, ao tender da massa, às netas com os cadernos das cópias que se faziam distraídas naquele vaivém. Com a minha letra desalinhada, aproveitava para assinar com o meu nome todos os livros e ainda desenhava casinhas com fumo a sair da chaminé nas costas da capa. Também calhava copiar receitas, sempre que uma velha — e velha para mim era qualquer uma — pedia. E passa a limpo as novas, que chegavam em papel pardo, sobras de papeluços de colorau, e andavam soltas na terrina da entrada. A cozinha era o lugar onde tudo acontecia.

O centro da casa e quando mais velha e gasta, melhor, menos a cerimónia e maior a correria e as línguas das outras a soltarem-se. Havia bancos encostados às paredes se houvesse dúvidas de que aquele era um lugar para estar. E se nada havia para dizer velava-se o forno como se velava um morto. Era o que me parecia. Diziam-me que não, que isso não se dizia, que o pão era uma dádiva e lá benziam as minhas palavras aziagas até que havia pão quente acabado de sair do forno, temperado com azeite e alho ou açúcar para os mais pequenos. Era antes de ir para a arca na cozinha de dentro, a melhor, onde se entrava nos almoços e jantares de família, com a comida a chegar da outra em tachos e panelas mascarradas, que o fogão a gás só era usado numa emergência. E lá dentro era outra coisa. Tudo novo, uma cozinha equipada, mas as mãos e os sentidos queriam a outra, onde tudo se podia sujar já que o velho de velho não passa. E ele passava de uma à outra conforme lhe diziam, samarra pelos ombros, cigarro na boca, quase uma esfinge.

À sala nunca ia, nem no natal quando os cristais saiam dos armários e o serviço de porcelana ia à mesa. Não esperava pela ceia. Dizia que era tarde. Comia o bacalhau com batatas à noite e tirava uma filhós para festejar. Depois ia para a cama. Um beijo em cada neto que disputavam o melhor lugar no sofá, distraídos da televisão que tocava sozinha na cozinha, lá dentro. O que eles queriam eram sentir o cheiro da sala nunca aberta, olhar o armário grande de parede, o quadro da senhora que não sabiam se ria ou chorava. Isso apagava qualquer desenho animado, punha-os nervosos. E ele, na cama, no quarto ouvia-os, aninhado. Sozinho, não tinha pudor em deixar cair uma lágrima de contentamento na almofada enquanto a mulher não lhe levava uma caneca de chá, adivinhando-lhe as horas do sono que vinha pesado.

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