A vertigem

Equilíbrio imperfeito, uma escorregadela e mãos ao chão.

Subia a montanha de olhos no céu como não recomendam as regras de um bom caminhante. A cada passo uma viagem, as que fiz e não contei. Momentos como postais, flashes de fotografias na memória e a esperança e um dia saber passar a mesma emoção a alguém. Sempre a adiar. Talvez um dia consigas a conjugação certa para dizer que o abismo é a única coisa que me segura. Ou então como explicar aquele grito que grito sai mudo? A hora era do êxtase das cores. O amarelo nunca foi tão bem definido, nem o verde tão incandescente e lá estavam todos os seres nunca vistos a passavam por baixo sem que eu lhes fizesse sombra. Eu deitada no maior aquário do mundo. O oxigénio a entrar nos pulmões, mas a respiração a atrofiar diante daquele sem fim, sem fundo, sobre o que segurava o meu corpo indiferente às gotas de uma chuvada tropical. Calor e um arrepio.

É o paraíso, convencia-me. México e um dos maiores recifes do mundo e eu nele. Qual quê? Maior que tudo era vertigem e as cores que se misturavam num turbilhão fluorescente, espiral com uma só saída.

Barco à vista, mãos no ar. Que me salvem senão eu vou-me… Onde? Ao fundo? Claro. Pra quê falar dessa humilhação de ficar três horas num barco à espera que os outros se divertissem naquele sem fundo, que o experimentassem descendo mais? Nada para contar a não ser o medo e a conversa presa com o aventureiro que levava turistas ao mar sem saber do medo do abismo. Um suíço que conhecia os Açores ao lado de um mexicano que queria lá saber. Que o acordassem quando tudo acabasse. Claro ombre! Era igual aos que vi passearem-se com metralhadoras em Guanajuato, cidade na rota da prata, onde universitários e descendentes de mineiros partilhavam a mesma música em ruas garridas, como no mar, mais a sul.

Porque é que me veio agora o México? Logo quando escorreguei a subir uma montanha na humidade do Outono na Madeira, talvez meses, talvez anos depois.

Foi outra vertigem, eu no fundo, a olhar o céu e a tontura de tanto azul. Talvez seja assim com as viagens, umas nas outras, coladas por sensações como selos com cuspo em postais ilustrados. Andam pelas gavetas.

Será por isso que parece que conheço o Chile onde nunca estive? Uma vez deram-me uma igreja em barro, branca e azul, e parece que vejo as mãos que a esculpiram. A ilusão. Fui ao Chile naquela igreja que me trouxeram de lá. Fui a Buenos Aires com Borges. E depois? Entrei numa ermida nos Açores de olhos molhados e nunca mais de lá saí. Nem nos Capelinhos. Aí fui à lua, mas foi trágico o arrepio. Não sei bem por onde andei.

Vou andado, olhando arranha-céus de Tóquio e Nova Iorque, parando na tasca para comida gordurosa. Gosto de apanhar aviões, mas uma carroça também serve.

Tomo notas de emoções em contas de restaurantes, bilhetes de eléctrico. Depois perco-as. Talvez um dia aprenda como se faz isto de contar lugares.

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