Não, não passei o ano em Time Square

A mão no bolso trouxe areia da praia. Havia meses que não a pisava.

O cachecol ficara em casa e, encolhida, voltava às luvas com o verão a sair-me da algibeira. Em West Village, subo a Broadway e empurro a porta na esquina com a 12. Último dia de um ano que todos parecem querer ver pelas costas, mesmo na certeza de que o que aí vem será talvez pior. Mas se é para vir, que venha logo. De cor, fazem-se balanços. Estão por todo o lado para quem quer estas coisas em self-service e cada um veste o balanço que lhe serve.
Penso nos meus. Nos rostos, sobretudo. Ganhos e perdas. Quem chegou e quem foi. Onde estive, onde quis ir e não fui, onde falhei, o que ganhei. Os pensamentos andam soltos como as emoções e entro assim na Strand.

O frio do nariz derrete naquele calor feito de 18 milhas de livros. É a maior colecção de livros usados, antigos, o maior fundo de catálogo de uma livraria, a perdição dos viciados em papel impresso. Gula diante do banquete. Os novos, os velhos, os sucessos, os best-off, os malditos, os alternativos… A certeza de que vai faltar sempre tempo é física e arrepia mais do que a temperatura lá fora. Vários pisos de lombadas que mais parecem um depósito de velha biblioteca do que uma livraria contemporânea. Só o merchandizing e as primeiras ilhas tentam os espíritos mais consumistas. O resto são livros arrumados mais ou menos por géneros, segundo uma lógica que ficou do seu fundador, Ben Bass, em 1927, e que os seus sucessores conservaram mais de oito décadas depois.

Uma rapariga abre um livro e cheira. Chama o pai e partilham o aroma de uma velha edição de “Proud and Prejudice” no escaparate dos clássicos e há quem se perca na “Americana”, estreitas alamedas de prateleiras dedicadas à ficção nacional. Parece uma caminhada rumo a uma decadência desejada que se acentua no piso de baixo, piso de betão cru onde o amarelo das folhas guarda fórmulas matemáticas e teorias sociais novas ou em desuso.
E há gente por todo o lado, atropelos por uma descoberta, uma pechincha.

Volto às escadas, agora para subir até ao princípio de tudo, à entrada. E no princípio lá está uma perda, recente, ainda muito viva, raiva que já tinha serenado. A da impotência perante a mais cobarde das doenças. Sorrateira, leva-nos alguns dos melhores. Christopher Hitchens, o jornalista que quase todos os jornalistas viam como referência, fora vítima dela aos 62 anos, o momento em que o seu faro e a sua qualidade de escrita estavam no ponto. Ali está Hitchens na sua ausência. Agora memória em quase todos os seus livros editados ou reeditados. Pego em alguns na esperança de algum contágio de talento.

Como era ser Hitchens? O escritor, o repórter de guerra, o apaixonado narrador de uma actualidade sobre a qual não abdicava de ter uma posição. Polémico, arguto, activista contra as religiões que um dia escreveu que “Deus não é Grande”, romance best-seller, alguém que desde que soube que tinha um cancro passou a falar da morte nos seus artigos na “Vanity Fair”, onde escrevia desde 1992 depois de ter chamado “sexy” à rainha de Inglaterra e ter escolhido a América para viver. O menino de Oxford e Cambridge que achava que não tinha jeito para nada acabou por ser uma estrela das palavras. Não das palavras vazias, mas das que geram reacções apaixonadas. A mãe ensinara-lhe que não havia nada pior do que ser aborrecido,a mãe que um dia aparecera morta. Esse aborrecimento era o maior medo deste boémio, conversador, fumador e bebedor convicto.

Sigo de um livro para o outro. Ponho todos num monte. Abro o de citações, recomendado pelo seu melhor amigo, o escritor britânico Martin Amis. Decido-me por “Hitch-22: a Memoir”, um jogo de palavras entre o seu nome e o romance de Joseph Heller, “Catch-22”. Foi o seu último livro, uma autobiografia que estava a escrever quando soube da doença. Foi editado em 2010, na Primavera. A tempo de ser comentando e promovido pelo próprio jornalista; a tempo de terem sido publicadas críticas e recensões em vida do autor. Trouxe-o comigo. Hitchens por Hitchens. Interessa-me.

É uma das minhas memórias de 2011. Está por abrir. Espero o momento, o sofá, a companhia para uma conversa. Sei que vou encontrar lá dentro alguns grãos de areia que tinha nas mãos quando o folheei. Areia de um dia de sol em 2011. Vou encontrar também o cheiro a papel da Strand e aquele outro dia desse mesmo ano em que subi a Broadway de mãos dadas.

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