O senhor do 2º frente

O senhor do segundo andar da frente hoje não se ouviu. Costuma gritar aos domingos.

Da janela, só o recorte de chaminés em fundo azul. Sorte de viver por cima e puder escolher onde olhar.
Ele costuma arrastar-se na escuridão, a sua janela com os vidros amarelos de tanto pó e tempo. À noite as cortinas rasgadas só deixam passar a iluminação da vela. E ele como um espetro pelo casarão. Cabelos da cor das cortinas, barbas que não sei onde acabam. Penso em Charles Dickens e nos seus andrajosos, quem sabe se induzida pela leitura recente. São Tempos Difíceis que não parecem coisa deste tempo.

Às vezes vejo-o num cadeirão roto, a cabeça apoiada numa mesa onde parece haver uma jarra com flores caídas. Não sei se secas se de plástico, mas ali há anos. Ele esqueceu-se delas e alguém se esqueceu dele, o louco, o doido, o que é maluco, que um dia se passou. É o que dizem. A vizinha do lado, por exemplo, tão curiosa da loucura que a espreita de lado como se olhasse sem querer.
A loucura atrai os aborrecidos. Parece vertigem. Um passo em falso e … Ainda se a sua loucura pudesse ser subtraída ao mundo! Isso era o que queria o de baixo, aquele a quem o de cima incomoda o sossego da menina que dorme durante as tardes.

E eu à espreita, refugiada na minha janela indiscreta, numa conversa muda e surda.

Será que o louco é mesmo doido? Quem lhe leva a garrafa que tem sempre na mão? Vejo tudo menos a porta da frente. Será que sai? Terei alguma vez cruzado os meus passos com os dele? Não o sei fora das sombras e a vizinha não tem espelhos nos olhos quando tira a roupa da máquina e a sacode com a cabeça virada num torcicolo coscuvilheiro. O Estendal para um lado, os olhos para o outro. Habilidades de comadre treinada no jogo do por detrás das cortinas. Por isso sombra é tudo o que sei dele e a comadre lá prende a toalha ao arame, uma mola na mão outra na boca e toda ela é cor e espalhafato.

Mas hoje nem ele nem ela. Só o céu azul e as chaminés. De vez em quando um avião na autoestrada aérea.

Nem o homem do rés-do-chão aproveitou para se bronzear na espreguiçadeira. Verão ou inverno, haja sol. Só se levanta quando o tal do louco grita e incomoda a menina. Nunca a vi, mas é o que ele costuma dizer: “Cale-se que a menina está a dormir.” Uma vez subiu as escadas de serviço e foi bater à janela das sombras. Que chamava a polícia, que haveriam de o levar para o Júlio de Matos, que não se podia com o cheiro. E lá veio a do lado, mãos nos bolsos na bata de andar por casa, cabelo louro de raízes pretas. Que o levem, pois, “já não se pode”.

O que se pode? Será que o levaram? Não se ouve. Um grito, um protesto, vidros a partirem contra sabe-se lá o quê. A casa continua amarela e há roupa ao vento nos quintais. Nunca no estendal do maluco que tem os arames caídos. Será que uma mãe o deixou por ali, a mulher fugiu? O abandono feminino às vezes dá em loucura. A literatura está cheia disso. E esses quintais? Os turistas pintam-nos dos miradouros mas não vêm as esfinges nem ouvem os seus lamentos. Se eu pintasse e fosse turista e estivesse num miradouro… Mas não sou nada disso, apenas tenho a janela e a proximidade e tento inventar vidas para aquele vulto tão perto de mim. A sombra que me põe a pensar que talvez ele não seja afinal doido, ou nem sempre louco. Sei lá.

O sol vai doirando o fim de tarde e na penumbra a normalidade confunde-se com o resto.
Pode ser que ele esteja lá e apenas não tenha uma vela para acender e me veja como uma sombra a quem me chame louca.

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