Banco de jardim

Passei pelo banco e senti-lhe a falta.

Um banco verde, comprido, de ferro forjado e assento de ripas. Um daqueles bancos com dono, numa propriedade repartida por horas do dia. Há momentos em que é de um e alturas em que outros lhe tomam o lugar. Sempre aquele banco, quase sempre as mesmas pessoas que o habitam diariamente num time-sharing sem contrato assinado. Apenas tácito, conveniente, sem despejos. E era dele aquele banco, sempre o mesmo, às mesmas horas, no mesmo jardim de Lisboa. Nove da manhã, saco cheio de jornais,  o jornalista passava revista à imprensa. Sem pressas, num ritual de atenções que dependia da manchete. Óculos na ponta do nariz, alheio às crianças aos pássaros e aos cães que o rodeavam, o tal jornalista fixava apenas as letras e o sentido que tirava delas ia-lhe moldando a expressão. Supresa, indignação, prazer numa escrita mais criativa e substantiva que essa coisa de adjectivar irritava-o, como o irritava o erro por preguiça de investigação, a leviandade de uma crítica que capaz de destruir alguém feita por outro alguém a quem não reconhecia autoridade para destruir quem quer que fosse, quanto mais…

Isso ele não entendia, como não entendia a desonestidade intelectual, como o enfurecia a arrogância dos ignorantes que alardeavam conhecimentos fáceis para trepar num pedestal qualquer. Isso sempre naquele banco, ou então, quando chovia, no café da frente. Tomando o lugar na mesa, sem pressas, dando passas num cigarro que lhe ia morrendo nas mãos porque dele se esquecia, até se lhe apagar nos dedos. Ele era de rituais e aquele era o mais sagrado. Sobretudo quando o tempo lhe permitia estar no banco. O banco está lá. Ele não, mas ele continua a ser o dono de banco para quem lá passa àquela hora e o vê vazio.

É um banco de jardim, verde, de ferro forjado e ripas. Tanto tempo foi dele que ainda ninguém na cidade o tomou àquela hora. Não fiz cerimónia. Sabia que ele não iria chegar. Sentei-me, abri o meu saco de jornais de sábado e esqueci o resto. Menos o mundo que estava nas páginas. Um mundo que neste momento o faria bradar aos céus.

Hoje tive muitas saudades do Torcato.

 

 

2 responses to “Banco de jardim

  1. Gosto deste texto.
    Paulo

  2. elísio summavielle

    Campo de Ourique, as manhãs do Torcato… bonita evocação, Parabéns.

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