Uma comédia social

De onde vem aquela voz? “Neste momento acho que a Inglaterra está muito contente por não fazer parte da zona euro.” O tom aristocrata, o sotaque cerrado, colocação teatral, timbre de tenor, o silenciar das vogais a remeter para outro tempo, para um cenário vitoriano, precisamente aquele que começa por retratar e questionar no seu mais recente romance, “O Filho do Desconhecido” (D. Quixote) candidato a muitos prémios, entre eles, o Booker, vencedor de uns quantos, aplaudido pela crítica, celebrado pela imprensa mundial. Um livro que tem quase a duração do século XX, vai de antes da I Guerra à década de oitenta. “Se tivesse de o classificar diria que é uma comédia social feita a partir da hipocrisia e da afectação das classes mais altas.”

Alan Hollinghurst , 57 anos, escritor lento, de quatro romances em duas décadas, considerado um dos mais exímios manipuladores da língua inglesa, homem cheio de referências literárias que transporta para os seus romances, alguém que gosta de pegar numa certa realidade e ser cínico com ela, já pôs Margaret Thatcher a dançar numa das suas ficções, justamente em “A Linha da Beleza” com o qual conquistou o Booker em 2004. Aí havia o retrato de uma época de excessos. Agora, em “O Filho do Desconhecido”, há um fresco sobre o escondido, o jogo de segredos em que vive essa mesma aristocracia.

O livro está pousado em cima da mesa ao lado do bule com o chá da tarde. Não o dispensa. E os olhos distraem-se por momentos nos ecrãs de televisão colocados na parede. Interroga-se sobre se é verdadeiro o bigode do entrevistado num dos canais. É José Mário Branco na RTP Memória. Não se fixa no futebol, volta à economia. “Nós não estamos bem, mas vejo uma Europa ainda mais aflita”, comenta este observador de costumes, com a tal voz que parece um ensaio, retirada de uma das personagens dos seus romances. “Como é que os portugueses estão a viver tudo isto?”. Ele é um espectador. Está na posse da informação, mas não do quotidiano, e enquanto escritor é o detalhe que lhe interessa. Descreve-o como poucos. Tanto o detalhe de carácter como o pormenor da arquitectura. Acredita que os ambientes determinam os comportamentos e não foi por acaso que escolheu uma casa e uma família da aristocracia rural dos arredores de Londres para escrever sobre como se derrubam e recuperam costumes, para falar da ambiguidade e questionar o difícil que é saber a verdade sobre uma pessoa. “Se no início do século XX ninguém estava interessado na vida sexual de alguém, no final do século é só isso que se quer saber, e ao mínimo detalhe”.

É a última entrevista em três dias em Lisboa. Dentro de pouco tempo irá apanhar o avião de regresso a Londres. Já perdeu conta às vezes em que falou sobre o que quis quando escolheu para personagem central do livro Cecil Valance, um poeta que vive no ambiente de Cambridge, herdeiro rico, fisicamente perfeito, adorado por homens e mulheres, sedutor, sexualmente ambíguo, que morre na I Guerra aos 25 anos e deixou uma lenda. Matéria para a interrogação que se segue e percorre o resto do livro: “Quem é Cecil?”, o homem que está na capela da casa de família, num túmulo com a sua figura esculpida. “Interessava-me ver o que acontece ao longo do tempo com a reputação de alguém que morre cedo”. Acontece que ela se altera, não apenas no tempo, mas nas interrogações individuais acerca dela. Cada um está na posse de uma verdade. Um monstro ou o homem perfeito? Um ‘gay’ que parece ser um bi-sexual, um artista com poucos princípios. Nenhuma personagem tem a informação toda. Nem o leitor.

Hollinghurst gostou de jogar esse jogo. Por isso fechou portas, conteve-se nas cenas de sexo que eram comuns e bastante explícitas nos livros anteriores. “Se calhar deixei muita gente frustrada, mas não tinha a ver com este livro, nem quis correr o risco de me repetir”, declara o escritor que parece ter-se libertado de vez do rótulo de autor ‘gay’. Não é só isso. É muito mais do que isso. Quanto mais? “Nada de muito interessante”, ri. Se alguém um dia quiser fazer a sua biografia irá aborrecer-se de morte, avisa. “Não há nada de muito excitante.” Segredos? A dificuldade que é sempre reconstituir a vida de alguém, porque há sempre coisas que se calam, como calaram os que conheciam e se envolveram, com Cecil, quando interrogados pelo seu biógrafo. A mentira, a perda da memória, a memória que se reconstrói, a si própria, o ego, os silêncios, o passa-a-palavra. É mais o que se cala do que o que se diz em relação a Cecil. E Hollighurst? Ele que gosta de espreitar os ‘ateliers’ de escrita dos outros escritores nunca revelou o seu. “É um lugar sagrado. Uma espécie de superstição”, ri. Dá um bombom: há uma pilha de CDs, mas quando escreve exige silêncio total. “Jamais conseguiria escrever algo a ouvir REM”.

Passaram sete anos desde que venceu o Booker e sabia que os olhos estavam postos nele. A expectativa era alta. Havia apostas no mundo literário em como ele iria bisar, mas garante que o fantasma do Booker anterior nunca interferiu na escrita deste “O Filho do Desconhecido”. No início, o prémio serviu como estímulo, depois esqueceu-o. O objectivo não deixou de ser o de sempre: escrever um bom livro. Quando saiu houve barulho, foi seleccionado, mas não chegou à ‘shortlist’. Garante que não se incomodou com isso, mas o ponto final da frase é um riso irónico. Leu o romance do vencedor, “O Sentido do Fim” (agora publicado em Portugal pela Quetzal) e gostou. “Merecia estar na ‘shortlist'”. E o seu? “Não vou dizer isso, mas vou dizer que o livro de Edward St. Aubin, ‘At Last’, deveria lá estar, como o de Ali Smith, ‘There but for The’. “E diz também que este ano a ideia era premiar uma literatura mais popular. “A presidente do júri não era propriamente conhecida pelas suas capacidades literárias”. Ponto final parágrafo com uma gargalhada.

Publicado no Diário Económico de 18/10

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