Monthly Archives: December 2011

A lonjura

“Adeeeeus! Boa taaardiiii.”

Júlio António fala como quem canta, num canto arrastado que quer imitar a fala dos que vivem “do outro lado da água”, e João Duarte compara esse falar a um empurrão. “Parece que estão mandando a gente por ‘í’ abaixo com muito vagari, enrolando.” Júlio António e João Duarte falam sem pressas de outro falar com mais demoras. São dois alentejanos a imitar algarvios num teatro onde a boa vizinhança não permite mais imitações.

Quase a fazer 90 anos, Júlio António sempre trabalhou “olhando” o Algarve. Vive na margem direita da ribeira de Odeceixe, “mesmo na extrema” com o rio, e isso faz dele alentejano. Só isso, porque no resto garante que é igual aos que estão na aldeia que tem crescido tanto “que quase já chega ao mar”. Comem papas de milho como ele e gostam, como ele também gosta, de caldo de batatas com “toicinho” frito ou linguiça. Só a fala “diferencia” quem vive nas duas margens da ribeira de Odeceixe, fronteira natural entre Alentejo e Algarve, insiste Júlio António apoiado na enxada com que vai guiando a rega das cebolas ao sol do meio-dia.

Está em Baiona, de olhos postos em Odeceixe. O mesmo é dizer que está no Alentejo mas o Algarve não lhe sai da vista. “Quero lá ir este ano ver o mar. Agora têm um comboiozinho e não se paga.”

Entre a horta de Júlio António e o mar de Odeceixe há uma ponte pelo meio e é para ela que ele olha quando indica a “lonjura” que o separa dos do Algarve. Um passo. “É tudo muito perto, mas há este rio que vem de Monchique para baixo…” Já era homem quando a ponte veio unir as duas margens. “Foi em 1936. Antes, havia aí barcas e umas passadeiras para quem não pudesse pagar meio tostão”, conta, fechando um rego que há-de mudar o rumo da água com que vai amaciando o chão da cebola. “Vou tirá-la da terra amanhã, que hoje ainda não é maré.” E agora já não é de mar, mas de lua que ele fala. “A cebola apanha-se e dispõe-se na lua cheia, mas só ao sábado ou ao domingo”, que aos dias de semana “não calha bem”, explica sem levantar a cabeça do chão. Júlio António não precisou de andar na escola para aprender a ler a lua. “É ensinamento que não vem nos livros. Olho para ela e pronto”. E a lua encheu “antontem”. Foi à quinta, e a cebola será apanhada ao sábado porque quando pode Júlio respeita os domingos.

O discurso é de um alentejano mas podia ser de um algarvio, que a “a religião tanto é para uns como para outros” e dos dois lados da fronteira o sagrado mistura-se com o profano. Júlio volta a dizer que tem quase 90, que a sua aldeia é de gente velha e em Odeceixe há muitos novos, mas em Baiona ele não é o mais velho dos velhos. “Ainda há uma mulher mais velha. Chama-se Margarida.” Júlio fala sempre da idade e é mais uma vez dela que fala quando confessa, como se de um pecado: “Ontem tive saudades da morte.” Não há nada senão silêncio e novo levantar da enxada. É Júlio a deixar a água passar porque essa “saudade” também já passou.

Júlio é alentejano porque calhou nascer na margem direita da ribeira de Odeceixe, mas bem que podia falar como os algarvios se tivesse nascido do outro lado. É de lá que se identifica, irónico, João Duarte. “Sou alentejano, mas hoje sou algarvio.” Para mudar de identidade basta-lhe passar a ponte e regar o campo de milho com água que vem do Alentejo, da barragem de Santa Clara. “Aqui ou ali é a mesma coisa. Só a água é mai’mole.” A de lá ou a de cá? João Duarte hesita. “A de lá, a de lá”, insiste. E o alentejano esquece que está com os pés no Algarve.

O campo de milho onde trabalha João Duarte fica mesmo em frente da horta de Júlio António, mas na margem esquerda do rio, no caminho de Odeceixe para a Marmeleira, paisagem pontuada de alfarrobeiras e figueiras e sem niguém à vista. João Duarte não se queixa de solidão, mas adianta que dali até à povoação mais próxima ainda é uma “boa bucha”. Não se apercebeu da chegada de Manuel da Silva, algarvio nascido no Alentejo, na aldeia de Vale dos Alhos, e a morar em Odeceixe desde “a idade de sete anos”. Malha feijão numa eira improvisada e diz que é feijão algarvio mesmo que regado com água alentejana. Também ele imita o falar dos outros mas identifica aquelas terras como sendo “extremadura”, assim com “x”. Está na eira e a eira é um poço coberto. Está empoleirado e abre os braços. “Estamos ou não estamos na extrema?”

O político

O aviãozinho esperou o político no sítio das partidas vip da Portela.

Ele chegou de gravata de seda vermelha e fato de bom corte. O sorriso desfez impaciências. Seguia para norte em conversa bem feita com os convidados que foram ver como é que um político deve estar com o povo numa inauguração longe da capital. Bem falante, contava histórias num tom casual muito treinado, tentando uma intimidade que, conquistada, servia de travão a perguntas mais incómodas. Palavras contadas para conseguir aliados.

O aviãozinho voava e o político atreveu-se a dizer que tinha um certo medo. Será? Os convidados simpatizaram e fez-se humor sobre o medo. O político somava pontos. Aterrou.

Compôs a gravata, ajeitou as calças, abotoou o casaco e pôs o sorriso de acordo com o acto de descer as escadas entre o cumprimentar do senhor que lhe estendeu a mão antes de o levar ao carro sem passar pelas maçadas da segurança. O motorista esperava-o, vindo de Lisboa, no seu carro de sempre. Era preciso ir mais a norte. E o político sentou-se à frente. Disse que era sempre assim. Sempre assim. Não era, Costa? Pois.

E na terra o povo estava aos magotes, sem ordem nem arrumo. Era tarde e a paciência é limitada. Além de que os sapatos apertam e as gravatas não se moldam aos pescoços. E há tanto que fazer e dizer e o político que não vem. Mas lá vinha. A banda tocou e todos se perfilaram, presidente da Câmara à frente de uma populaça treinada para receber. Aperto de mão fraterno. Quem diria que eram rivais políticos? Eram, mas o político de Lisboa ia ali anunciar obras novas e quem diz que não a uma novidade? Havia discurso, almoço e passeio à beira rio e fatos para estrear.

Os políticos trocaram os sapatos engraxados por galochas e, um e outro, lado a lado, conversavam o que ninguém ouvia, cajado na mão a desbravar mato, como se fosse coisa de todos os dias. E os outros atrás. O da terra apontava. O de Lisboa fazia que sim com a cabeça. Seria ali. Era aquele o lugar que iria fazer toda a diferença à política nacional sem que ninguém desconfiasse. Vendia-se orgulhos e todos compravam. E falaram, anunciaram, sorriram, voltaram a apertar a mão, deram palmadas nas costas, ouviram palmas e calaram o que havia para calar. Palavra de político. O negócio estava feito. Comeu-se carne, bebeu-se vinho, provou-se o doce e não houve tempo para café. O político de Lisboa é ocupado e tem de chegar a horas para a reunião. A reunião!

E veio o carro e depois o aviãozinho e o político foi citando pensadores, inspirações, referências, passou pelo corredor e arredou a cortina da janela do gabinete. Acendeu o cigarro e olhou o rio da varanda.

No baloiço

Havia violetas debaixo do baloiço. Um tapete enorme e fofo. Vi-as ir e vir na minha viagem pelo ar agarrada às cordas presas na nogueira.

Lembrei-me delas hoje por causa da Maria Gabriela Llansol. Aquele verde pontuado de lilás com um poço branco à frente e uma roldana que rangia sempre que o balde ia ao fundo.

Não lembro se tinham o cheiro das malvas gigantes naquela humidade junto da pedra. Eu ia e vinha e nunca lhes tocava, nas violetas. Esticava os pés o mais que podia, até sentir a tábua a escorregar de mim e voltava ao sítio. Ganhava confiança e focava o céu entre as folhas da árvore. Acho que estava dias naquilo até ouvir o meu nome ao longe.

Havia sempre um cão a guardar-me. Parece que se revezam entre eles, acordo tácito nunca revelado mas infalível. Sempre um. E todos tinham nomes de coisas ou lugares, às vezes um cão era uma frase inteira, imperativa. “Não se mexe!” E eu repetia-a e ele olhava até se cansar da minha brincadeira parva. Era só para ver se ele tinha cara para aquelas palavras. Às vezes ganhavam feições de rio ou de um continente. O que é que têm os cães a ver com a geografia? O Tejo, o Guadiana, o Ribatejo, todos animais de alerta. Aos gatos davam quase sempre nome de gente, ou então diminutivos. Mas não havia gatos por ali, os cães não permitiam. Via gatos nos quintais vizinhos mas desconfiava deles por não se deixarem agarrar.

E ia e vinha no baloiço e inventava. Deixava que tudo se misturasse na minha cabeça e aquele vaivém ajudava ao delírio infinito.
Tudo parecia possível do alto daquele baloiço. Eu tinha a certeza de que era possível.
Um dia.
Um dia tudo seria possível. Não sei se era do chão de violetas, do perfume das malvas, do ladrar do cão já farto de tanto tomar conta. Havia um chão, uma confiança transmitida pela terra, a paisagem mimava-me e eu deixava-me ir, embalada em mim. Feliz.

Um dia caí do baloiço de tanto olhar para o céu em voos cada vez mais arriscados e o cão lá estava, veio lamber-me o joelho. “Deixa estar que faz bem”, avisou-me já não sei bem quem. E eu deixei o quente da língua daquele cão que se chama uma frase, limpar-me o esfolão. Não sei se foi a saliva ou o milagre das palavras do seu nome, mas nunca uma ferida sarou tão rápido. O cão chamava-se “já passou”.

E foi, um dia, como todos. Entre o legado que deixavam, o nome era precioso. Eu costumava nomeá-los a todos. Aos que conhecia e aos que tinha conhecido. Já nem se contavam pelos dedos.  Até que veio mais um. Chamei-lhe “há pedras debaixo das violetas”.

Sina de Natal

Um, dois, três, pé direito.

Não vá o diabo tecê-las nem as bruxas se distraírem na sua roda de chuva. Se houvesse madeira, lá ia o lagarto lagarto lagarto. Não há. E agora? Que seja o que Deus quiser, então. Só que parece que Deus não gosta de ser colocado nestas coisas da superstição.

Ela prefere chamar-lhe cautelas e caldos de galinha, já se sabe que nunca fizeram mal a ninguém a não ser às pobres das galinhas. Mas senão fosse para o caldo iam para a cabidela, por isso… Estava ela aqui a cogitar enquanto os pingos grossos batiam na vidraça e veio o trovão. Despertou-a do torpor, da lengalenga irracional, da imagem de uma bruxa vestida de cigana à porta de um banco, mesmo com a caixa para pôr cartão e sair o dinheiro que paga a sina. Há umas mais caras que outras e parece que o preço depende mais da aparência do cliente do que do tamanho do mau olhado por desfazer. “Alguém lhe quer fazer muito mal”, disse-lhe. Pois. Ela de mão direita estendida e a esquerda a segurar o jornal de um dia já com cheiro a castanhas e músicas de Natal a sair não sabe bem de onde. “Há um amor que vem de longe e não a querem deixar vivê-lo.” Hummm. A coisa a compôr-se nos seus perigos. Uma a olhar nos olhos da outra e a mão aberta. Há mais. “É um mal muito grande o que lhe querem fazer”. Ai… teria sido tão mais fácil dizer não à camisola de marca que a mulher de preto trazia nos braços. Era a camisola ou a sina. A ela calhou-lhe a sina e a merda da dificuldade em dizer “não quero nada. Importa-se de me deixar seguir para uma esplanada e pedir um café com leite e ver quem passa sempre que levanto a atenção das páginas de gente que também não parece querer-me muito bem e por acaso também me manda para o multibanco sempre que tem um pretexto.”

“Se a menina quiser eu posso curar-lhe esse mal que nunca a vai deixar ser feliz.” Apre, está a ficar aflitivo. “Dá-me agora 50 euros e eu vou fazer uma reza. Segunda passa por cá e dá-me o resto, mais 50, Estou aqui à mesma hora e tenho uma coisa para lhe entregar que vai protegê-la.” É pegar ou largar, faltou dizer. E ela quase a pegar porque deixar ir era um risco demasiado arriscado. Pagar ou não ser feliz. Afinal, teria sido tão mais fácil levar a camisola de marca. Fazia-lhe um embrulho e pronto. Estava resolvida uma prenda. Por menos de 50 euros e sem desafios à sorte.

E agora? A mão continuava aberta e já ninguém a lia. A cigana esperava, que não estava ali para a enganar que Deus a castigasse se fizesse uma coisa delas ainda mais a uma menina que via-se que sofria.” Oh como a cigana sabia de psicologia humana. Estava num canto da rua, numa esquina que escolheu para as proteger do mundo, multibanco ao lado não fosse dar-se o caso de ser preciso levantar os 50 euros. Bom serviço. Cinco estrelas. A cliente não teria de se maçar muito. Marcar código e já está. Dinheiro na mão.

E ela pensava nas palavras da cigana, no enguiço que seria não haver reza. Quem não sofre? Quem não tem um amor gostava de ter? E a inveja já se sabe, anda por aí. Bruxaria de cordel e ela a cair. Ou isso ou a carteira ‘luis viton’, dizia a cigana mais nova sem o dizer, apenas abanando a mercadoria à escolha do freguês que passava. E a mais velha num murmúrio que ela já não ouvia. “É pagar ou não ser feliz”, atirava-lhe o cérebro em jeito de pregão de rua. Como passar em frente? Ó pregãozinho eficaz. E as contas de cabeça. 50 euros era dinheiro, mas não era assim tanto, e depois faz de conta que não os tinha. E já não precisava da carteira da outra. Podia também fazer de conta que não tinha ouvido nada do que lhe fora dito. “É pagar e ser feliz. Só 50 euros”, voltava a ladainha, cérebro traiçoeiro, aliado de bruxas que se vestem de boas para desfazer o mal. E outro trovão. reparou que o jornal de sábado ainda estava enrolado. Não houve esplanada nem café com leite. Pagou pela sorte e agora parece à espera que ela venha em forma de amuleto. Amanhã na mesma esquina, a salvo do mundo. “Just in case”, justifica-se, também não haveria de ser por 50 euros. Pois não?

Claro, agora só faltam os outros 50 euros.

Livros com música II

Deixa o Grande Mundo Girar
Colum McCann
Civilização

“Joshua gostava dos Beatles, costumava ouvi-los no seu quarto, conseguia ouvir-se o ruído mesmo através dos grandes auscultadores de que ele gostava tanto. Let it Be. Uma canção idiota, de facto. Se deixares andar as coisas, elas voltam. Essa é a verdade. Se deixares andar as coisas és arrastado para o chão. Se deixares arrastaras coisas, elas trepam pelas tuas paredes.”

Banco de jardim

Passei pelo banco e senti-lhe a falta.

Um banco verde, comprido, de ferro forjado e assento de ripas. Um daqueles bancos com dono, numa propriedade repartida por horas do dia. Há momentos em que é de um e alturas em que outros lhe tomam o lugar. Sempre aquele banco, quase sempre as mesmas pessoas que o habitam diariamente num time-sharing sem contrato assinado. Apenas tácito, conveniente, sem despejos. E era dele aquele banco, sempre o mesmo, às mesmas horas, no mesmo jardim de Lisboa. Nove da manhã, saco cheio de jornais,  o jornalista passava revista à imprensa. Sem pressas, num ritual de atenções que dependia da manchete. Óculos na ponta do nariz, alheio às crianças aos pássaros e aos cães que o rodeavam, o tal jornalista fixava apenas as letras e o sentido que tirava delas ia-lhe moldando a expressão. Supresa, indignação, prazer numa escrita mais criativa e substantiva que essa coisa de adjectivar irritava-o, como o irritava o erro por preguiça de investigação, a leviandade de uma crítica que capaz de destruir alguém feita por outro alguém a quem não reconhecia autoridade para destruir quem quer que fosse, quanto mais…

Isso ele não entendia, como não entendia a desonestidade intelectual, como o enfurecia a arrogância dos ignorantes que alardeavam conhecimentos fáceis para trepar num pedestal qualquer. Isso sempre naquele banco, ou então, quando chovia, no café da frente. Tomando o lugar na mesa, sem pressas, dando passas num cigarro que lhe ia morrendo nas mãos porque dele se esquecia, até se lhe apagar nos dedos. Ele era de rituais e aquele era o mais sagrado. Sobretudo quando o tempo lhe permitia estar no banco. O banco está lá. Ele não, mas ele continua a ser o dono de banco para quem lá passa àquela hora e o vê vazio.

É um banco de jardim, verde, de ferro forjado e ripas. Tanto tempo foi dele que ainda ninguém na cidade o tomou àquela hora. Não fiz cerimónia. Sabia que ele não iria chegar. Sentei-me, abri o meu saco de jornais de sábado e esqueci o resto. Menos o mundo que estava nas páginas. Um mundo que neste momento o faria bradar aos céus.

Hoje tive muitas saudades do Torcato.

 

 

Livros com música I

Errata
George Steiner
Relógio d’Água

“A minha incapacidade de cantar ou tocar um instrumento é humilhante. Mas é frequente a música pôr-me ‘fora de mim’, ou mais exactamente, numa companhia muito melhor do que a minha. Materializa o oxinoro do amor, essa fusão de dois indivíduos na unicidade, sendo que cada um deles, mesmo no momento do uníssono espiritual e sexual, conserva e enriquece a sua identidade. Ouvir música com o ser amado é estar numa condição simultaneamente privada, quase autista, e todavia estranhamente envolvida com o outro (a leitura a dois em voz alta não atinge o mesmo nível de fusão).”

A reflexão daquele que é um dos mais brilhantes pensadores da actualidade, George Steiner no livro autobiográfico “Errata: revisões de uma vida), surge na sequência do relato de um facto:, terá sido a música a salvar o filósofo Wittgenstein do suicídio. E que música? “o lento movimento do terceiro quarteto de Brahms.