No baloiço

Havia violetas debaixo do baloiço. Um tapete enorme e fofo. Vi-as ir e vir na minha viagem pelo ar agarrada às cordas presas na nogueira.

Lembrei-me delas hoje por causa da Maria Gabriela Llansol. Aquele verde pontuado de lilás com um poço branco à frente e uma roldana que rangia sempre que o balde ia ao fundo.

Não lembro se tinham o cheiro das malvas gigantes naquela humidade junto da pedra. Eu ia e vinha e nunca lhes tocava, nas violetas. Esticava os pés o mais que podia, até sentir a tábua a escorregar de mim e voltava ao sítio. Ganhava confiança e focava o céu entre as folhas da árvore. Acho que estava dias naquilo até ouvir o meu nome ao longe.

Havia sempre um cão a guardar-me. Parece que se revezam entre eles, acordo tácito nunca revelado mas infalível. Sempre um. E todos tinham nomes de coisas ou lugares, às vezes um cão era uma frase inteira, imperativa. “Não se mexe!” E eu repetia-a e ele olhava até se cansar da minha brincadeira parva. Era só para ver se ele tinha cara para aquelas palavras. Às vezes ganhavam feições de rio ou de um continente. O que é que têm os cães a ver com a geografia? O Tejo, o Guadiana, o Ribatejo, todos animais de alerta. Aos gatos davam quase sempre nome de gente, ou então diminutivos. Mas não havia gatos por ali, os cães não permitiam. Via gatos nos quintais vizinhos mas desconfiava deles por não se deixarem agarrar.

E ia e vinha no baloiço e inventava. Deixava que tudo se misturasse na minha cabeça e aquele vaivém ajudava ao delírio infinito.
Tudo parecia possível do alto daquele baloiço. Eu tinha a certeza de que era possível.
Um dia.
Um dia tudo seria possível. Não sei se era do chão de violetas, do perfume das malvas, do ladrar do cão já farto de tanto tomar conta. Havia um chão, uma confiança transmitida pela terra, a paisagem mimava-me e eu deixava-me ir, embalada em mim. Feliz.

Um dia caí do baloiço de tanto olhar para o céu em voos cada vez mais arriscados e o cão lá estava, veio lamber-me o joelho. “Deixa estar que faz bem”, avisou-me já não sei bem quem. E eu deixei o quente da língua daquele cão que se chama uma frase, limpar-me o esfolão. Não sei se foi a saliva ou o milagre das palavras do seu nome, mas nunca uma ferida sarou tão rápido. O cão chamava-se “já passou”.

E foi, um dia, como todos. Entre o legado que deixavam, o nome era precioso. Eu costumava nomeá-los a todos. Aos que conhecia e aos que tinha conhecido. Já nem se contavam pelos dedos.  Até que veio mais um. Chamei-lhe “há pedras debaixo das violetas”.

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