Guiador de comida

A minha mãe passou a enorme fila de clientes e pediu por tudo que a deixassem telefonar. “Se quiser fique com o meu relógio”, disse. Era a única coisa que tinha depois da porta de casa se ter fechado, deixando-a trancada na rua. Do outro lado do balcão, a mulher com ar de sargento perdeu a fúria, adoçou-se depois do silêncio do desconcerto. E quem conhece, sabe que essa doçura não é fácil. “Fica mas é cá a senhora a lavar pratos”, foi o mais açucarado que lhe saiu.

Os frequentadores sabem dos riscos de furar aquela fila, sobretudo aos sábados de manhã. O Espigasol faz parte da minha vida em Lisboa. Comprar os caseirinhos para o lanche, as areias para ir debicando. Todos os dias, paragem obrigatória a caminho de casa. Era assim e agora vejo-a no “Lisboa à Mesa” e é como ver revelado um segredo à cidade, coisa pessoal.

É assim o guia de que se fala, revelador de intimidades urbanas descobertas ao ritmo de passeios a pé.  Restaurantes, tascas, mercearias e mercados, lojas gourmet e uma drogaria como só aquela, lá para Santos. É o essencial guia para foodies. Gente que gosta de comida, de passeios pela cidade e de se rever nas palavras desse caminhante citadino que o Miguel Pires é e que passou agora para o papel. 50 lugares favoritos onde comer, 25 lugares favoritos onde comprar, 280 entradas escolhidas segundo um critério pessoal, sempre que possível com um factor distintivo face ao resto, o tal factor ‘X’, como lhe chama o autor. Lugares únicos onde comer, onde encher o cesto ou fazer o gosto à gula. não, um, mas antes O petisco, ou pitéu… de se comer.

O meu guia já tem uma nódoa. Sorry. Sinal de uso em sítios de comer. Anda comigo pela cozinha. É onde gosto mais de o consultar. E onde está a nódoa? No Espigasol, mesmo ali no factor X: “se tiver dúvidas, faça uma ou outra pergunta, mas não abuse. Em caso de desespero, peça o mesmo que o cliente anterior. Acima de tudo, não quebre o ritmo do atendimento. A gerência agradece.”

Este guia de Lisboa, agora publicado pela Planeta, e assinado pelo Miguel Pires, estava longe de ser editado quando a minha mãe quase hipotecou o relógio por um telefonema. Por essa altura o Miguel andava pelo mundo da publicidade e comia nas horas vagas. Agora é um dos nomes mais respeitados a escrever sobre lugares de comida e um dos três fundadores do blogue Mesa Marcada, com o Duarte Calvão e o Rui Falcão.

Fez um guia de escolhas. Notam-se faltas. É natural. A ideia não era ser exaustivo. Era seleccionar. E não contempla alguns dos espaços que abriram nos últimos dois meses por razões de produção editorial. O “Lisboa à Mesa” é lançado hoje, na Livraria Ler Devagar da LX Factory, mas já está disponível.

Destaque ainda para o trabalho gráfico de Luís Alvoeiro Quaresma e para as ilustrações de Tiago Albuquerque.

One response to “Guiador de comida

  1. Pingback: Puro Acaso | Lisboa à Mesa

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